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(A) :: No futebol como na vida

No futebol como na vida

Mais que 22 homens em cuecas a correr atrás duma bola.

José Mendonça da Cruz
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Depois de voltar a interessar-me por futebol ao fim de muitos anos de desatenção ao futebol, venho a suspeitar que o futebol tem momentos que podem fazer que quem não gosta de futebol afinal goste de futebol. A semana foi generosa.

Primeiro episódio

Num jogo dos oitavos de final, no 1.º de 2 jogos a eliminar, o Sporting perdeu com uma equipa-maravilha, uma revelação inesperada, «um grande saído do nada», um tomba-gigantes norueguês. E a equipa do Sporting, derrotada e envergonhada com 3-0, poderia, porém, consolar-se: tinha havido equipas maiores, antes, caídas em semelhante desgraça.

Veio o 2.º jogo, um pró-forma, uma partida em que se pedia à equipa e ao treinador que ao menos marcassem um golo, que ganhassem pela diferença mínima se acaso se proporcionasse, ou, vá lá, um empate honroso; pedia-se-lhes que – como é uso dizer para os derrotados – saíssem «de cabeça erguida».

Mas o treinador, um homem de pouca importância (ou «humilde» – que é estranhamente, um grande elogio no futebol), e os jogadores sem préstimo que uma semana antes tinham sido vítimas de uma lide merecedora de uma orelha e volta à praça, decidiram que não, e que em vez de igualarem os outros iam dar-lhes um corretivo. E a lide, agora, foi deles. Para duas orelhas. E rabo. E quinze minutos de praça.

Não sem uma cereja no topo. Nos momentos «de desconto», já com o marcador a 4-0, o humilde treinador fez entrar o jovem Nel. O jovem Nel será talvez um Leonel a que a família, por mimo, e os colegas, por fonética, abreviaram o nome. Tem 20 anos, é oriundo da equipa onde se adubam promessas, e o treinador quis animá-lo, dar-lhe uns momentos para recordar no nec plus ultra da modalidade. Faltavam uns 3 minutos para acabar, o 4-0 parecia sólido, podia entrar o miúdo, não havia risco, ainda que um improvável 4-1 equivalesse a um empate, e nesse caso a decisão tivesse que ir para penaltis – e a gente sabe lá como é que essas coisas acabam. Então, o jovem Nel entrou. E logo, solto numa correria pela direita, apontou à baliza e fez o 5-0, esmagador e definitivo. E dele.

Donde, a equipa imprestável e sem esperanças, afinal é vitoriosa; o treinador sem qualidades afinal mostrou excelência. E todos se alçaram ao ranking de umas das 8 grandes equipas da Europa, ainda com o benefício parcial de 80 milhões de euros que o clube ganha.

Segundo episódio

O Sporting joga com o Alverca. O Alverca não é uma grande equipa, está em 12.º lugar entre 18, embora possa ser perigosa. E como estamos na segunda parte, e como o Sporting só marcou um golo, as coisas não estão seguras. Vão parecer seguras agora: Suarez, o grande atacante, corre isolado para a baliza, e vai ser golo, 2-0, evidentemente. Mas não: o guarda-redes lança-se e desvia a bola, Suarez salta por cima dele para não o atingir, aterra em desequilíbrio, e cai… e o árbitro marca penalti… e agora, sim, vai ser 2-0. Mas não, porque Suarez levanta-se – o próprio Suarez sobre quem teria sido cometido penalti –, e dirige-se ao árbitro, e vai agitando as mãos, que não, e fala, diz que não, que não é penalti, que não foi derrubado. Então, o árbitro vai ver as imagens, e concorda que não é penalti, mas, sendo um homem com poder e que errou, e querendo disfarçar o erro com o poder arbitrário, decide que se não foi penalti, então foi culpa do jogar que caiu, a simulá-lo (o jogador que se levantou e correu para o árbitro a dizer que o árbitro estava enganado).

Vale a pena ser honesto e recto – pensamos nós – quando o poder é ignominioso? Mas no minuto seguinte, na jogada imediata, o mesmo Suarez marca golo, numa jogada e num remate de efeito e categoria. E logo que marca, em vez de saltos e gritos, faz o mais compensador dos festejos: olha fixamente o árbitro, sem uma palavra.

Terceiro episódio

Gente em ascensões fulgurantes que terminam num tropeço; ovos ainda dentro da galinha; gente que tropeça e se levanta e se comporta melhor que nunca; gente discreta e desvalorizada que afinal se agiganta; gente promissora que aproveita a oportunidade surgida; gente com poder que mascara o erro apontando o dedo a outros; gente séria e injustiçada que consegue secretas desforras.

Este texto – lembram-se? – é sobre futebol apenas.