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Chuck Norris: mais símbolo do que indivíduo, mais real do que meme

Ao recordar o mestre de artes marciais transformado em estrela do cinema de ação, que morreu aos 86 anos, João Bonifácio lembra como o mundo mudou, do clube de vídeo ao scroll infinito na internet.

João Bonifácio
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Aqui há uns anos precisei da ajuda do meu filho para entender se a notícia que eu acabara de ler fazia sentido ou não: segundo o texto, os miúdos de hoje (ou, vá, os miúdos de há meia dúzia de anos) não faziam ideia de quem Michael Jordan era; ou, visto de outra forma: para os miúdos, Michael Jordan (senhor cujo nome desconheciam) era um velhinho a chorar num meme.

O meu filho, que conhecia Jordan desde pequeno, pois desde pequeno fora educado a ver vídeos dos melhores jogos e das jogadas mais icónicas da NBA — a liga americana de basketball —, conhecia Jordan perfeitamente mas, para meu desconsolo, confirmou que o texto dizia a verdade: para os garotos da sua geração, não havia essa entidade chamada “Michael Jordan” – o tal meme (Jordan a chorar, curtos segundos retirados de uma reflexão sobre a carreira em setembro de 2009, cortados e repetidos até à exaustão) sobrepusera-se a toda a existência humana que levara o enorme jogador àquele momento de vulnerabilidade. O meme apagara contexto, apagara pessoa e terraplanara toda a carga semiótica que até então o nome Jordan transportava. Dessa forma, instaurara um único conceito, operativo: esta imagem usa-se quando se quer gozar com alguém que está a reclamar de alguma coisa (pode haver mais situações, mas o efeito é o mesmo: a imagem é usada para um fim estrito).

Isto é ainda mais estarrecedor se pensarmos, que durante décadas, Jordan não foi apenas visto como o melhor jogador de basket da sua geração (e, possivelmente, o melhor atleta da história), como também o maior competidor, um competidor a um nível quase patológico, incapaz de perder um jogo de cartas que fosse. A imagem do meme? Ainda mais irónico: vinha do discurso que Jordan fez quando foi introduzido ao NBA Hall of Fame, ao mesmo tempo que recordava a perda do pai e outros escolhos que sofrera pelo caminho.

Por um segundo Michael Jordan baixou a guarda e chorou – e nesse instante, para toda uma geração abaixo de X anos, Michael Jordan deixou de existir para todo o sempre e passou a ser o senhor da lágrima.

Pensei nisto nos últimos dias, ao navegar até aos confins da internet à procura de notícias sobre Chuck Norris (1940-2026) – não havia publicação que não tivesse publicado artigos e textos com títulos como “The Best Chuck Norris Memes Explained”, “Chuck Norris Has Died, but the Meme That Defined Early Internet Culture Is Immortal”. Não, já não estamos numa era em que o jornalismo cultural é feito por quem leu Tolstoi e foi muito ao teatro – estamos numa era em que o jornalismo é feito por quem desenvolveu uma capacidade estonteante de fazer scroll num smartphone usando apenas um dedo.

Estou a exagerar – “Chuck Norris Has Died, but the Meme That Defined Early Internet Culture Is Immortal”, por exemplo, faz um trabalho admirável ao explicar como nasceu o humor da internet pré-redes sociais, quando navegávamos todos em fóruns. O texto explica como os “Chuck Norris facts” nasceram em fóruns como o “Something Awful“, em que os utilizadores publicavam os feitos mais exagerados (e falsos) acerca de Chuck Norris, a maior parte dos quais inspirados na sua imagem de durão em Walker, o Ranger do Texas, uma série que foi como que uma segunda vida para Norris, quando o seu brilho enquanto estrela de filmes de ação começou a diminuir. Apesar disso, Chuck Norris foi muito mais do que o tipo dos filmes de porrada.

O gozo desse meme pré-meme não é o um gozo a Chuck Norris em específico, mas sim a uma ideia de homem – o durão, o tipo que nunca sorri, o homem sempre sério, o indivíduo com quem não se brinca. De certa forma, é como se uma geração achasse cómicos os traços que antes definiam a masculinidade.

Conheço bem esta realidade: a partir dos 9 anos de idade, mais coisa menos coisa, eu e os meus amigos insistíamos em procurar filmes de Chuck Norris nos clubes de vídeo, isto quando não estávamos a copiá-los, de um leitor de VHS para outro. Não sei se se podia dizer que víamos os filmes: em algum momento, alguém ia imitar um golpe aplicado, e pelo meio haveria alguma (leve e, convenhamos, razoavelmente inconsequente) porrada, mesmo durante o filme.

Nas semanas seguintes, os golpes que víramos seriam imitados até à náusea; para alguns rapazes, talvez fosse mesmo necessário imitar o que víamos nos filmes de Norris, talvez isso contribuísse de alguma forma para o seu ego; mas estou em crer que a maior parte de nós sabia que havia uma certa dose de exagero naqueles filmes e, se fossem como eu, divertir-se-iam a ver os filmes, mas dispensariam qualquer posterior tentativa de os imitar. Mas, enfim, tínhamos 12 anos e naquela altura putos de 12 anos andavam muito à porrada, mesmo que na brincadeira.

Em parte isso deve-se a um simples facto: não tínhamos nada para fazer. Os miúdos de hoje podem fazer toda a vida de Michael Jordan desaparecer, reduzindo-o ao senhor que chora no meme – mas isso é porque os miúdos de hoje vivem num estado constante de sobre-estimulação. Vivíamos num estado constante de tédio. Ir ao clube de vídeo e conseguir alugar um filme que não era para a nossa idade – isso era um feito mítico, que seria discutido na escola durante semanas.

Também não tínhamos mil heróis. Pensem em termos de desporto: hoje não só se transmite todo o jogo de bola à face da Terra, como em qualquer rede social há, a cada segundo, centenas de novos conteúdos a aparecer sobre cada jogo (ou, na realidade, sobre todos os jogos alguma vez jogados). Quando eu era garoto, meia dúzia de jogos por ano chegavam à televisão. Os nossos heróis eram aqueles que víamos no estádio ou que herdávamos dos nossos pais, das histórias que eles nos contavam.

Portanto, quando finalmente, e após muito esforço, um de nós conseguia pôr as mãos numa cassete VHS de A Fúria do Dragão (1972), o mítico filme em que Norris era o vilão que combatia com Bruce Lee, isto não era coisa de somenos, isto não era “scrollável”: isto era um filme para ver, imitar, rever, re-imitar. Sessões organizavam-se para que aqueles dois manos que ainda não tinham visto pudessem finalmente fazê-lo (e, eventualmente, levarem com um pontapé na tromba). Isto nem sequer era cinema: eram rapazes a, de forma ritual, descobrirem o que era esperado que um rapaz fosse (embora todos nós soubéssemos que nunca seríamos Norris — ou será que alguma vez poderíamos ser, mesmo que por um instante?).

Talvez o grande momento de Norris tenha sido Desaparecido em Combate (1984), em que o herói fazia de Coronel James Braddock, um antigo prisioneiro de guerra que se via obrigado a regressar ao Vietname para resgatar antigos colegas também desaparecidos em combate. Obviamente, nenhum de nós tinha a noção do que era o Vietname. Obviamente, nenhum de nós pensou que aquele poderia não ser um retrato fiel da guerra em questão. Havia um tipo fardado e de barba com uma metralhadora que matava os maus e salvava o dia – que mais podíamos nós pedir? Apenas umas quantas sequelas, que foram obviamente entregues.

Antes desta era, houve uma outra, uma em que começavam a nascer os heróis dos filmes de ação. Isto tanto podia incluir Steve McQueen como Charles Bronson – ainda que, sejamos honestos, quando chegamos a Bronson já não estamos a falar bem de ação, antes de porrada mesmo.

Mais tarde, nos anos 80, chegarão outras estrelas massivas e aí sim o género ganha corpo, forma e bagagem: Schwarzenegger, Stallone, Willis, Jean-Claude Van Damme, Kurt Russell, Mel Gibson. Cada garoto da minha geração terá o seu preferido – mas cada um deles representou a forma de sociabilização dos rapazes (e eram rapazes quem via estes filmes) da época: escolher um grupo de amigos, escolher um deles para ir ao clube de vídeo, trazer um filme de porrada, imitar o filme de porrada durante a semana na escola.

Isto se calhar não durou mais que dois ou três anos; com sorte, e mesmo admitindo que todos esses filmes transmitiam uma ideia errada de macho, nenhum de nós foi muito traumatizado por esta estirpe de cinema — ou pelo menos assim pensamos. Mas a sensação que tenho é que de que não durou só 2 ou 3 anos – por mais errada que aquela forma de arte fosse, ainda resta um bocadinho de nostalgia. Agora, morre Chuck Norris e não me lembro imediatamente de Walker, o Ranger do Texas. Lembro-me, isso sim, do tufo de pelo que Bruce Lee lhe arrancou durante aquele duelo tremendo; da cena em que Norris está escondido debaixo de água, à procura dos que desapareceram em combate; lembro-me de como, na altura, Força Delta não parecia um mau filme; lembro-me dos posters nos clubes de vídeo; e lembro-me do momento em que descobri que o nome verdadeiro dele era Carlos Ray.

Já era tarde de mais. Chuck seria sempre Chuck, mais símbolo do que indivíduo, mas muito mais real do que meme. Chuck Norris representa a forma como tudo isto mudou: a relação dos mais jovens com as estrelas, o papel do cinema e o consumo de informação. Muito mais do que um tipo dos filmes de porrada — que foi, de facto.