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Em defesa da diplomacia cultural

Uma doutrina, um bom sistema de financiamento, uma língua como infraestrutura, património como plataforma, diáspora como rede, não são um capricho académico.

Rui Valdemar
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Mesmo que inconscientemente, e enquanto partes activas de uma grande comunidade nacional, somos chamados de forma contínua a tomar decisões que reflectem o nosso passado e espelham o nosso futuro. Há, por isso, decisões que um país toma sem saber que as está a tomar. E durante anos, Portugal foi deixando a diplomacia cultural seguir o seu rumo, com uma embaixada aqui que promove um concerto, ali o Instituto Camões organiza um ciclo de cinema, acolá uma autarquia aproveita uma geminação para enviar um grupo folclórico. Nada disto é mau. O verdadeiro problema é que não chega.

Entro numa qualquer embaixada europeia e vejo sempre a mesma coisa. Quase de modo standard, paredes forradas com cartazes bem desenhados, brochuras de institutos culturais em pilhas organizadas, convites para eventos que parecem pensados ao milímetro. Poder-se-ia dizer que é mera casualidade. Mas, por trás de cada concerto ou exposição há uma estratégia, um orçamento sério e uma ideia de país que se quer projetar. Nós temos boas pessoas, técnicos competentes, instituições respeitadas. Mas falta-nos a peça que liga tudo isto. No fundo, falta-nos uma visão política clara sobre para que serve a cultura na política externa portuguesa.

Podíamos dizer que Portugal é pequeno, que há outras prioridades, que isto é luxo de países ricos. Mas não concordo. Temos 17 sítios classificados pela UNESCO como Património Mundial, o que é um número impressionante para um país com 10 milhões de habitantes. Além disso, a nossa língua é falada por cerca de 260 milhões de pessoas em quatro continentes, e as projeções demográficas apontam para 387 milhões até 2050 e possivelmente 500 milhões no final do século, sobretudo impulsionados pelo crescimento em Angola e Moçambique. Temos uma diáspora estimada em seis milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Poderá parecer que estes dados são mera circunstância, ou uma tentativa de engrandecimento forçada. Contudo são os necessários activos estratégicos que não estamos a usar como devíamos.

E vejamos, não é por falta de exemplos lá fora que não temos um modelo em que nos inspirar. A França criou a Alliance Française ainda no século XIX e hoje mantém centenas de centros espalhados pelo mundo. A Alemanha tem o Goethe-Institut, com um orçamento anual na ordem dos 239 milhões de euros. O British Council movimentou, só em 2023-24, perto de 989 milhões de libras entre receitas várias, vindas, por exemplo, do ensino, exames e programas culturais. Itália, através da rede de 88 Istituti Italiani di Cultura, transforma o made in Italy e a dolce vita em ferramentas assumidas de política externa.

Portugal tem o Instituto Camões, que em 2025 recebeu cerca de 90 milhões de euros se juntarmos o financiamento via cooperação com o da promoção da língua. E perguntamos, é pouco? Depende. Em termos absolutos, está muito longe dos congéneres europeus. Mas o problema não se traduz só em dinheiro. É muito mais fundo, é estrutural, é de visão concreta.

Antes de prosseguir na dialética, creio que vale a pena distinguir três conceitos que se confundem demasiadas vezes. O primeiro é Nation branding e é sobre comunicação, precisamente sobre criar uma imagem-país vendável. Em segundo, mote ao título deste artigo, Soft power, no sentido que Joseph Nye lhe deu nos anos 90, e traduz-se na capacidade de influenciar outros países pela atracção em vez da coerção. Por fim, diplomacia cultural que é, nada mais, anda menos, que o uso deliberado de recursos culturais, como a língua, património, artes, ciência, enquanto instrumento de política externa, com objectivos concretos. É aqui, nesta última dimensão, que Portugal perde terreno.

Então o que falta? Primeiro, uma doutrina. Porque não basta ter um instituto ou embaixadas activas. Precisamos de um documento curto, claro, aprovado ao nível político, que diga para que serve a diplomacia cultural portuguesa. Que hierarquize geografias, como Europa, Atlântico, CPLP, Mediterrâneo, e diáspora. Que defina metas a dez anos. Por exemplo, em quantas organizações internacionais queremos que o português seja língua de trabalho? Que redes científicas ou artísticas queremos co-liderar? Sem esse mapa, o que temos são iniciativas dispersas, por muito boas que sejam, mas que não geram massa crítica.

Segundo, temos de pôr dinheiro onde dizemos ter ambição. Ninguém está à espera que Portugal rivalize com potências do G7, mas se acreditamos mesmo que a cultura é um dos nossos principais trunfos, então tal tem de se ver no Orçamento de Estado. E isso significa definir metas plurianuais, com indicadores simples, como número de centros, de leitores de português, de bolsas, de co-produções, e deixar de fingir que soft power não custa.

Terceiro, devemos tratar a língua portuguesa como infraestrutura estratégica e não como herança sentimental a que, muito fadados, estamos sempre tentados a fazer. Ora vejamos, somos 260 milhões de falantes hoje, podemos ser o dobro daqui a 75 anos. Há universidades, escolas, sistemas jurídicos e administrativos em quatro continentes que partilham a mesma língua. É que, neste entretanto, Espanha promove o castelhano de forma agressiva através do Instituto Cervantes e Portugal continua a encarar o ensino do português no estrangeiro como um prolongamento simpático da política educativa. E não é. Não pode ser! Porque é uma alavanca central de presença económica, científica e diplomática.

Em quarto lugar, deve-se transformar o património e a criação contemporânea em plataformas de relação, não em montras demasiado estáticas. A diplomacia cultural hoje não se mede pelo número de monumentos que mostramos, mas pelas redes que criamos a partir deles. Residências artísticas que ligam centros históricos a laboratórios de criação. Projectos europeus que cruzam património, ciência e transição ecológica. Festivais que funcionam como pontos de encontro entre criadores, cidades e políticas públicas.

Por último, falta mobilizar a diáspora como rede de soft power. E dito isto, não estamos a falar das “comunidades” que se visitam no Dia de Portugal. Estamos a falar de seis milhões de pessoas, entre emigrantes, filhos, netos, luso-descendentes, que vivem em Newark, no Luxemburgo, em Toronto, em Nova Iorque. Muitos deles são curadores, académicos, empresários, decisores que conseguem abrir portas onde a diplomacia tradicional não chega. Mas aproveitá-los implica criar programas de longo prazo dirigidos às segundas e terceiras gerações, tais como bolsas, residências, circuitos de programação, redes profissionais. E sim, depois há que medir resultados. Quantos projectos culturais, académicos ou empresariais co-criamos por ano com esta rede?

No fundo, estas cinco linhas de trabalho, uma doutrina, um bom sistema de financiamento, uma língua como infraestrutura, património como plataforma, diáspora como rede, não são um capricho académico. Considero que são escolhas políticas sobre o lugar que Portugal quer ocupar num mundo onde a capacidade de atrair, de convencer, de tecer alianças através da cultura vale tanto como muitas reuniões formais e alguns milhões em equipamento militar. O que deveremos mesmo querer saber é se queremos fazer essas escolhas ou continuar a adiar.