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(A) :: A política tornou-se num desejo inconsciente 

A política tornou-se num desejo inconsciente 

Evitamos informação que não apoia as nossas opiniões e procuramos informação que as reforça. Porque é que evitamos tudo aquilo que nos contraria?

Leonor Gaião
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E se alguém lhe dissesse que a polarização política tem pouco ou nada a ver com política? E se, afinal, a esquerda e a direita não passam agora de conceitos envelhecidos, a quem as sociedades modernas roubaram o conteúdo?

A polarização política tem sido apresentada como uma das questões centrais do nosso século (Carothers & O’Donohue, 2019). Em Portugal e no resto do mundo, assistimos à ascensão de movimentos cada vez mais distantes ideologicamente, mas curiosamente semelhantes quando se trata da hostilidade. Segundo um estudo de 2017, do Pew Research Center, em Washington, nas últimas duas décadas, democratas e republicanos nunca estiveram ideologicamente tão separados como agora.

Num mundo dominado por informações falsas e pela conquista do público através da atenção, onde a política está transformada em arena de gladiadores, que lutam por ser aquele que consegue desferir o maior golpe no adversário, é bem possível que as nossas crenças políticas já não sejam meramente baseadas na teoria e no conhecimento. Pelo contrário, as nossas atitudes políticas parecem ter-se alojado numa parte famosa do nosso funcionamento psíquico: o Id. O chamado inconsciente para alguns, impulsos biológicos para outros.

Ao representar os nossos desejos mais primitivos e impulsivos, o Id apela às nossas necessidades imediatas, ao nosso egoísmo e à nossa sobrevivência emocional. A política, como ela está a ser jogada, parece uma manifestação crua daquilo que o nosso Id grita quando o Ego e o Superego ficam em silêncio. Segundo a literatura científica das últimas décadas, uma das maiores causas da polarização é a falta de comunicação produtiva entre indivíduos com visões diferentes.

Não é novidade no campo da psicologia social que temos alguma dificuldade em conceber o mundo fora dos limites das nossas percepções. O ser humano consegue ser ágil quando se apercebe das suas limitações, mas profundamente cego quando vive apenas com base nas fronteiras dos seus próprios vieses de pensamento. O problema: poucos o admitem (ou conseguem vê-lo).

Há dados fascinantes sobre aquilo que nosso cérebro é capaz de fazer para tentar confirmar a ideia de que tudo aquilo que pensamos está correcto. Somos seres que não gostam de ser contrariados e fazemos de tudo para evitar que isso aconteça. Sabe-se que os indivíduos vivem em grupos e ambientes sociais que reforçam os seus valores e crenças, raramente fogem da sua zona de conforto e se aventuram em grupos que questionam a sua visão do mundo (i, Scala, & Sunstein, 2016). Vários estudos concluíram que evitamos informação que não apoia as nossas opiniões, e privilegiamos e procuramos informação que reforça as nossas crenças sociais, políticas, morais, etc. (Hart et al., 2009; M. K. Chen & Rohla, 2018).

Mas afinal porque é que evitamos tudo aquilo que nos contraria? A verdade é que somos avessos à mudança, não nos apelidássemos tantas vezes de “seres de hábitos”. A confrontação com ideias diferentes das nossas e a mera possibilidade de questionar os hábitos e as crenças que já temos enraizados são tarefas capazes de nos fazer deitar fumo pela cabeça, literalmente. Quando um hábito ou um pensamento é repetido todos os dias, sem ser questionado, o nosso cérebro gasta menos energia e esforço. Um cérebro que não se questiona é um cérebro com menos trabalho. Se calhar, quando não queremos ouvir aquele amigo ou aquele colega com uma opinião diferente da nossa, podemos começar a usar a preguiça como desculpa, em vez do preconceito.

E é aqui que a Inteligência Artificial entra nas nossas vidas (para nos tornar ainda mais preguiçosos). Que atire a primeira pedra quem nunca experimentou perguntar alguma coisa ao ChatGPT. Quem o fez, sabe que estas ferramentas trabalham segundo aquilo que poderíamos chamar “princípio bajulatório”. Quase tudo o que lhe escrevemos, o Chat confirma, elogia, bajula. À luz destas ferramentas, cada um de nós é um invencível. Um invencível limitado, cego e preso ao seu pequeno quintal, cada dia mais convencido de que as opiniões alheias não valem o esforço de serem pensadas. Sobre o que está por trás do “princípio bajulatório”, fica para uma próxima.