Nos dias de hoje existe uma tentação recorrente – algo de infantil – de acreditar que a tecnologia resolve tudo. Que basta gastar mais, investir mais, sofisticar mais e o problema desaparece. O F-35 é talvez o exemplo máximo dessa ilusão moderna: trinta anos, mais de 400 mil milhões de dólares só em desenvolvimento e aquisição, e a promessa quase religiosa de invisibilidade total. Um avião que ninguém veria, ninguém detectaria, ninguém atingiria. Mas depois temos a realidade.
No dia 19 de março de 2026, sobre o espaço aéreo iraniano, um sistema IRST – infravermelhos, nada de ficção científica – detectou e marcou como alvo um F-35A da USAF. Não por genialidade extrema dos engenheiros iranianos, mas porque há um limite físico que não se contorna: calor. Um motor potente gera calor. Um avião que voa durante horas aquece toda a sua estrutura. E, ao contrário do radar, o infravermelho não quer saber de ângulos, materiais absorventes ou geometrias “stealth”. Quer é contraste térmico. E isso o F-35 tem inevitavelmente, e de forma muito intensa se falamos de um aparelho que tem de voar horas antes de chegar a uma distância em que pode lançar a sua carga útil.
Mas atenção: até à altura em que escrevo estas linhas não há confirmação pública sólida sobre o que exatamente o danificou. O que se sabe é que aterrou sob controlo total do piloto. Isso diz duas coisas ao mesmo tempo: o avião não é invulnerável, mas também não é frágil como alguns bots chineses, russos e iranianos nos querem convencer.
A questão que, para mim, é mais importante é outra: que sistema usou o Irão e o que significa isto para nós, Portugal, enquanto possível operador do aparelho num futuro próximo?
Não acredito que o Irão tenha inventado algo de novo. Há várias hipóteses plausíveis. Pode ter sido um sensor terrestre integrado em sistemas como o Bavar-373 (fortemente influenciado pelo S-300 russo), ou sistemas mais antigos modernizados com tecnologia chinesa ou russa. Pode também ter sido um IRST aerotransportado, dos quais os iranianos operam versões adaptadas em caças com sensores infravermelhos, ainda que longe do estado da arte ocidental. Mas aqui entra o ponto incómodo: a tecnologia necessária não é de topo. Russos e chineses operam há anos sistemas IRST muito avançados. O OLS-35 russo, montado em caças como o Su-35, ou os sensores equivalentes chineses em plataformas J-20, foram concebidos precisamente para isto: detectar alvos “stealth” sem precisar do radar. E outros sistemas terrestres passivos, que não emitem e portanto não se denunciam, fazem o mesmo há décadas. Não é nada de novo. Não é “rocket science”: apenas estava esquecido.
O mito da invisibilidade do F-35 assenta numa meia-verdade: o aparelho é extremamente difícil de detectar por radar em condições ideais e quando em configuração “limpa”. Mas a guerra real não se faz em laboratório. E aqui entra um detalhe que muitos preferem ignorar: Israel já voa F-35I em “beast mode”, com JDAMs de 2.000 libras em suportes externos: uma capacidade desenvolvida durante o conflito pela própria força aérea israelita em colaboração com a Lockheed Martin. Isto aumenta a carga útil mas também a assinatura radar. Não por incompetência ou desleixo, mas por escolha consciente: mais carga, mais flexibilidade, mais capacidade destrutiva e maior risco de detecção. O que não torna o F-35 obsoleto. Continua a ser uma plataforma com sensores, fusão de dados e capacidade de guerra eletrónica muito acima da média. Continua a operar, continua a regressar à base mesmo depois de ser atingido.
O que o Irão – ou quem quer que tenha contribuído tecnicamente – mostrou não foi que o F-35 falhou. Mostrou que o paradigma falhou. Que a ideia de invisibilidade total é ilusória. E que sensores simples, bem utilizados, continuam a ter lugar num campo de batalha saturado de tecnologia. Há ainda um efeito colateral inevitável: os dados. Qualquer assinatura térmica recolhida é ouro para Moscovo, para Pequim, para qualquer país que esteja a desenhar sistemas de detecção ou mísseis de nova geração. Não é embaraço mediático. É matéria-prima para engenharia que depois se aplica no aperfeiçoamento de sistemas antiaéreos. E com tantas missões a serem voadas nos céus do Irão, os sistemas russos e chineses estão a aprender e muito…
No fim, sobra uma conclusão pouco confortável: os quatrocentos mil milhões investidos no desenvolvimento e aquisição do F-35 não garantem invulnerabilidade. Garantem vantagem aos países que operam, uma vantagem temporária, relativa, contestável mas necessariamente imperfeita.