O mal é a lavandaria das dores. Da culpa e da vergonha. Dos traumatismos e das humilhações. Dos ódios e dos rancores. Das mágoas, dos abandonos e dos remorsos. O mal que trazemos aos outros serve para expiar os males que nos perseguem por dentro. Sermos, às vezes, um bocadinho maus não faz de nós más pessoas. Já fazermos questão de ser maus e magoar, sim. E isso ajuda a perceber que quanto maiores são os males que nos atormentam piores nos tornamos. Às vezes, tão maus, que somos levados a considerar a bondade não como um assomo de inteligência mas como um rebate de vulnerabilidade. A ponto de querermos banir a felicidade, a beleza, a ingenuidade ou a sabedoria porque tudo o que os outros tenham de bom que nos desperte inveja se transforma no tudo-nada que leva a um desmoronar sem retorno, que mata ou enlouquece.
O que é a maldade? A promoção continuada da dor e do sofrimento. Sem crítica, sem culpabilidade e sem reparação.
Mas ninguém nasce mau! A maldade resulta dos apelos ao apego continuadamente insatisfeitos. É por isso que, por vezes, o amor e ódio parecem viver juntos. O ódio é o grito de triunfo sobre o amor que se não tem. O ódio é a deriva com que o mal “vence” o desespero.
Será o mal uma doença? Sempre que usamos a vida para que ela mais depressa nos mortifique e nos traga à morte estamos doentes. E, sendo assim, o mal é uma doença. Porque compromete tudo o que liga, tudo o que regenera, toda a redenção. Quem vive dominado pelo mal só não escolhe o bem porque imagina que todo o desespero que encaminha para o mal jamais se apague e que, uma vez conspurcados por ele, se será mau para sempre. O mal não escolhe a tirania; ela é, em si mesma, a linguagem do mal.
Há forma de fazer mal só aos outros? Nunca! A maldade que fazemos aos outros compromete o bem que pretendemos que isso nos traga, quando nos libertamos dela e a projectamos sobre alguém. Quanto mais o mal se tenta exterminar mais aumenta o pavor que ele cresça nos outros e se reverta em vingança. De cada vez que o tentamos aniquilar o mal fica mais forte.
A melhor forma de se esconder o mal que nos persiga é perder a vergonha por esse mal e exibi-lo, como se com isso triunfássemos sobre tudo aquilo que atormenta. E escondê-lo, fazendo com os outros se contaminem com as maldades que despejamos sobre eles, de forma a que se leve a supor que num mundo em que todos são maus a bondade não existe e ninguém é melhor que ninguém. Todos os que forem maus como nós são bons; todos os que se distanciem da nossa maldade são maus. O mal que trazemos aos outros representa um esbracejar desesperado sobre a mortificação que o mal nos traz.
Já a melhor de forma de se vencer o mal é nunca renunciar à gratidão. Dando mais atenção ao que temos do que a tudo o que nos falta. Dando mais valor àquilo que nos deram do que às faltas com que nos magoaram. E escutar o que nos dizem os desamparos com que se constrói a depressão, em vez de imaginarmos um mundo anti-depressivo, que substitui a clarividência da dor pelo vazio e pela indiferença. O maior de todos os males é lutar para não pensar, para não imaginar e não sentir. Aliás, é isso mesmo que as pessoas que nos querem mal mais procuram que aconteça connosco. O mal é o terrorismo da gratidão.
É claro que há momentos na história em que o mal parece banalizar-se e exibir-se. Em que se achincalha e se despreza. Em que se insulta e se insinua. Em que se cancela e se despreza. Em que se odeia e se destrói. Tudo de forma cada vez mais vulgar, mais ostensiva e mas vaidosa. E talvez vivamos, hoje, num desses momentos. Em que, agora, o mal está aqui; e, amanhã, o mal elege outro foco ou outro grupo, acolá. Mas se o nosso crescimento terá sido poupado a momentos tão sísmicos e tão violentos como tantas pessoas antes de nós terão vivido à medida que cresciam, como se explica esta espécie de “democratização da maldade”, sem vergonha e sem remorsos? Em primeiro lugar, porque as redes sociais são uma multidão impulsiva que se transforma num monstro sem rosto, que convida ao mimetismo mais do que ao pensar. Depois, porque um mundo ancorado no narcisismo não percebe que a vaidade é uma forma habilidosa de iludir a inveja. Finalmente, porque a forma como a vida cansa e magoa e o futuro parece inteditar até, que se deseje, faz da forma como nos afastamos da bondade uma espécie de “vingança de todos os dias”; em nome da esperança que não nos vemos a ter. Talvez seja, por tudo isso, que o pudor com que nos custa identificar alguém como uma “má pessoa” pareça ter-se tornado no receio de nos vermos bondosos, como se a maldade deliberada dos outros fosse da família dos pequenos males que reconhecemos em nós. Como se não fosse com esses males que escolhemos ser bons. Enquanto há quem escolha ser “só” mau.
Não é verdade que vivamos numa Era do mal. Ciclicamante, quanto mais há quem explore e maltrate e desconsidere e injurie e violente, como quem se vitoria, mais nos deixamos engolir pelo mal e tentamos exorcizar nele a consciência dum futuro sem perspectivas e sem prosperidade. Como se uma bruma de morte nos impedisse do desejo e do sonho. Do amor e da escolha. E, sobretudo, da verdade.
O mal sem crítica dos tempos que correm é um mau augúrio. Às vezes, parece que precisamos que o mal se banalize e traga sofrimento sobre sofrimento para que, levados ao limite da dor, por causa dele – então, sim – escolhermos entre ser maus ou ser bons, estúpidos ou inteligentes, solitários ou solidários. Para que, só então, olharmos o mal de frente, percebendo que a maldade não é uma escolha que nos imponham mas uma cobardia perante a nossa bondade que nos carcome. Quando recusamos ser bons não somos só maus. Somos “burros”, sobretudo.
O mal só não suporta a crítica porque a dúvida é a porta de entrada do bem!