Não foi preciso resgatá-lo das “cinzas”, como Donald Trump prometeu, mas do fundo do porto de Baltimore. Derrubada e atirada à água durante os protestos contra o racismo institucional em 2020, por manifestantes que viam em Cristóvão Colombo um símbolo de genocídio e exploração dos povos indígenas, a estátua foi, entretanto, retirada da água e uma réplica desta apareceu este domingo no centro do poder político americano. A administração do Presidente Donald Trump instalou-a nos jardins da Casa Branca, marcando o regresso de uma figura, cuja história o próprio Presidente tem procurado reabilitar.
“Nesta Casa Branca, Cristóvão Colombo é um herói, e o Presidente Trump garantirá que seja homenageado como tal por gerações vindouras”, afirmou Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca, num comunicado citado pelo The New York Times.
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Na madrugada de domingo, a escultura foi instalada na zona norte do Edifício Executivo Eisenhower, em Washington, um complexo adjacente à Casa Branca que acolhe vários serviços da presidência. A obra, da autoria de um artista de Maryland feita com fragmentos da estátua original, encontra-se atualmente protegida por uma vedação.
“Destruída em 4 de julho de 2020”, lê-se numa inscrição na base da escultura, segundo o Washington Post. “Ressuscitada em 2022.”
A decisão insere-se numa estratégia mais ampla da administração Trump de recuperar monumentos retirados na sequência dos protestos que se seguiram à morte de George Floyd, em 2020. Nesse período, mais de 30 estátuas foram removidas em poucos meses, seja por ação de manifestantes, seja por decisão das autoridades. Algumas dessas peças foram entretanto colocadas em novos contextos, incluindo igrejas, museus e organizações da comunidade ítalo-americana.
Estas organizações têm-se, aliás, oposto à retirada do explorador genovês do espaço público, com várias associações a defenderem Colombo como um símbolo ligado à história e à afirmação dos imigrantes italianos nos Estados Unidos.
A possibilidade de integrar esta estátua em propriedade federal surgiu no contexto dos preparativos para os 250 anos da independência norte-americana. Num documento oficial divulgado no ano passado, Trump descreveu Colombo como um “herói americano por excelência, um gigante da civilização ocidental e um dos homens mais corajosos e visionários que alguma vez pisaram a face da Terra”.
“De forma escandalosa, nos últimos anos, Cristóvão Colombo tem sido o alvo principal de uma campanha cruel e impiedosa destinada a apagar a nossa história, difamar os nossos heróis e atacar o nosso património. Diante dos nossos olhos, radicais de esquerda derrubaram as suas estátuas, vandalizaram os seus monumentos, mancharam a sua reputação e procuraram exilá-lo dos nossos espaços públicos. Sob a minha liderança, esses dias finalmente acabaram — e a nossa nação irá agora respeitar uma verdade simples: Cristóvão Colombo foi um verdadeiro herói americano, e todos os cidadãos estão eternamente em dívida para com a sua determinação incansável.”
Para Edward Lengel, ex-historiador-chefe da Associação Histórica da Casa Branca, o que a atual administração norte-americana está a fazer, com a “remodelação radical” dos jardins da Casa Branca “é transformar tudo num campo de batalha partidário”.