A “Marcha pela Vida”, organizada pela Federação Portuguesa da Vida (FPV), vem mais uma vez dar sinal de uma chacina encapotada que é levada a cabo não só em Portugal, mas no mundo inteiro. Vem lembrar que a vida humana tem um valor inestimável em qualquer fase do seu desenvolvimento, do nascimento à morte natural. Como Salomão o soube fazer na decisão sábia e justa em relação à disputa entre duas mulheres que alegavam ser mães da mesma criança, a iniciativa prevista para amanhã em várias cidades do país testemunha a razoabilidade de uma decisão.
As opiniões acerca do aborto nem sempre focam o essencial. Não é o negócio em torno das clínicas onde ele se faz, não é a doutrina da Igreja sobre a sexualidade, não são os direitos da mulher o que importa. Importam sim os factos. E importa aquilo que é já a própria ciência a reconhecer, credibilizando a visão milenar do cristianismo selada numa história de testemunhas.
A ignorância dos factos e das conclusões da ciência responsabiliza os homens por crimes de colarinho, como “canhões” de uma guerra oculta mas de igual peso ontológico ao do das guerras visíveis, por de vidas humanas se tratar. Muito embora sejam as guerra visíveis as que mais nos impactam, não fossem elas o alimento das redes sociais.
Para esta ignorância dos factos só tem valor o que acontece à vista desarmada. Lembrei-me aqui do tão famoso e aclamado “o essencial é invisível aos olhos” do livro de Saint- Exupery, cinicamente a encabeçar intagrams e diários, uma espécie de “essencial“ feito a pedido ou à medida…
Os factos são inúmeros. Como o do heroísmo de Chiara Corbella Petrillo cujo processo de beatificação está em curso, tendo já sido declarada Serva de Deus em 2018. A italiana de 28 anos recusou o tratamento de quimioterapia de um cancro na língua para salvar a vida do seu terceiro filho, Francesco, que estava em gestação, e veio a morrer a 13 de junho de 2012. Também ela não quis que o filho fosse cortado ao meio, como na história bíblica relatada no livro dos Reis. E tantas as Chiaras que por esse mundo fora dão a sua vida pelos filhos, os em gestação e os outros!
A Federação Portuguesa pela vida (FPV) tem em primeira mão as histórias de mulheres que recusaram eliminar um seu filho. E também as histórias das mulheres que desistiram de o fazer, porque se sentiram apoiadas pela Associação, em Aveiro, Beja, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Funchal, Guarda, Lamego, Lisboa, Porto, Santarém e Viseu.
Por outro lado temos os factos que a ciência atesta. A ciência não sabe determinar nem o momento em que uma pessoa nasce nem o momento em que uma pessoa morre. Sabe “apenas” que a vida se dá numa evolução, que se dá a partir da concepção, o óvulo fertilizado pelo espermatozoide, um facto.
A ciência muito sabe mas ignora o que é gerado, no que respeita à totalidade dos seus factores. Essa ignorância retira toda a razoabilidade a qualquer intromissão no processo, ao aborto, seja ele em que semana for.
O mesmo se diga em relação à vida na sua fase terminal, também no que respeita à totalidade dos factores em presença. Qual a razoabilidade da decisão de interromper a vida se não se sabe ao certo o que está em causa?
A concepção cristã da realidade tem gerado vidas que valorizam o que não se vê, o tal “invisível aos olhos”. Homens e mulheres que largam tudo para se dedicarem, em África ou no Oriente, aos mais vulneráveis dos seus irmãos, numa presença no terreno a apoiar as mulheres nos seus dilemas, e os mais idosos nas suas dependências. É um facto inegável todo o trabalho missionário feito de partilha de vida, e não de acompanhamento apenas teórico.
A defesa da vida em Portugal tem inúmeros protagonistas. Basta lembrar as Misericórdias e as Ordens religiosas. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa há mais de cinco séculos tem parte de leão no apoio às famílias e às mães, e a FPV desde 1991 apoia projectos de ajuda a grávidas. Todos em consonância marchando contra ventos e marés, numa luta contra “canhões” invisíveis mas que matam de uma forma invisível, brutal, nuclear.