A Republica Monarquico-Socialista Portuguesa entrou numa espiral de produção de argumentos para justificar os seus privilégios. Temos tido de tudo. Comecemos pelo estilo ofendido: “Carneiro considera inaceitável que PS fique fora da eleição de juízes para o Tribunal Constitucional“, esquecendo o líder do PS de referir que o PS não só não está de fora do TC como detém a sua presidência. Também temos a teoria da conspiração: “Francisco César: depois de Passos e Spinumviva, há “um ajuste de contas do PSD em relação ao TC” O dirigente socialista acusa o PSD de uma tentativa “trumpista” de afastar o PS do Tribunal Constitucional para influenciar a interpretação da Constituição.” concluindo-se daqui que, segundo César filho, os demais partidos deveriam aceitar o predomínio do PS independentemente dos resultados eleitorais e se por bizarria tal não acontece a explicação só pode ser uma: o Trump obviamente.
Temos também os que lastimam que o equilíbrio do Tribunal Constitucional esteja a ser posto em causa na sequência da entrada de um juiz indicado pelo Chega mas que não vêem desequilíbrio algum no facto de o segundo partido não estar representado no TC. E, claro, não se pode ignorar a ficção mirabolante de Rui Tavares que dá conta da entrada de três juízes indicados pela direita no TC como uma espécie de assalto no velho Oeste — “a extrema-direita quer pôr um pé no Tribunal Constitucional e, aparentemente, com o partido do Governo também a querer aproveitar essa boleia para porem três juízes de direita” — enquanto vê na maioria presidencial de António José Seguro a confirmação de que os portugueses não querem um juiz indicado pelo Chega no TC.
Por fim vem aquele que é, para mim, a cereja no topo do bolo: o acordo histórico ou acordo de cavalheiros estabelecido em 1982 entre PS e PSD, que dividia igualmente os 10 juízes do TC por estes dois partidos. Como é que 44 anos depois e com um quadro partidário substancialmente diferente — os cavalheiros agora são três — se mantém o TC alheio àquilo que os portugueses expressam nas urnas? E se por acaso, que pode não ser tanto acaso assim, um dos partidos que subscreveu o tal pacto informal e não escrito de 1982, ou seja o PS ou o PSD, se tornar irrelevante eleitoralmente falando, o TC continuaria a reflectir o acordo para mais informal de 1982?
Desculpem, mas tudo isto lido e espremido leva ao mesmo: Portugal é uma república monárquica com uma família reinante socialista e que, por isso mesmo, por ser socialista e republicana, defende os seus privilégios com uma superioridade e um descaramento que as famílias reais que ainda sobram não ousam. Imagine-se, por exemplo, a risada e a chacota com que seria recebida esta discussão caso ela fosse protagonizada por um PSD transformado em terceiro partido no parlamento e com a direita no seu todo a valer uns escassos 41 por cento dos votos!? Pois é, todos os dias a esquerda repetiria a frase de Pedro Nuno Santos em 2017 “O PS nunca mais vai precisar da direita para governar”. Obviamente quem à direita propusesse acordos seria destratado, como aconteceu a Rui Rio durante a geringonça; a concertação social seria relegada para um canto… E não tenho a menor dúvida que, caso a esquerda tivesse uma maioria que lhe permitisse fazer sozinha uma revisão constitucional, a faria com pompa e circunstância, quanto mais não fosse para, mimetizado outros países, transformar a constituição numa espécie de panfleto com referências às causas do momento.
Nos jornais do século XIX a propósito da família real, escrevia-se “Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes.» No século XXI, na República Monarquico-Socialista Portuguesa, os socialistas, verdadeiramente as majestades e altezas do regime, estão a descobrir que passaram grandes novidades em suas outrora importantes votações.