1.A esquerda nacional não está muito bem. Tenho pena porque, durante a minha adolescência e juventude, conheci e privei com alguns dos seus representantes com quem aprendi alguma coisa e absorvi, sobretudo, alguma autoridade moral de que nessa altura, já lá vai muito tempo, ainda era depositária. Nunca lhe neguei então essa qualidade.
O pior foi depois. Muitas décadas volvidas a esquerda não esqueceu o que sofreu durante a ditadura e quer vingança. E quererá. Mas não percebeu o essencial. Nos dias de hoje as aleivosias do dito «fascismo» de 1926 a 1974 não motivam ninguém. Por outro lado, as bandeiras das nacionalizações, da reforma agrária e do controlo operário, tuteladas pelo chamado «Conselho da Revolução», espécie de quisto cancerígeno numa Europa democrática, já não mobilizam ninguém, e os militares «revolucionários», os poucos que ainda estão vivos, regressaram aos quartéis ou estão aposentados. Tudo isto está ultrapassado.
O que lhe resta então? A mitologia.
2.Num país como o nosso, a mais velha nação europeia, a mitologia é muito eficaz. Existiu sempre, desde a batalha de Ourique até às apócrifas «cortes de Lamego», ao desejado D. Sebastião e mais actualmente à «transição para socialismo» como reza a actual e resistente Constituição. Para muito português a realidade não interessa pois o que conta é o mito. Os nosso melhores, desde Camões, ao padre António Vieira, a Eça da última fase, e a Pessoa e A. Quadros, entre outros, não se enganaram. O próprio Saramago, embora a outro nível, também se apercebeu.
Os mitos da esquerda são, contudo, cada vez mais difíceis de divulgar e consolidar. A escatologia marxista já não pega e hoje os seus mais convictos e tardios defensores escondem-se por detrás de anúncios e de imbecis programas televisíveis. Sinais dos tempos comerciais que logo abraçaram. Não vão longe na vã tentativa de manipular os portugueses que, educados em várias décadas de verdadeira e sã democracia, não se deixam enganar.
3.Que resta então à esquerda? Num país como o nosso em que o jacobinismo reformador e autoritário tem tradição, embora menor do que na sua francesa pátria de eleição, só lhe resta cerrar fileiras e avançar. Avançar contra o mito do «fascismo» que está sempre de regresso quando a esquerda não ganha eleições. Ouvem-se agora vários ignorantes dizer as alarvidades mais espantosas. Uns afirmam que s direita é «protofascista», coisa que ninguém sabe o que significa, tal como outrora diziam enormidades semelhantes, outros garantem que a democracia está «em perigo» porque não foram contemplados com o que queriam ou porque a vida não lhes está a correr bem, outros ainda asseveram que vem aí uma nova e brutal «ditadura». A esquerda parece hoje o muro das lamentações.
Daí que, servindo-se da enorme riqueza semântica da língua portuguesa, em toda a parte vê a esquerda «fascistas», «fascistinhas», «fascistões», «fascistóides», «fascisteiros» e por aí fora. O termo fascista deixou de ser um substantivo e transformou-se pela mão da esquerda num adjectivo.
4.A coisa seria cómica se não tivesse por detrás a mais crassa ignorância e não traduzisse a mais descarada má-fé. O fascismo foi um modelo político que existiu em diversos países, com uma origem certa e determinada e apresentando características específicas que se nunca mais repetiram nem repetirão. Não vale a pena explicar aos esquerdistas o que foi o fascismo porque eles nem percebem nem querem perceber, mas uma coisa é carta: o fascismo não é hoje o culpado dos desaires eleitorais da esquerda nem da sua progressiva perda de influência cultural. O problema não vem do fascismo mas da própria esquerda que se revela cada vez mais incapaz de apresentar soluções alternativas e cujo património moral de outrora já há muito foi interiorizado pelas forças do centro político e da direita.
Daí o mal estar na esquerda, a mais moderada, porque sabe que tem um difícil trabalho pela frente e a mais radical porque já entrou em histeria e desatou aos pontapés a tudo aquilo que não compreende.