Primeiro, os motivos: a localização privilegiada, as rotas que por ali passavam e a relação que tais fenómenos estabeleciam com as ambições da coroa portuguesa nas linhas comerciais que ligavam a Europa à Ásia. Depois, a ação militar: decidida e, num primeiro momento, vitoriosa, mas apenas graças ao “fogo amigo”. O que não estava nos planos: os desentendimentos entre oficiais portugueses, de objetivos opostos e motivando a diminuição da força militar e consequentes dificuldades na imposição do plano de ocupação. Até à vitória final e à construção do Forte de Nossa Senhora da Conceição, numa ocupação que durou mais de cem anos, de 1515 a 1622.
São estes os factos recuperados com detalhe por Alexandra Pelúcia no livro “Afonso de Albuquerque — Corte, Cruzada e Império”, publicado em 2016 pela Temas e Debates e que aqui recuperamos no excerto que se segue — e numa altura em que Ormuz está no topo da atualidade, fruto do conflito entre EUA e o Irão e que levou ao fecho do estreito com o mesmo nome, afetando a economia mundial.
O livro em causa não é dedicado àquela zona do mundo mas sim à vida de Afonso de Albuquerque, fidalgo e militar português que no início do século XVI era capitão-mor da costa da Arábia e que, assim, liderou a conquista de Ormuz. Ao mesmo tempo, foi nomeado segundo vice-rei da Índia, sucedendo a Francisco de Almeida, o primeiro a carregar tal título. A autora é Alexandra Pelúcia, professora do departamenteo de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, que tem na História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, na História Social Moderna e na História Política Moderna as suas áreas de investigação.

Caracterizado pela organização em forma de rede, o sistema de comércio marítimo interasiático desfrutava da cidade de Ormuz como um dos seus pontos nodais. Fora inclusive a posição geoestratégica ocupada pela ilha de Djarûn, na boca do Golfo Pérsico, a determinar a fundação da urbe, nos alvores do século XIV, não obstante a aridez do espaço circundante, que obrigava a constantes abastecimentos de víveres e de água a partir das terras e das ilhas vizinhas.
Os principais fluxos mercantis que se entrecruzavam em Ormuz tinham origem nos territórios da Arábia e da Pérsia e nas restantes ilhas do Golfo, consistindo em cavalos, cereais, frutos secos, sedas, tapetes, incenso, mirra, armas, salitre, enxofre, matérias-primas tintureiras, pérolas e prata, que se destinavam aos mercados indianos do Guzerate, de Goa, do Malabar e de Vijayanagar, mas também a Adém e à Etiópia. Do subcontinente indiano eram levados especiarias, arroz, açúcar, tecidos de algodão, ferro e escravos, os quais, junto com pedras preciosas de Ceilão e porcelanas da China, eram encaminhados para os consumidores árabes e persas, bem como para os mercados da Ásia Central e Menor, através das rotas marítimas do Golfo e de pistas caravaneiras.
A cidade e o Reino, entretanto dilatado para as margens continentais circundantes e para outras ilhas da região, adquiriram assim marcas de opulência e de cosmopolitismo, pouco ou nada perturbadas pela instabilidade político-militar que imperou na Pérsia, a partir do século XIII. Três centúrias volvidas, o panorama estava a evoluir, em consequência do processo de reunificação desencadeado pela família dos Safávidas e pelos guerreiros kizilbash que os apoiavam, muçulmanos da corrente xiita duo-decimane, os quais tinham ganho ímpeto acrescido desde que o líder, Ismail I, fora entronizado como xá (r. 1501-1524). A utilidade do papel económico exercido por Ormuz e o pagamento costumeiro de tributos aos dirigentes continentais, à laia de taxa de circulação terrestre dos produtos, iam assegurando, no entanto, a tranquilidade geral da atividade mercantil. Um acordo do género fora estabelecido recentemente, em 1504, com o novo homem forte da Pérsia e fundador da dinastia dos Safávidas.
Afonso de Albuquerque abandonou Socotorá, ao comando da armada do Mar da Arábia, no dia 10 de agosto de 1508, determinado a subverter a ordem descrita. Os seus planos não contemplavam um ataque súbito e frontal à cidade de Ormuz. O surgimento das velas portuguesas diante da sede de governo deveria ser antecedido por uma campanha de intimidação e de investidas dirigida contra as povoações de primeira categoria que o Reino em apreço ocupava no litoral omanita. Desta sorte, ir-se-ia fazendo provisão dos mantimentos em falta e anulando eventuais fontes de socorro à capital. A primeira urbe, Calaiate, foi alcançada a 22 de agosto, tendo sido igualmente escaladas, de forma continuada, ao longo de cerca de um mês, Curiate, Mascate, Soar e Orfação.
[…]
Uma vez vergada a costa omanita, a armada do Mar da Arábia prosseguiu a singradura em direção ao estreito de Ormuz e à cidade homónima, à vista da qual surgiu ao fim do dia 26 de setembro de 1507. Os ecos da atividade militar entretanto desenvolvida tinham chegado ali, dando ensejo à preparação de um dispositivo de defesa humana e naval. Tomando como referência a descrição do fio dos eventos apresentada por Afonso de Albuquerque a D. Francisco de Almeida, o objetivo inicial seria o de se oferecer a paz, obviamente sujeita às condições dos visitantes, cedo se percebendo a impraticabilidade do intento. Desde logo, as velas portuguesas viram o acesso ao porto cortado por inúmeros navios de alto bordo, que haviam sido requisitados para darem cobertura à malha urbana. Por determinação de Albuquerque, a armada lusa posicionou-se entre os cascos rivais e manteve-se em suspenso, face ao desfecho de uma troca de mensagens, até ao meio-dia do dia seguinte. O capitão-mor recordou que, nesse momento, “quando me vi assim cercado e não vi outro melhor recado, brandindo eles, nas suas naus, espadas e adargas e tocando seus anafis, atabales e trombetas, que era coisa de espanto e em tão grande maneira que querendo nós falar um com o outro nos não ouvíamos. Quando isto vi, não quis esperar nem sofrer suas espantosas gritas, porque me pareceu tempo para mais não dissimular, mas para pôr nossos feitos nas mãos de Deus e do apóstolo Santiago e morrermos como cavaleiros”.
À ordem de combate, todos os homens e vasos que compunham a esquadra se colocaram a postos. A batalha naval durou horas, prolongando-se até ao ocaso. Apesar de a proporção de forças ser favorável aos adversários, os portugueses tinham a vantagem de estarem armados com bocas de fogo mais poderosas, cujos bombardeamentos foram causando a progressiva devastação de muitos dos navios rivais, dispensando o recurso a arriscadas abordagens e lutas corpo a corpo. Como muitos dos muçulmanos se fossem atirando à água, na tentativa de fugirem aos pastos de chamas, os batéis dos cristãos foram em sua perseguição. Daqui resultou que aqueles que não morreram afogados sucumbiram às lançadas abatidas sobre si. Asseverou Albuquerque ter havido entre os seus quem tivesse conseguido ceifar, à tona da água, para cima de oitenta vidas.\
Já com o triunfo à vista, foi-se em perseguição dos galeões inimigos que tentavam acercar-se de terra, dos quais cerca de trinta acabaram dominados, ateando-se-lhes lume e deixando-os ir a arder rumo ao mar alto. Foi neste ponto dos acontecimentos que o capitão-mor revolveu descer a terra a fim de incendiar também o arrabalde da cidade e as naus que lá se encontravam varadas. O cenário geral seria dantesco quando se viu ser arvorada uma bandeira no palácio real, não tardando Albuquerque a receber aviso formal de que as autoridades locais desejavam parlamentar.
Pouco mais do que uma criança, o rei Sayfuddîn Abâ Nadar (r. 1507-1513) não exerceu um papel ativo na negociação dos termos de paz. A verdade é que, fosse qual fosse a sua idade, dificilmente lhe seria reconhecida autoridade efetiva para isso. A instabilidade tomara conta do sistema político ormuziano ao longo da centúria anterior, registando-se consecutivos conflitos e golpes palacianos, assinalados por homicídios ou deposições de soberanos, bem como pela invalidação de potenciais candidatos ao trono mediante a provocação da respetiva cegueira. Reportando-se à situação vigente nos primórdios de Quinhentos, Jean Aubin resumiu que “a oligarquia viziral disputava entre si o governo de Ormuz em nome de príncipes fantoches. Neste contexto, desde finais de 1505, a grande eminência do reino era representada por Hwâga Atâ (Cojeatar segundo os portugueses), um eunuco do palácio, de origem bengali, que tomara para si funções similares às de regente ou governador. Fora ele, aliás, a assumir o comando da resistência naval à ofensiva lusa, tendo conseguido sobreviver de forma prodigiosa, na opinião de Albuquerque.
Outra figura influente era Ra’îs Nûruddin Fâlî, vizir e juiz da alfândega, a quem coube a responsabilidade de discutir e fixar um acordo com o capitão-mor do Mar da Arábia.

O tratado foi oficializado por volta de 10 de outubro e, como seria de esperar, mostrava-se amplamente favorável às conveniências portuguesas. Na sequência do incontroverso ato de submissão militar que se havia produzido, Afonso de Albuquerque reclamou a favor de D. Manuel I o domínio suserano sobre o Reino, reintegrando subsequentemente Sayfuddîn no exercício formal do poder e Hwâga Atâ como seu delegado. Dito por outras palavras, instalou-se um regime de protetorado, com os dirigentes locais, a começar simbolicamente pelo rei, a serem reduzidos à condição de vassalos da Coroa portuguesa. A evidenciar e a vivificar o laço de dependência ficava o pagamento anual de um tributo, composto por ouro, prata e aljôfar, no valor de 15 000 xerafins. A título excecional, no ano em curso, haveria lugar à entrega de mais 5000 xerafins de ouro, a fim de suportar os custos inerentes à manutenção da esquadra portuguesa. Benefícios adicionais, nada despiciendos, referiam-se à atribuição de isenção de direitos alfandegários aos produtos doravante trazidos de Portugal, à aplicação de taxas de montante igual ao cobrado aos ormuzianos nos artigos lá adquiridos pelos portugueses, e à cedência de espaço para a edificação de uma fortaleza lusa, cujas instalações abrigariam ainda uma feitoria. Enquanto decorresse a obra, deveriam ser facultadas instalações provisórias para a realização dos tratos.
[…]
A roda da fortuna começou a manifestar-se desfavorável a Afonso de Albuquerque em fins de outubro. Principiada a construção da fortaleza a 24 daquele mês, demorou apenas três dias para que um primeiro sinal de dissensão emergisse entre o segmento do oficialato português. Impacientava-se João da Nova por ainda não ter conseguido libertar-se do resto da esquadra e velejar para a Índia, a bordo da Flor de la Mar, tanto que lavrou um instrumento de requerimento e protesto. A 13 de novembro foi a vez de Afonso Lopes da Costa, Francisco de Távora, Manuel Teles Barreto e António do Campo, capitães adscritos à armada do Mar da Arábia, formalizarem o descontentamento que sentiam a respeito do curso da missão. Por um lado, aborrecia-os estarem afastados da assistência à fortaleza de Socotorá e da vigilância da boca do Mar Vermelho, recomendações especiais de D. Manuel I segundo a sua lembrança. Por outro lado, criticavam a perda de tempo e os riscos físicos associados à permanência em Ormuz para se dar corpo à nova infraestrutura castrense, bem como a demora em libertar a Flor de la Mar e, por consequência, em dar-se aviso a D. Francisco de Almeida dos últimos desenvolvimentos a fim de que pudesse tomar decisões em conformidade. Como Albuquerque não só se tivesse abstido de deferir os pedidos descritos, mas também se tivesse irritado e passado a hostilizar os ditos oficiais, houve reincidência nas queixas a 8 e 11 de dezembro.
Embora os insatisfeitos escudassem as suas pretensões nas ordens régias e invocassem o zelo exigido pelo serviço da Coroa, o seu principal desígnio fixar-se-ia antes na prática do corso e nos ganhos associados ao elevado quinhão das presas que, por direito, lhes estava consignado. A conduta anterior de Manuel Teles Barreto assim o sugeria, uma vez que se escapulira da companhia da armada, no trajeto para Socotorá, a fim de se reunir ao pai Álvaro, junto ao cabo Guardafui, e de ali realizar tomadias. A caça havia sido frutuosa e as grandes riquezas a que se deitara mão deviam ter aguçado o apetite dos restantes capitães. Em causa estava uma tendência de sentido liberal, reconhecível em vários elementos da fidalguia da época manuelina. Como analisou João Paulo Oliveira e Costa, “a maioria se não virava costas ao combate sempre que via nele a possibilidade de acrescentar honra ao seu nome ou fazenda à sua bolsa, não via com agrado a hipótese de estar permanente e duradouramente ao serviço do rei, sobretudo em regiões tão longínquas como as do Oriente”. Posto isto, enquanto a campanha sobre o reino de Ormuz mantivera os comandos entretidos, a pelejar e a saquear, a situação estivera mais ou menos sob controlo. Achando-se inativos e obrigados a colaborarem numa obra cujas futuras vantagens estratégicas pouco ou nada lhes diziam, converteram-se num fator de perturbação da coesão interna da hoste.
O facto era que Albuquerque, além de ser animado por uma conceção ideológica centralista e de estar a criar bases de sustentação para o governo do Estado da Índia, de que iria tomar posse em breve, também recebera mandato para sujeitar territórios asiáticos e erguer fortalezas. Tais aspetos, somados à sua personalidade impositiva e disciplinadora, de que ele tinha consciência e cuidava de patentear através da longa barba, originaram uma clima de enervamento mútuo difícil de suportar. Deste ponto de vista, o dia 29 de novembro representou um ponto superior de exaltamento de ânimos. Nessa ocasião, Francisco de Távora, que participava com os homens e o batel da sua nau na recolha de pedra destinada à fortaleza em construção, esboçou a iniciativa de regressar à zona da obra logo que concluiu a tarefa.
Segundo a atestação emitida por si depois, o capitão-mor ordenou-lhe que voltasse para trás e, para cúmulo, “como homem que me queria mal, me disse muitas palavras injuriosas, quantas lhe aprouve, dizendo que eu era um fidalgo ruim e traidor, e que me encheria a boca de merda”, acabando por lhe dar voz de prisão.
Nas condições descritas, foi impossível manter as autoridades ormuzianas iludidas relativamente ao diferendo em curso. Apostado em libertar Ormuz da tutela portuguesa, Hwaga Atâ mostrou-se diligente na arte de espalhar boatos e informações desencontradas, sem descurar a abertura de uma nova fissura no seio das forças ocupantes. Fê-lo no termo do mês de dezembro, acolhendo quatro desertores da armada, a saber, um português, um biscainho e dois gregos, marinheiros e calafates de ofício. Ato contíguo, os trabalhadores locais foram retirados da construção da fortaleza, pondo em causa o prosseguimento do trabalho.
O estado de alerta foi acionado, de imediato, por Afonso de Albuquerque, que fez recolher a totalidade dos seus homens ao interior dos navios e convocou um conselho de capitães. A opinião unânime expressa na reunião foi de que se deveriam reabrir as hostilidades, na eventualidade de os trânsfugas não serem devolvidos à procedência. No dia seguinte, porém, o capitão-mor foi notificado da mudança de parecer dos seus oficiais. Sentindo um desafio frontal à sua autoridade, admitiu ele que “pareceu-me coisa tão feia e digna de tão grande castigo e de tão grande infâmia de cavaleiros, que fiquei fora de mim”, chegando a afirmar, sem razão, que “me pareceu, segundo as coisas passadas, que eles eram de fala com os mouros”.
O rumo das conversações travadas com Hwâga Atâ também nada augurava de bom. Dele iam-se obtendo promessas dilatórias, cuja vacuidade ficou exposta, em definitivo, quando Albuquerque ficou cerca de um par de horas à torreira do sol, aguardando inutilmente que se consumasse a troca, antes combinada, dos quatro foragidos por prisioneiros ormuzianos. Como, entretanto, se tivessem tornado visíveis esforços de entrincheiramento das ruas da cidade, o capitão-mor do Mar da Arábia decidiu passar à ação.

A primeira iniciativa consistiu numa ordem de bombardeamento, sem nenhuns efeitos práticos, contudo, devido ao apodrecimento sofrido pelos projéteis. O estratagema implementado de seguida passou pela submissão da ilha de Djarûn a um cerco naval e pela sabotagem dos reservatórios de água ali existentes, de modo a causar a fome e a sede. O método eleito para cumprir o último propósito resumiu-se no enchimento dos depósitos com “mouros mortos e cavalos e camelos e mulheres e meninos”, conforme a pragmática explicação fornecida por Albuquerque. Em contrapartida, os portugueses foram garantindo para si a fruição de géneros alimentares e do precioso líquido com recurso a investidas violentas sobre a vizinha ilha de Qeshm.
Se a privação do consumo de bens de primeira necessidade já penalizava as gentes de Djarûn, o medo foi-lhes deliberadamente incutido como tática de desgaste psicológico. Foi esse desiderato que ficou patente quando se apresaram algumas terradas, pequenas embarcações típicas da região, e se cortaram aos respetivos tripulantes narizes, orelhas e mãos. O cronista João de Barros, por norma comedido nas palavras utilizadas e militantemente empenhado em transmitir uma imagem benéfica das ações portuguesas na Ásia, relatou que os decepados, “postos em terra, entraram meio mortos pela cidade, que fazia um grande terror”. A estimativa divulgada pelo próprio capitão-mor apontava no sentido de que, nesta fase da campanha, o número de vítimas mortais e de mutilados tivesse ascendido acima de mil.
Dir-se-ia que Albuquerque, incapaz de gerir consecutivas frustrações e tomado pela raiva, sucumbira à pressão, dando asas à crueldade e cavando um fosso ainda maior em relação aos restantes comandos. A perplexidade gerada por tamanha conduta chegou a suscitar entre os seus a ideia de que “ele bem conhecia que errava, mas a sua danada condição e o Diabo, que usava do seu ofício, lhe não davam lugar a que destas coisas fizesse pendença”. O quadro original de discórdia foi, assim, agravado pela falta de concertação quanto ao reacendimento do conflito e pela subsequente atitude do capitão-mor, encarada como excessiva e voluntariosa.
Desenrolava-se a situação desta maneira delicada quando, a terminar o mês de janeiro de 1508, se teve notícia de que Hwâga Atâ e a resistência ormuziana estavam prestes a receber auxílio da parte de uma poderosa armada vinda de Jûlfar, na margem árabe do Golfo. Albuquerque instruiu Afonso Lopes da Costa, António do Campo e Manuel Teles Barreto no sentido de irem ao encontro da dita expedição de socorro e a desbaratarem, mas os três aproveitaram antes a oportunidade para se fazerem à vela em direção à Índia, ao encontro do vice-rei D. Francisco de Almeida.
O abandono custou a Albuquerque navios, homens, armas e, por arrastamento, quaisquer possibilidades de fazer vergar Ormuz, de concluir a fortaleza e de consolidar a influência portuguesa na região. Não menos limitativa era a circunstância de as vitualhas e os remédios destinados ao consumo da guarnição de Socotorá terem sido arrecadados a bordo da nau de Manuel Teles Barreto. O capitão-mor pesava os graves prejuízos que dali adviriam para o serviço da Coroa, dadas a grandeza e a riqueza de Ormuz, sem se esquecer da mácula aportada à honra da nação portuguesa. A gravidade do acontecimento e a tremenda irritação que lhe percorreu o ser explicam a falta de parcimónia na adjetivação de que fez uso no relato enviado ao vice-rei: “caso tão abominável e tão feio”, “crime”, “traição”, a tudo se referiu ele, rematando não haver memória, desde “há trezentos anos, que cavaleiros portugueses tamanha maldade não fizessem”.
[…]
Foi numa carta redigida, em Cananor, a 27 de novembro de 1514, quase um ano depois de ter afiançado que o Mar Vermelho representaria a sua próxima empresa, que Albuquerque teve de assumir e explicar, junto do rei, uma alteração de projeto, da qual nem os capitães estavam a par. O que se passava era que, terminadas de carregar as naus destinadas ao Reino, havia falta de liquidez para prover o pagamento dos mantimentos e dos soldos dos homens de armas. Registava ele, com pragmatismo, que “como dentro do Mar Roxo não há aí coisa de que nos possamos aproveitar e suster, salvante ser fecho de toda a India”, seria preciso ir-se buscar recursos algures, também porque seria sempre longa a espera por uma ajuda financeira de Lisboa. Parecendo-lhe ter “a India e a obrigação dela ao pescoço”, não lhe restava outro remédio senão “cometer o caminho de Ormuz para termos de comer”. Posto isto, foi para a boca do Golfo Pérsico que se dirigiu a armada do governador, em fevereiro de 1515.
Em termos formais, Ormuz permanecia como um reino vassalo da Coroa portuguesa, desde 1507, mas continuava por assentar lá uma fortaleza. Entrementes, o sistema político local sofrera modificações, senão na essência, pelo menos na aparência: Hwâga Atâ falecera, o rei Sayfuddîn tinha sido assassinado e substituído pelo irmão Tûran Shah IV (r. 1513-1521), Ra’îs Nûruddin Fâlî era ainda o vizir, oficialmente, embora fosse o seu sobrinho Ra’îs Hâmed quem encarnava, de facto, o poder.
Quando se abeirou da ilha de Djarûn, Afonso de Albuquerque estava ciente da identidade dos protagonistas que iria defrontar e do jogo de relações existente entre eles. Como era seu timbre, não perdeu tempo a arrogar-se a uma postura autoritária: usou os bergantins, fustas e galés da esquadra para bloquear a capital, prevenindo a vinda de socorros externos. Foi o suficiente para, em menos de uma semana, lhe ter sido devolvida a tutela sobre a fortaleza inacabada, bem como facultada hospedagem ao contingente que levava consigo: 1500 portugueses e cerca de 700 indianos, na maioria malabares, devendo ter sido excluídos de semelhante acolhimento os 300 cativos das galés.

A segunda interferência digna de nota prendeu-se com a congeminação da cilada que pôs termo à vida de Ra’îs Hâ-med. Tratou-se de o atrair às instalações que serviam de residência ao governador do Estado da Índia, sob o pretexto de um encontro em que também participariam Tûran Shah IV e Ra’îs Nûruddin. Enquanto D. Garcia de Noronha se ocupava da receção ao rei e ao vizir, o apelidado usurpador foi conduzido à presença de Albuquerque e, à sua ordem, abatido pelos punhais dos capitães portugueses que o rodearam. Dir-se-ia que a cultura latina de Albuquerque o inspirara a perpetrar um atentado no estilo do que vitimara Júlio César, nas escadas do Senado de Roma. O rei, rapaz a rondar os 18 anos, apenas foi confrontado com o espetáculo da cena consumada, tendo sido aquietado nos braços do dirigente português e depois exibido ao povo. Ato contínuo, afastaram-se de Ormuz os parentes de Ra’îs Hâmed, assim se garantindo a manutenção da ordem pública.
Na descrição de Pero de Alpoim, entretanto tornado secretário de Albuquerque, “deste dia em diante, ficou el-rei tão sujeito ao capitão-mor que nunca mais fez coisa nem buliu consigo que primeiro o não fizesse saber ao capitão-mor”, ao extremo de lhe pedir sempre autorização para se deslocar à mesquita para as orações rituais de Sexta-Feira.
Ao mesmo tempo que as obras de acabamento da fortaleza se iam desenrolando, inclusive com a colaboração da fidalguia, o governador adensou a malha de domínio sobre Ormuz através de várias medidas, de cariz militar ou político. Começou por requisitar todas as peças de artilharia, pesada e ligeira, controladas pelas autoridades locais, as quais fez recolher ao bastião luso. De seguida, cuidou de interditar aos muçulmanos o porte de arcos e de flechas no interior da capital. Por fim, regressando D. Garcia de Noronha à Índia, para dali volver a Portugal, fez seguir viagem com ele todos os membros da família real de Ormuz que, de futuro, pudessem ameaçar a estabilidade do trono e, por consequência, perturbar o exercício do protetorado português.
De modo complementar, a reafirmação da sujeição de Ormuz não se podia abstrair da vizinhança geoestratégica da Pérsia safávida. Se, por um lado, havia que refrear os interesses de suserania que ligavam aquela potência ao reino de Ormuz, por outro, era necessário usar de habilidade diplomática para a atrair a uma eventual aliança contra o domínio mameluco no Próximo Oriente. Em 1514, Afonso de Albuquerque já tinha despachado Miguel Ferreira como embaixador à corte do xá Ismail, repetindo a iniciativa, no ano seguinte, com Fernão Gomes de Lemos. A cordialidade dos contactos mantidos em público não inibiu a expressão privada do aborrecimento safávida face à fixação dos portugueses em Ormuz. A disponibilidade evidenciada para se conceder alguma assistência militar aos persas reequilibrou, no entanto, a relação bilateral.
O conjunto das diligências acima expostas compreende-se em função do valor económico de Ormuz, sintomaticamente classificada por Albuquerque como uma “grande presa que temos nas mãos”. Entre a cobrança dos tributos em atraso e os lucros das vendas de produtos indianos, só a estadia de 1515 rendeu aos cofres portugueses 120 000 xerafins, isto até 22 de setembro, dia em que o governador escreveu a D. Manuel I um detalhado relatório de atividades. As expectativas para o futuro eram deveras animadoras. Desde logo porque se fechava o controlo sobre o tráfico de cavalos persas e árabes, escoados para a Índia a partir de diversos portos do Reino, mediante a imposição do pagamento de uma fiança, obrigando à respetiva descarga em Goa. Num horizonte temporal mais dilatado, encerrando-se a escápula do Mar Vermelho, a Coroa teria a possibilidade de arrecadar avultados direitos de circulação de especiarias pela rota do Golfo Pérsico. Era, justamente, o Mar Vermelho que se perfilava na ideia do governador como próximo espaço de atuação, embora reclamasse que lhe fosse enviada mais gente de Portugal a fim de organizar uma nova entrada pelo mesmo acima.