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Regressar a Ormuz e outras lições aprendidas da guerra com o Irão

Uma grande potência marítima, como é o caso dos EUA e como foi o caso de Portugal, que quer manter sobretudo um império de bases, deve evitar, se possível, um choque frontal com potências continentais

Bruno Cardoso Reis
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Portugal devia regressar a Ormuz para ajudar Donald Trump a vencer esta guerra? O governo esteve bem em dizer que não. Iremos olhar para o passado de Portugal na região e as lições que daí podemos tirar para hoje, bem como para cenários concretizados e futuros.

Vai pedir à Ásia

A pressão dos EUA para uma presença naval europeia no estreio de Ormuz foi um dos cenários que avancei e que se concretizou. Era provável que quando Trump percebesse as dificuldades e custos de uma operação de escolta naval no estreito de Ormuz, tentasse transferir a despesa e o risco para outros. Fê-lo no seu estilo sultanístico, ou seja, autocentrado e unilateral: pelas redes sociais, sem consulta prévia, sem conversações entre Estados-Maiores para se perceber o que é que os EUA estavam a planear e a pedir. A única resposta possível era não. Foi o que fizeram os aliados europeus, da grande Alemanha, ao pequeno Luxemburgo, ao médio Portugal. As recentes declarações feitas por uma série de aliados, incluindo o Japão, de que ajudam, mas em condições que não se verificam, parecem ser só uma forma mais diplomática de dizer que não.

Sim, todos pagamos o preço pela maior crise no mercado da energia – segundo o diretor da Agência Internacional de Energia – porque este é um mercado global. Claro, o regime iraniano é péssimo para os iranianos e para o Mundo. Mas garantir a segurança marítima no Estreito de Ormuz no meio desta guerra é uma missão de elevado risco, mais ainda com um aliado tão imprevisível como Trump. Até nas páginas do Spectator, a revista conservadora britânica, se defende que é precisamente essa a posição que a Grã-Bretanha deve tomar – dizer não a Trump.

Portugal, aliás, já fez um grande favor aos EUA no contexto desta guerra. Ao contrário da Espanha e da Grã-Bretanha, permitiu um uso pouco limitado da Base das Lajes desde o início. Não vi ainda qualquer agradecimento público ou retorno do lado dos EUA. Aliás, desde Obama que os EUA andam a declarar aos sete ventos e aos cinco continentes que querem reorientar as suas prioridades para o Indo-Pacífico. Na Estratégia de Segurança Nacional, de 2025, a Administração Trump passou o Velho Continente para uma terceira ordem de prioridade, depois das Américas e do Indo-Pacífico. E ainda aproveitou para apontar o dedo ao colapso civilizacional da Europa. Agora, os primeiros a quem pedem ajuda é ao continente em colapso civilizacional?

Mais, Trump passa o tempo a denegrir o poder militar da Europa. Ainda ontem, frustrado por o Irão não se ter rendido e pela negativa dos europeus, acusou-os de cobardia e de serem um tigre de papel, ao mesmo tempo que afirmava, com a sua habitual coerência argumentativa que esta seria uma missão “fácil” que os europeus poderiam facilmente levar a cabo “sem risco”. Claro que tudo isso é falso. O conjunto dos países europeus membros da NATO tem meios navais significativos, de porta-aviões a submarinos nucleares. Alguns precisam de ser modernizados e as prioridades revistas para lidar com as ameaças atuais, mas isso é assim por todo o lado, inclusive nos EUA. Por exemplo, os EUA desinvestiram perigosamente  na capacidade anti-mina , têm apenas 4 navios draga-minas. A China e a Rússia têm, respetivamente, 45 e 35 e os aliados europeus também têm muito mais do que os EUA: a Polónia 29, a França 19, a Finlândia 18, etc. Mas mesmo para a marinha mais poderosa do Mundo esta missão será de alto risco. O Irão pode atacar de múltiplas formas, inclusive a partir de terra, com tempos de reação muito curtos, e só precisa de acertar uma vez, por exemplo com um drone.

Em termos de drones, como os usar e como se defender deles, nenhum país tem mais experiência nesta dimensão cada vez mais importante da guerra que a Ucrânia. Kiev mostrou disponibilidade para ajudar, apesar de Trump continuar a insultar os ucranianos e até se dar ao trabalho de inventar desculpas para Putin ajudar os iranianos a matar militares norte-americanos. Uma das conclusões que já podemos tirar desta guerra, como de tantas outras no passado – basta pensar em Napoleão ou Hitler – é que a arrogância e o desprezo pelos aliados num conflito é sempre um erro.

Neste caso, a NATO não tem nenhuma obrigação para com os EUA, pois é uma aliança defensiva. Por boas ou más razões, é claro que foi Trump a tomar a iniciativa de atacar o Irão. Foi opção sua fazê-lo sem qualquer consulta prévia com os aliados da NATO. Também é verdade que a Turquia foi atacada pelo Irão, apesar dos desmentidos nada críveis do regime de Teerão. Mas cabe a Ancara decidir se isso configura uma agressão armada que justifique evocar o artigo 5º, e até agora não o fez. Erdogan quer evitar envolver-se mais, pelo que não tem nenhum interesse em trazer a NATO para o barulho, pelo menos para já. Corremos o risco de irritar Trump? O Presidente dos EUA está frequentemente irritado, a propósito e a despropósito, tem um preconceito visceral contra a Europa, e, de qualquer forma, não nos podemos fiar nele. Perguntem aos países do Golfo que investiram centenas de milhões e um avião a jato de bónus a tentar garantir o apoio de Trump aos seus interesses. Colocar a vida de militares europeus em risco numa guerra para tentar conquistar, mais uma vez, o favor de Trump, seria pior do que um crime, seria um erro.

Albuquerque, menos terrível que Trump

Os decisores norte-americanos fariam bem em ter lido um autor americano, Robert Kaplan, que não esconde a sua admiração pela forma como Portugal dominou em termos navais o Golfo Pérsico e boa parte do Oceano Índico no século XVI. Afonso de Albuquerque criou as bases da grande estratégia de hegemonia naval portuguesa no Índico entre 1507-15. Fê-lo com base numa visão mais clara e realista do que os EUA nesta campanha. Albuquerque percebeu que é difícil controlar o mar sem ter boas bases em terra.

Portugal precisava de pontos de apoio permanentes – preferencialmente, fortificações em ilhas ou penínsulas facilmente defensáveis – que lhe permitissem controlar os pontos de estrangulamento das principais rotas do Índico – estreitos como o de Ormuz e de Malaca ou de Áden. Para o fazer, Albuquerque usou a força quando necessário, mas também recorreu à diplomacia. Tentou sempre que possível manter boas relações com as grandes potências locais mais interessadas na dimensão continental do que naval. Foi assim, nomeadamente, com a nova Pérsia Safávida, do Xá Ismail, com quem Albuquerque partilhava um grande inimigo, o Império Otomano. Portugal perdeu a hegemonia marítima no Golfo, a partir de 1622, quando potências locais e europeias – o Irão Safávida, o Omã emergente e a Inglaterra – se aliaram para atacar a presença portuguesa por terra e mar. Uma grande potência marítima, como é o caso dos EUA e como foi o caso de Portugal, que quer manter sobretudo um império de bases, deve evitar, sendo possível, um choque frontal com potências continentais.

A guerra do petróleo e do gás

Também se concretizaram ataques iranianos ao porto estratégico de Fujairah na costa dos Emiratos, do lado do Oceano Índico. Era um alvo próximo, fundamental para fechar uma de duas grandes rotas alternativas ao estreito de Ormuz, a mais vulnerável a ataques iranianos. O aumento significativo da exportação do petróleo saudita através do oleoduto leste-oeste até ao porto de Yanbu no Mar Vermelho também se confirmou. E também este porto acabou por ser atacado nos últimos dias pelos iranianos. Apesar de mais distante do principal teatro de operações, ainda assim está ao alcance dos mísseis e drones do Irão. Trump também visou num ataque aéreo a ilha de Kharg, o ponto de estrangulamento por onde passam mais de 90% das exportações de petróleo do Irão.

Será fundamental para a evolução da guerra perceber qual será a missão de uma força expedicionária de Marines (fuzileiros), que se está a deslocar do Japão até este região. Há rumores informados de que mais forças deste tipo estarão a caminho. É provável que Trump ainda não tenha decidido o seu emprego. Pode ser mais uma forma de tentar pressionar o regime de Teerão. O problema é que o regime iraniano está convencido que Trump não se atreverá a colocar botas no terreno, e, se o fizer, acredita que levará a cabo uma guerrilha eficaz. Com estes números é provável que esteja a ser ponderada do lado dos EUA uma missão limitada em terra. Os alvos evidentes, nesse caso, seriam as ilhas junto ao estreito de Ormuz e/ou a ilha de Kharg. Militarmente, seria menos complicado do que uma invasão terrestre do continente, em grande escala, mas ainda assim teria riscos, e Trump prometeu aos seus eleitores não voltar a colocar tropas americanas em risco em guerras no Médio Oriente.

A questão fundamental para a evolução do conflito e do seu impacto global não será se esta guerra das infraestruturas da energia irá continuar. O cenário mais provável é que sim. E, se for o caso, isso continuará a agravar a crise económica global. É verdade que Trump percebeu a gravidade do ataque israelita ao campo de extração de gás iraniano de South Fars, o maior do mundo, dividido com o Qatar, que foi por sua vez, ilegal, mas previsivelmente, atacado pelos iranianos. Trump anunciou que vetou novos ataques deste tipo. Mas isso não está a travar novos ataques do Irão. O objetivo do regime de Teerão é deixar claro que esta guerra afetará não apenas a esperança de vida dos Aiatolas, mas também a esperança de vida das previsões económicas globais. Esta estratégia de guerra energética global é ilegal, mas faz sentido num conflito assimétrico, em que o lado mais fraco tem de aumentar os custos para o lado mais forte, para erodir a sua vontade de continuar a combater e dissuadir agressões futuras.

O preço é particularmente dramático na Ásia, pois, como referimos, a maioria das grandes economias asiáticas relevantes depende em 50% ou mais dos hidrocarbonetos do Golfo. Em muitos desses países, a questão já é tentar evitar a falta de combustível com medidas como teletrabalho e telescola como as que vimos na Covid-19. Para a Europa é, sobretudo, o gás que coloca problemas devido à importância do Qatar e a falta de alternativas.

A China, exceção parcial

Tal como os líderes sauditas, a liderança chinesa gosta de planear a prazo e leva a sério um mundo mais perigoso. Pequim acumulou as maiores reservas estratégicas de petróleo do mundo, estimadas em mais de mil milhões de barris, e suficientes para pelo menos dois meses. A Europa devia seguir esse exemplo, nomeadamente, no gás.

Este é um dado fundamental para desenharmos cenários sobre a duração do conflito. Se o conflito continuar a prolongar-se e começar a colocar em risco a almofada criada por essas reservas estratégicas, ficaria espantado se Pequim não pressionasse Teerão. Trump já deu múltiplos sinais de que quer um fim rápido para a guerra, declarar vitória e seguir em frente, provavelmente para Cuba. Isso será difícil, no entanto, se o estreito de Ormuz continuar fechado. Do lado do Irão (e de Israel) há setores mais duros que não querem um fim rápido, mas não é certo que prevaleçam. Pequim pesa alguma coisa em Teerão, ou pelo menos pesava, até a estratégia de decapitação de Israel levantar dúvidas sobre quem realmente controla o regime e o país. Por falar em cenários, quando iremos ver entrar em cena, ao vivo e a cores, o novo guia supremo? Mojtaba Khamenei continua oculto. Quanto mais tempo passar sem aparecer, mais isso levantará suspeitas e poderá fragilizar o regime iraniano.

Uma nova revolução iraniana?

Estamos em plena celebração do Ano Novo Persa, o Noruz. Há milhares de anos que é um momento de grandes festejos na civilização persa, significando o triunfo da luz sobre as trevas. Não é para já o caso este ano. Aparentemente alguns em Israel alimentavam a esperança de que a oposição iraniana iria fazer alguma coisa contra o regime nesta ocasião. Não se vê, para já, sinais disso. Seria historicamente inédito.

Não me ocorrem precedentes de uma grande revolta popular no meios de bombardeamentos inimigos. O mais próximo seria a Comuna de Paris, de 1871, mas em reação à rendição do governo conservador francês à Prússia e à sua colaboração com a ocupação estrangeira. Também temos a revolução russa de março de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial. No entanto, teve lugar depois de três anos de conflito, os russos tinham perdido imenso território, sofrido enormes derrotas e grandes baixas, e estavam no meio de uma situação económica e alimentar desesperada. Não subestimo o heroísmo das iranianas e dos iranianos que se têm mostrado dispostos a enfrentar, desarmados, um regime sanguinário. Mas seria um erro presumir o sucesso de uma oposição desarmada. O fim do regime iraniano é desejável para a libertação dos iranianos e para a pacificação da região. Mas a essência do Realismo, indispensável em política internacional, é perceber que nem tudo o que é desejável é possível. E o fim de uma ditadura não é o mesmo que o estabelecimento de uma democracia.