Se fosse numa semana “limpa” como a anterior, era outra coisa. Se não tivesse havido jogo europeu na terça-feira (ainda para mais com prolongamento), era outra coisa. Se o número de ausências por lesão baixasse por alguma razão, sejam os problemas musculares, traumáticos ou ligamentares, era outra coisa. No entanto, e até ao final da temporada, o Sporting terá no calendário um dos seus principais adversários mesmo tendo em conta que pela frente aparecerão nomes como Arsenal (Liga dos Campeões), FC Porto (Taça de Portugal) ou Benfica (Campeonato). Era por isso que, podendo ser outra coisa, a deslocação a Alverca trazia perigos escondidos daqueles que só acompanha de perto da realidade nacional consegue perceber. O plantel tinha essa noção, o treinador tinha essa noção, todos no plano interno tinham essa noção. Mas seria suficiente?
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“Tudo isto faz parte da grandeza do clube e da exigência. Não há outro remédio, temos jogos de três em três ou quatro em quatro dias. Claro que houve um desgaste emocional e físico fora do normal e não fugimos a isso mas temos de saber lidar e arranjar estratégias de lutar contra esse desgaste. Mas não é agora, é algo que vem desde sempre. Vamos entrar num mês muito preenchido, estratosférico em termos de quantidade de jogos, mas é a exigência de estarmos onde estamos e disputar aquilo que queremos. Temos de arranjar soluções”, comentara Rui Borges, mais uma vez fugindo a qualquer tipo de “desculpa” mas assumindo que terá de lidar com vários “desgastes” ao mesmo tempo, da parte física ao cansaço mental pela maratona que valeu a qualificação para a Champions, passando pelo fim deste ciclo antes da paragem para as seleções.
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“Por todo o desgaste que foi o jogo com o Bodö/Glimt, será um jogo difícil. A equipa do Alverca também tem crescido este ano. É preciso perceber como estamos em termos físicos e na parte mental, que também conta muito. De forma geral, a equipa percebeu a importância do jogo, a intensidade, o peso psicológico da paixão e entrega ao jogo. O desgaste foi enorme e aqui o mais importante é isso, recuperá-los e ligá-los ao máximo na exigência”, apontara, antes de admitir mudanças na equipa entre suplentes em destaque como Nuno Santos ou Daniel Bragança e o regressado Ricardo Mangas (com a possibilidade de subir Maxi), sabendo também que não contará com muitos elementos nas duas semanas seguintes devido às seleções.
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“Não podemos fugir a isso. Querem jogar na Seleção, estão à porta do Mundial. Fico feliz por vê-los a concretizar mais um objetivo e um sonho. Não é por aí que vamos deixar de dar resposta. Há lesões, há o ganho de forma que é difícil em jogos sobre jogos porque as semanas são quase a recuperar e não a treinar… A malta que precisa de tempo é difícil. O treino é pouco porque andamos sempre em recuperação. É pagar se calhar a fatura do que tem sido a época toda, bastante exigente a nível de jogos. São jogos intensos, de grau de dificuldade elevado. Mas eles querem disputar esses jogos e é como digo: é arranjar estratégias de chegarmos na melhor forma e continuarmos a dar uma grande resposta”, frisara entre um ponto que poderia também ser a chave de tudo face aos últimos dias da realidade do clube: evitar vestígios de euforia.
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“O desgaste físico e mental é a única coisa menos positiva que trazemos do jogo e temos de lutar contra isso. Por aquilo que foi o jogo com o Bodö/Glimt, por tudo o que foi descer à terra. De repente ganhamos e esvazia o balão de oxigénio. Agora é importante arranjar formas de ligar o jogador, puxar pela energia. Por mais que queiramos dar a mesma resposta, é impossível. O tempo de repouso não é o mesmo, a recuperação também não será. Euforia? Isso é para fora, para nós, internamente, a euforia acabou passado dez minutos. Os jogadores também quebraram logo, tiveram a folga para respirar, aproveitaram com a família, mas a partir do momento em que começámos a treinar, não existiu mais euforia Vejo-os ligados, mas é conseguir puxar a energia deles num jogo que será de grau de dificuldade grande”, destacara Rui Borges.
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Foi essa ligação que esteve no segredo de uma goleada num encontro que se antevia bem mais complicado. O compromisso dos jogadores do Sporting foi enorme, Pedro Gonçalves apareceu a um nível superior face ao que tinha conseguido fazer frente ao Bodö/Glimt, Luis Suárez voltou a mostrar que é um fenómeno atípico nesta Liga mesmo tendo características completamente diferentes de Viktor Gyökeres e o único ponto a lamentar foi mesmo a lesão muscular de Nuno Santos, que voltava a ser titular mais de 500 dias. Foi por ele e pelas lágrimas que lhe foram caindo já sentado no banco que os jogadores leoninos fizeram das fraquezas forças para arrancar mais uma grande exibição com dedicatória especial ao elemento que mais dá e menos tem no grupo leonino entre tantos azares com lesões que não impedem que seja o mais acarinhado de todos, dos companheiros de equipa aos treinadores, passando pelos próprios adeptos verde e brancos.
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Ficha de jogo
Alverca-Sporting, 1-4
27.ª jornada da Primeira Liga
Estádio do FC Alverca, em Alverca
Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)
Alverca: André Gomes; Kairy Naves, Sergi Gómez (Baseya, 80′), Meupiyou; Nabil, Rhaldney, Lincoln (Davy Gui, 64′), Isaac James; Figueiredo (Claricia, 74′), Chiquinho (Vasco Moreira, 64′) e Sandro Lima (Marezi, 64′)
Suplentes não utilizados: Matheus Oliveira, José Crisanto, Diogo Marques e Fabrício Garcia
Treinador: Custódio Castro
Sporting: Rui Silva; Iván Fresneda (Ricardo Mangas, 82′), Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio (Zeno Debast, 71′), Nuno Santos (Vagiannidis, 27′); Hjulmand, Morita (Daniel Bragança, 71); Geny Catamo, Francisco Trincão, Pedro Gonçalves e Luis Suárez (Rafael Nel, 82′)
Suplentes não utilizados: João Virgínia, Diomande, Faye e João Simões
Treinador: Rui Borges
Golos: Pedro Gonçalves (22′ e 86′), Luis Suárez (50′), Geny Catamo (68′) e Marezi (83′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Gonçalo Inácio (24′), Luis Suárez (49′) e Nabil TZ (84′)
Apesar de parecer tudo preparado para o apito inicial de João Pinheiro, o encontro acabou por ter um atraso de quase dez minutos devido a um problema na bandeirola de canto que deixou todos os jogadores em campo a recriarem-se com a bola e os adeptos a acelerarem a entrada ou a admirarem um arco-íris bem visível num dos lados do estádio. Ainda assim, os dados estavam mais do que lançados: um Alverca a tentar saltar numa pressão alta antes de baixar duas linhas muito juntas para tirarem o palco preferido às unidades de corredor central dos leões, um Sporting com mais bola a rodar sem riscos antes de viragens de centro de jogo rápidas para procurar vantagens numéricas ou situações 1×1 nas alas. Oportunidades, quase nada. André Gomes teve um desvio quase por instinto a um cruzamento de Pedro Gonçalves no limite do campo, Rui Silva foi ao chão agarrar um passe tenso da direita, André Gomes voou num centro longo de Trincão e pouco mais, numa fase em que o jogo interior dos leões ia começando a abrir alguns espaços com Pedro Gonçalves no meio.
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Foi essa mobilidade do meio-campo para a frente do Sporting que permitiu depois um período de ascendente na partida, neste caso com as três primeiras ameaças à baliza de André Gomes: Francisco Trincão arriscou a meia distância ao meio descaído sobre a direita para dar o arco à bola mas saiu por cima (12′), Geny Catamo foi ao corredor central quando Trincão descaía para a direita para um remate desviado pelo guarda-redes dos ribatejanos para o lado (16′), Morita manteve a tendência aproveitando o muito espaço no corredor central para tentar também ele a sorte de fora mas a tentativa desviou em Pedro Gonçalves e saiu ao lado (18′). O momento era dos bicampeões e teria mesmo o resultado material do domínio pouco depois, com Morita a ganhar a linha na esquerda para o cruzamento, Pedro Gonçalves a adivinhar para onde iria cair o corte da defesa e a antecipar o lance antes de um remate em forma de passe à baliza que fez o 1-0 (22′).
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Por diferentes razões, essa fase não teve continuidade – e o Alverca aproveitou. Gonçalo Inácio viu amarelo por uma falta sobre Nabil que nasceu de um erro na transição defensiva (24′), Nuno Santos sofreu uma lesão na coxa esquerda que deixou os companheiros visivelmente abalados pelo infortúnio do companheiro que ia mostrando toda a frustração pelo momento no dia em que voltou a ser titular mais de 500 dias depois (27′), Lincoln aproveitou um erro de Morita a meio-campo para arriscar a meia distância travada com dificuldades por Rui Silva (31′), Sandro Lima desviou de cabeça muito perto do poste após cruzamento de Figueiredo num lance em que a transição defensiva dos leões voltou a falhar. O Sporting ia confundido em campo o conceito de controlar com a ideia de “desacelerar”, o que dava aos ribatejanos a margem para não desligarem do jogo e do resultado, continuando aos poucos a crescer apesar da desvantagem ao intervalo.
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A segunda parte, já disputada a 100% com luz artificial (algo que será diferente a partir da próxima semana com a mudança da hora), começou com um lance inusitado mas sem impacto no jogo, com Luis Suárez a ser desmarcado por Pedro Gonçalves, a passar por André Gomes antes de cair, João Pinheiro a assinalar penálti, o colombiano a dizer que não tinha havido falta mas que caíra por desequilíbrio e o lance a ser revertido… com amarelo para o avançado. Suárez não concordou, continuou a explicar que não simulou nada, manteve os protestos e prolongou-os depois… com bola: lance dividido no corpo a corpo a cair para o sul-americano, preparação do remate e tiro colocado para o 2-0 antes da celebração a olhar de forma fixa para o árbitro (50′). Os sinais de desgaste sobretudo nas transições começavam a ser visíveis mas o Sporting ficava com uma margem de dois golos para gerir de outra forma numa fase em que a sociedade Pote-Suárez com o português pelo meio continuava a render, com o colombiano a atirar ao lado isolado na área (57′).
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Custódio tentou algo mais no jogo com as entradas de Vasco Moreira, Davy Gui e Marezi, refrescando quase todo o setor ofensivo para ter outro pulmão sem bola e outra verticalidade em posse, mas o Sporting surgiu de forma bem melhor após o intervalo também nesse particular, gerindo a partida de forma inteligente com muita bola, escondendo todas as questões físicas que naturalmente poderiam aparecer e ficando até perto de uma goleada por outros números, depois de um remate na área de Hjulmand travado por André Gomes e de um tiro em posição frontal de Francisco Trincão que saiu por cima. Não foi aí, foi depois: na sequência de mais uma grande jogada coletiva a passar pelos pés de todos os elementos adiantados, Geny Catamo fez uma diagonal da direita para o meio, puxou a culatra atrás e disparou colocado para o “fim” do jogo (68′).
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A partida teria um final mais incaracterístico, entre um Sporting mais “desligado”, um Alverca que estendia mais em campo as suas áreas de influência ficando mais exposto na retaguarda e substituições que tinham o condão de deixar a equipa em fase de adaptação. Foi assim que, na sequência de uma jogada pela esquerda onde estava Vagiannidis por troca com Fresneda (Ricardo Mangas entrara para a esquerda da defesa), os ribatejanos marcaram o golo de honra num bom trabalho na área de Marezi (83′). Foi assim que, num livre “ganho” por Ricardo Mangas na primeira ação ofensiva que teve, Pedro Gonçalves bateu quase sem ângulo de forma direta para o 4-1 (86′). Foi assim que, numa transição, Rafael Nel viu James tirar o golo em cima da linha após assistência de Geny Catamos antes do desvio ao poste de Mangas (88′). O período de descontos foi “penoso”, com Trincão, Pedro Gonçalves e Geny a caírem esgotados, mas o resultado já estava feito.
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