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(A) :: Um problema de copa

Um problema de copa

“Comida para ricos e comida para pobres” ? Fala-se de uma discriminação abjeta, de uma instituição que teria perdido os seus valores. Mas essa leitura não resiste a um olhar atento.

P.e João Miguel da Silva Soares
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A pacatez do lugar contrasta com a voracidade dos comentários nos media e nas redes sociais. Uma escola que é memória de muitos — que nos seus pátios jogaram — é hoje falada por tantos que, se quisessem lá chegar, não saberiam que caminho percorrer.

Ao passar perto da porta, tudo parece igual. Os mesmos autocarros cheios de manhã, as mesmas mochilas às costas, os mesmos recreios onde se misturam vozes e risos. Mas, nos últimos tempos, há quem olhe para dentro dos Salesianos de Manique e veja outra coisa. Ou melhor, ache que vê: duas escolas dentro da mesma escola — dois mundos, um para “ricos”, outro para “pobres”.

A ideia espalhou-se depressa, sobretudo porque cabe numa frase simples e provocatória: “Comida para ricos e comida para pobres”. Fala-se de uma discriminação abjeta, de uma instituição que teria perdido os seus valores. Mas essa leitura não resiste a um olhar atento. A diferença social que ali existe não nasce de uma triagem económica. Nas turmas de contrato de associação, os alunos não chegam por rendimento, chegam por proximidade. São, por isso, o reflexo da zona envolvente — da freguesia de Alcabideche, no concelho de Cascais — com tudo o que isso implica: diversidade, contrastes, mas também uma realidade que, para muitos, está longe da imagem de carência que se insiste em repetir.

Confunde-se um critério geográfico com um rótulo social. Parte-se de uma ideia feita e ignora-se o que ela já não explica. Porque o que ali existe não é uma divisão simples entre quem tem e quem não tem. É um espaço onde diferentes pontos de partida se cruzam todos os dias, e onde a realidade, como quase sempre, é mais complexa do que a versão que circula.

No meio dos muitos comentários, surgiu a história de um aluno que me chamou a atenção: o João. Talvez pelo nome. Apesar de a narradora o descrever como certo de ser aluno dos Salesianos de Manique, foi difícil reconhecê-lo como representante dos “pobres” das suas turmas de contrato de associação.

Felizmente, há quem conheça melhor esse João e, munido de pensamento crítico — cada vez mais raro — conte uma história mais próxima da realidade:

O João continua a ir para a escola cedo, de autocarro, meio a dormir, ainda com frio no inverno e calor no verão. Continua a ter dias em que não acaba os TPC e dias em que acha que os outros têm tudo mais fácil.

Na cantina, continua a haver duas filas. Numa, a comida vem com melhor aspeto. Na outra, vem mais simples. O João olha, compara, engole em seco. Não é justo — pensa ele, enquanto mastiga devagar.

Mas depois o dia continua.

Na aula seguinte, o professor é o mesmo para todos. Explica da mesma maneira, exige da mesma maneira, acredita da mesma maneira. O João percebe melhor hoje do que ontem. Levanta o braço. Ninguém lhe pergunta quanto pagou pelo almoço.

Mais tarde, passa pelos campos, bolas a rolar. Há risos, há jogos, há miúdos a correr como se o mundo fosse deles. Passa na piscina e na sala de música, onde há instrumentos que o nunca viu em casa, mas aqui pode tocar. Há visitas de estudo que o levam mais longe do que o bairro. Há portas que, devagarinho, se vão abrindo.

E há pessoas. Professores que ficam depois da hora. Que explicam outra vez. Que respondem a mensagens a qualquer hora. Que sabem o nome dele, mesmo quando ele acha que é só mais um. Conversas que acontecem. Atenção que, às vezes, em mais lado nenhum cabe.

O João começa a perceber coisas que não vêm no prato. Percebe que há colegas diferentes dele — muito diferentes — e que, ainda assim, jogam à bola juntos, riem das mesmas piadas, preparam juntos os testes. Sem darem por isso, vão-se aproximando. Vão criando ligações. Vão construindo pontes onde antes só havia distância.

Na cantina, a diferença continua lá. Não desaparece. Mas também não cresce. Fica naquele espaço pequeno — entre a travessa e o tabuleiro. Um problema de copa, afinal. Porque cá fora, no resto do dia, o João vai acumulando outras coisas. Proximidade e conhecimento, oportunidades e contactos, confiança. Coisas que não se servem ao almoço, mas que alimentam muito mais tempo.

E um dia, sem dar por isso, o prato já não pesa tanto.

Não porque ficou mais leve — mas porque o João ficou maior.

É aí que a escola, com todas as suas imperfeições, continua a fazer aquilo que sempre fez: abrir portas a quem chega — mesmo que tenha vindo de autocarro ainda com o sono da manhã nos olhos.