Na entrada para a terceira semana de guerra, os navios passam no estreito de Ormuz a conta-gotas. Mas o Irão ameaça agora impor mesmo um bloqueio total, caso os Estados Unidos ataquem as centrais nucleares iranianas. O objetivo do Irão continua a ser aumentar o custo da guerra para Washington — e para o mundo inteiro —, tendo ameaçado ainda novos ataques contra infraestruturas energéticas — “Os preços do petróleo vão subir durante muito tempo”, ameaçou o presidente do Parlamento iraniano — e ainda contra as instituições financeiras que comprem títulos do tesouro dos EUA, “manchados com o sangue iraniano”.
No palco de guerra, os ataques mais intensos deste fim de semana aconteceram em Israel e no Líbano. Um ataque iraniano que fez mais de 200 feridos no sul de Israel, no sábado, levantou questões sobre a eficácia das defesas anti-aéreas israelitas à medida que a guerra progride, tendo o Exército declarado no domingo que a taxa de sucesso nas interceções continua acima dos 90%. Já no Líbano, Israel está focado na destruição de infraestruturas civis — habitações e pontes — que dizem ser utilizadas com propósitos “terroristas”.
A ação israelita no Líbano motivou a condenação do Presidente libanês, que apelou à ação internacional contra Israel. No sentido inverso, também Benjamin Netanyahu apelou à mobilização dos líderes mundiais, mas para se juntarem à ofensiva israelo-americana contra o Irão. Enquanto a guerra continua a escalar no Golfo e no Mediterrâneo, algumas das milícias iraquianas pró-Irão deram um passo atrás e declararam ter suspendido durante cinco dias os ataques contra interesses norte-americanos na região.
Pode recordar os acontecimentos de sábado aqui.
Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo deste domingo, dia 22 de março:
No Irão:
- O Exército israelita anunciou a destruição de infraestruturas de produção e armazenamento de armas do Ministério da Defesa iraniano, no leste de Teerão.
- Uma base do Exército iraniano utilizada para treinos e armazenamento de armas no sudoeste de Teerão e uma infraestrutura de produção de armas no oeste da cidade foram alvo de ataques israelitas.
- Foram ouvidas explosões no complexo aeroespacial de Khojir, um alvo que já foi previamente atacados por Israel e pelos Estados Unidos.
- Imagens de satélite publicadas este domingo revelaram duas crateras na pista do aeroporto de Bushehr, devido a ataques ao longo da terceira semana de guerra.
- As forças israelitas e norte-americanas relataram ainda novos ataques contra bases aéreas e infraestruturas de produção de armazenamento de drones por todo o país e sedes e centros de comando em Teerão.
- Israel disse ter destruído, em particular, um “centro de comando de emergência“, o que aponta, segundo os analistas, que o Irão estará a construir infraestruturas improvisadas face ao ritmo de destruição das bases e quartéis-generais.
- A Guarda Revolucionária Islâmica ameaçou bloquear completamente o estreito de Ormuz se os Estados Unidos atacarem as centrais nucleares iranianas. No mesmo comunicado, declaram que, em caso de ataque, o estreito só será reaberto depois de as centrais serem reparadas.
- O Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, voltou a ameaçar ataques contra “infraestruturas críticas e infraestruturas energéticas e petrolíferas” que ficarão “destruídas de forma irreversível”, classificando-as como alvos legítimos. “Os preços do petróleo vão subir durante muito tempo”, escreveu numa mensagem nas suas redes sociais.
- Numa outra mensagem, Ghalibaf classificou também como alvos legítimos as “entidades financeiras que financiam o orçamento militar dos EUA”. “Comprem [títulos do tesouro dos EUA] e estão a comprar um ataque nas vossas sedes e bens. Nós estamos a monitorizar os vossos portefólios, este é o último aviso”, ameaçou.
- O comandante da forças terrestres da Guarda Revolucionária, Mohammad Karami, visitou o oeste e noroeste do país, onde os ataques israelo-americanos têm sido mais intensos e declarou que as unidades terrestres estão prontas para enfrentar “agressores” nas fronteiras do país.
- A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que os ataques em infraestruturas nucleares abriram uma “fase perigosa” da guerra e apelaram às partes para exercer “máxima contenção militar” para evitar acidentes nucleares“.
- A imprensa estatal iraniana relatou seis condições de Teerão para pôr fim à guerra. São elas: garantias de que os ataques contra o Irão não se vão repetir, o encerramento das bases norte-americanas no Médio Oriente, o pagamento de compensações pelos danos causados durante a guerra, o fim dos restantes conflitos na região, o estabelecimento de um novo regime legal no estreito de Ormuz e a extradição e condenação de indivíduos responsáveis por aquilo que descrevem como “operações de media hostis contra o Irão”.
- Os Estados Unidos terão informados aliados no Médio Oriente sobre um possível plano para uma operação terrestre na ilha de Kharg, segundo relatos na imprensa israelita.
- O representante do Irão junto das Nações Unidas argumentou que o território da Jordânia está a ser utilizado como plataforma de lançamento para ataques contra o Irão, levantando a possibilidade de uma retaliação de Teerão contra a Jordânia.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, falou ao telefone com a alta-representante para os Negócios Estrangeiros da União Europeia, Kaja Kallas.
- Mais de 81 mil infraestruturas civis já ficaram danificadas na guerra, segundo números do Crescente Vermelho iraniano.
Em Israel e no Líbano:
- Mais de 200 pessoas ficaram feridas num ataque iraniano com dois mísseis em Dimona e Arad, no sul de Israel, que não foram intercetados pelas defesas aéreas devido a “circunstâncias diferentes e não relacionadas” — o que levantou questões sobre a eficácia das defesas israelitas.
- Um porta-voz do Exército israelita afirmou que a taxa de sucesso na interceção dos ataques iranianos é de 92% — o Irão lançou mais de 400 mísseis balísticos em três semanas de guerra.
- O Irão lançou três mísseis com munição de fragmentação contra Israel, cujos fragmentos atingiram várias localidades perto de Telavive e no centro de Israel. Ao longo da guerra, já foram contabilizados mais de 100 locais de impacto de fragmentos destas munições.
- O Hezbollah relatou ter lançado seis ataques com drones contra as posição israelitas no norte de Israel e no sul do Líbano.
- O Exército israelita anunciou uma nova expansão das operações terrestres no Líbano, que caracterizou como “direcionadas para objetivos chave”, tendo acrescentando que os novos raides mataram 10 combatentes do Hezbollah.
- As tropas israelitas atacaram a ponte Qasmiyeh, com danos visíveis, destruindo o principal ponto de passagem entre o sul do Líbano e o resto do país.
- Israel terá utilizado artilharia e munições de fósforo branco contra a cidade de Naqoura, segundo a agência noticiosa estatal do Líbano — a utilização desta munição em zonas povoadas por civis é considerada um crime de guerra.
- A Guarda Revolucionária do Irão terá promovido uma reestruturação da cadeia de comando do Hezbollah, depois de, na guerra de 2024, Israel ter matado a maior parte da cúpula do grupo armado libanês. O grupo funciona agora de forma descentralizada, com grupos mais pequenos e com focos específicos e conhecimentos limitados, numa tentativa de evitar ser alvo de operações das secretas israelitas.
- Benjamin Netanyahu apelou aos líderes internacionais que se juntem à ofensiva israelo-americana contra o Irão. “É altura de os líderes mundiais se juntarem a nós e estou a ver algum movimento nessa direção”, declarou o primeiro-ministro israelita, que voltou a insistir que o Irão é uma ameaça para “o mundo inteiro”.
- O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, anunciou que ordenou às tropas no Líbano para acelerarem a destruição de casas em “vilas na linha da frente” e de todas as pontes sobre o rio Litani, infraestruturas civis que disse serem utilizadas para “atividades terroristas”.
- O Presidente do Líbano, Joseph Aoun, condenou os ataques israelitas contra infraestruturas civis, que afirmou tratarem-se de uma “política de punição coletiva”, e apelou à comunidade internacional que intervenha de forma a travar o bloqueio de ajuda humanitária e o controlo militar de Israel no sul do Líbano.
- O Ministério da Educação israelita cancelou todas as aulas presenciais no domingo e esta segunda-feira. O Comando militar anunciou ainda a proibição de todas as reuniões com mais de 50 pessoas até terça-feira.
- Os ataques israelitas dos últimos 20 dias mataram 1.029 pessoas no Líbano, segundo os números do Ministério da Saúde. Outras 2.786 pessoas ficaram feridas.
- Quase 5.000 ficaram feridas em Israel em três semanas de guerra, relatou o Ministério da Saúde israelita. Desse número, 124 permanecem hospitalizadas e 14 estão feridas de forma grave.
No Golfo:
- O Ministério da Defesa da Arábia Saudita intercetou um míssil balístico que visava a capital, Riade, enquanto outro míssil atingiu uma zona aberta do país. Foram ainda intercetados 21 drones. Os alvos dos ataques eram, segundo a Guarda Revolucionária, a base aérea Prince Sultan perto de Riade.
- O Bahrain intercetou dois drones e dois mísseis balísticos que tinham como alvo uma base da 5.ª frota norte-americana.
- Já as Forças Armadas do Kuwait deram conta de quatro drones intercetados e três que caíram em zonas abertas, sem causar danos.
- Nos Emirados Árabes Unidos foram intercetados 25 drones e quatro mísseis balísticos.
- Este domingo, não se verificou nenhum impacto com danos significativos ou vítimas dos ataques iranianos contra os países do Golfo.
No resto do mundo:
- No Iraque, o Hezbollah iraquiano anunciou o prolongamento da suspensão dos ataques contra a embaixada norte-americana em Bagdade por um período de cinco dias.
- Cinco membros do serviço de contra-terrorismo do Iraque ficaram feridos num ataque contra as suas instalações no aeroporto de Bagdade. O ataque foi atribuído a uma milícia iraquiana pró-Irão não especificada.
- Dois drones atingiram a antiga base norte-americana Victory. Este ataque também foi atribuído a milícia iraquiana pró-Irão não especificada.
- Israel e Estados Unidos atacaram posições do Hezbollah iraquiano e das Forças de Mobilização Populares (PMF), sem se verificarem baixas.
- A Agência Internacional de Energia Atómica declarou que a situação no Médio Oriente é “perigosa” e pior do que os choques petrolíferos da década de 1970. O diretor-geral Rafael Grossi apontou a abertura do estreito de Ormuz como uma solução para contrariar uma possível crise energética mundial.
- O secretário-geral da NATO declarou, em entrevista à CBS News, que a Aliança está a “avaliar” se o Irão tem “capacidade” para atacar a Europa. “O que sabemos certamente é que estão muito perto de ter essa capacidade”, afirmou Mark Rutte.
- O primeiro-ministro espanhol declarou que o mundo está “num ponto de viragem” e apelou a uma reabertura do estreito de Ormuz e à “preservação das infraestruturas energéticas”. “O mundo não devia ter de pagar as consequências desta guerra”, escreve Pedro Sánchez.
- O secretário do Tesouro norte-americano declarou que os Estados Unidos “têm muito dinheiro para financiar esta guerra”. Scott Bessent excluiu a necessidade de uma subida de impostos e argumentou que o pedido de Trump para o Congresso aprovar mais financiamento é “suplementar”.