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(A) :: A angústia dos nossos tempos

A angústia dos nossos tempos

Nietzsche lamentava o defeito dos filósofos: a falta de consciência histórica. Limitemo-nos à nossa pequenez para lamentar a total ausência de consciência histórica de políticos e comentadores.

Miguel Morgado
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Nietzsche, de quem convém lembrarmo-nos nos tempos que vivemos, lamentava-se do “defeito hereditário” de todos os filósofos: a falta de consciência histórica. Como já não nos restam filósofos, e como em Portugal desde há muito que lhes perdemos o rasto, limitemo-nos à nossa pequenez para lamentar a total ausência de consciência histórica de políticos e comentadores. O modo como uma classe e outra têm olhado para o passado recente, quando nos propõem sem piedade colocar estes últimos três ou quatro anos “em perspectiva”, levanta a habitual suspeita de ignorância – ou má-fé.

Se há coisa segura é que o momento que atravessamos com uma guerra inexplicável e irresolúvel em curso, e outra às nossas portas, em que escolhemos um inimigo, mas sem o atrevimento de o derrotarmos, suscita uma angústia universal. Daí que amaldiçoemos o tempo em que vivemos e lisonjeemos o tempo que passou, sobretudo as décadas que se seguiram ao horror da 2ª Guerra Mundial. Gostamos de fundar este protesto e esta ingratidão com os ditames da consciência tenra e malformada que resume a condição moral do político e do comentador neste estádio do progresso da Humanidade.

Alegadamente, o mundo de hoje impõe-nos sofrimento e injustiça nunca dantes vistas. Com o desastre da liderança americana em curso, com os crimes que se descobrem todos os dias jamais previstos pela bafienta lei natural – as “micro” opressões, as pseudo “discriminações”, as supostas “perseguições”, os horrores de um passado mal contado e selectivo que por uma misteriosa mão invisível se propagam na geração dos vivos, mas só se tiverem uma certa cor de pele ou determinadas opiniões políticas –, resta-nos descobrir um mundo das maravilhas que reinou até às vésperas das primeiras e únicas violações do direito internacional, e entretanto morreu.

Uns suspiram pela “simplicidade” e “previsibilidade” da Guerra Fria, normalmente um pretexto para saudar um regime totalitário sem revelar o que isso possa ter de contraditório para quem faz tanta “pedagogia democrática”. Dessa linda “simplicidade” quase resultou uma guerra nuclear apocalíptica, resvés que até hoje não se repetiu. Mais, a “previsibilidade” que se canta hoje só existe na cabeça daqueles a quem escapou a avalanche de complexidade geopolítica enquanto decorria o duelo Washington-Moscovo. Do movimento dos não-alinhados até ao aparecimento de rivalidades regionais que se ossificaram até aos nossos dias (Paquistão-Índia; África árabe/muçulmana-África negra/cristã/animista; Sueste Asiático-China, e por aí fora), o que não faltou foi complexidade e fracturas geopolíticas em formação e aprofundamento.

Pouco importa para essa revisitação do passado recente, que mais não é do que um libelo acusatório do tempo presente, que a década de 50 tenha conhecido horrores sem fim. A guerra da Coreia (uma guerra com pouca televisão e nenhumas redes sociais, bem sei), a “guerra selvagem da paz” na Argélia, como Alistair Horne lhe chamou, a primeira guerra civil do Sudão ou os anos ferocíssimos do sistema de morte e de escravatura do Gulag. Os anos que se seguiram trouxeram-nos o Vietname, a Indonésia, a China do Grande Salto em Frente ou a secessão do Biafra. Depois, na década de 70, foi o horror do Cambodja do comunismo, o genocídio na Guerra de Independência do Bangladesh, no Burundi, na invasão de Timor, ou a violência em Angola e na Etiópia. Os anos 80 trouxeram a guerra mais sangrenta no Médio Oriente até então e até hoje, a que opôs Iraque e Irão, com armas químicas e vagas humanas, por vezes de crianças, para serem mortas sob o desígnio da religião e da ganância.

Os exemplos abundam. Mas talvez o passado legal e justo, pacífico e próspero, se tenha resumido ao dos anos 90, quando o bloco soviético se autodestruiu, e vigorava uma ordem, essa, sim, unipolar, com um polícia do mundo (por vezes) mandatado pelo Conselho de Segurança. Nem isso nos poupou, no entanto, ao genocídio do Ruanda, que no seu ano gerou uns discretos artigos na imprensa internacional, e um punhado de gestos de indignação. Trouxe-nos a guerra mais sangrenta e sofrida desde a 2ª Guerra Mundial, na República Democrática do Congo, em que tantos vizinhos africanos meteram o bedelho e o fogo, e que nunca despertou qualquer lágrima num estúdio de televisão ocidental, muito menos uma manifestação numa capital europeia.

Na verdade, o nosso passado foi implacável para com aqueles apanhados no turbilhão de violência e injustiça que nunca cessou. Só uma dose incomparável de cinismo nos poderia dar alguma razão para regressar a ele. E, se somarmos os extraordinários ganhos na conquista da pobreza mais extrema do planeta – da Indonésia ao Vietname, da Índia ao Bangladesh, do Botswana a Marrocos ou ao México ou à Polónia ou à China –, a condição dos mais pobres e descamisados dentre o universo dos pobres e descamisados conheceu no nosso maldito tempo um alívio, esse, sim, sem quaisquer precedentes históricos.

Há razões para nos angustiarmos com os tempos que vivemos e com os acontecimentos que testemunhamos. Nem sempre essas são confessadas pelos políticos e comentadores. Mas elas também os movem. Movem-nos sem que eles saibam. Dão-lhes movimento, mas não iluminação. São como sonâmbulos, que repetem palavras de ordem e outros tantos lugares-comuns como se precisassem de mostrar a eles mesmos que estão despertos. As razões subterrâneas da nossa angústia são mais poderosas e escondem-se como prova do seu poder.