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(A) :: Uma carta de amor do pai Lobo Antunes

Uma carta de amor do pai Lobo Antunes

Ser pai é ser, de algum modo, pontífice – aquele que constrói a ponte que nos liga aos nossos antepassados.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Quando morre alguém famoso, por vezes há quem vá para a comunicação social presumir uma grande intimidade com o finado, que até trata pelo nome próprio – a Sophia, o António, etc. – presumindo uma grande amizade entre ambos. Claro que essa falta do mais elementar pudor é, precisamente, prova do contrário pois, se fosse verdadeira a amizade, não se serviriam da memória dessa pessoa, e muito menos da penosa circunstância do seu falecimento, para se exibirem.

Dito isto, devo confessar que, embora tenha um amigo comum com António Lobo Antunes, não tive a honra de o conhecer. No entanto, por ocasião do seu desaparecimento, li uma sua crónica que vem a propósito do Dia do Pai, celebrado no passado dia 19, em que a Igreja festeja São José. O marido de Maria não gerou Jesus de Nazaré, mas fez as vezes de seu pai, assumindo legalmente a sua paternidade. Dele era especialmente devoto o Papa Francisco, que introduziu o seu nome em todas as orações eucarísticas.

Nesse delicioso texto de António Lobo Antunes – publicado na Visão, a 17-5-2018 – encontrei uma curiosa analogia entre os nossos pais, pois ambos se interessavam pelo estudo dos seus antepassados. Com efeito, também “O meu pai passou boa parte dos últimos anos da sua vida às voltas com a árvore genealógica da família, juntando papéis de toda a ordem, fotografias, tralha variadíssima, esquemas cheios de setas, obsessivo como sempre, miudinho, numa busca feroz de exactidão”.

No caso de Lobo Antunes, o pai não conseguiu transmitir ao seu primogénito esse interesse pelo passado da família, enquanto o meu pai logrou contagiar-me com essa sua paixão – sou até o único filho, dos oito havidos do casamento dos meus pais, a padecer dessa doença hereditária – que procuro, não obstante a minha escassa disponibilidade, cultivar. E, se também gostava de detectar parecenças, o que mais apaixonava o meu pai não eram os parentescos com as linhagens de maior prosápia nobiliárquica, mas as famílias que, com trabalho e perseverança, tinham conseguido emergir da grei, para se afirmarem como gente de bem. Outro tanto se diga do escritor que, embora descendente por varonia do único visconde de Nazaré, teve o bom gosto de omitir a menção a este titular, a quem poderia ter eventualmente sucedido. Também não refere que, pela sua avó materna, era filho d’algo, por ser o pai dela um Governador da Índia.

Mas, quem se aventura na selva dos seus muitos antepassados já sabe que vai encontrar de tudo um pouco. “Não era um cemitério de gente, era uma vala comum de almas opacas onde o meu nome bruxuleava aqui e ali, como tristes lampadazinhas de azeite nos nichos dos caminhos de província, diante de imagens de barro que iam perdendo a tinta no tempo sem fim dos invernos do Minho ou em terras alemãs e brasileiras, que nunca conheci e para quem eu seria, quando muito, o contorno pouco nítido de um futuro de que não faziam parte, demasiado ocupados, como estavam, com o nada da sua própria morte.

Nesses avoengos, resgatados à amnésia histórica, há antecedentes nossos: “Havia retratos de feições desconhecidas, alguns dos quais já era eu em esboços arcaicos, testas que se transformariam noutra testa, narizes que dariam lugar a outro nariz, às vezes olhos surpreendentemente claros como os meus, um cabelo loiro não inteiramente estranho, uma boca que saltou gerações até eu falar por ela, a orelha esquerda um bocadinho mais descolada, a curva estranhamente evasiva dos sobrolhos.”

À boleia dessas gentes, nossos antepassados, é forçoso revisitar as suas terras, como nos conta, em relação à sua família, Lobo Antunes: “Da aldeia perto da Póvoa do Lanhoso ficou-me o Antunes, de Belém do Pará o Lobo, da Alemanha boa parte das feições: que estranha mistura de sangues, latino, judeu, teutónico, sem falar do árabe que a talassemia da minha mãe me legou, ou fenício, ou cartaginês, ou sei lá, perdido numa bruma confusa de gerações silenciosas, nos acasos de cruzamentos que desconheço, nos ziguezagues de um cursozinho de água que passou por Cabo Verde e por Lagos antes de desaguar no meu pequenino corpo, iniciado no Algarve e concluído com as primeiras lágrimas de Lisboa: de tanta coisa, meu Deus, é feito o pobre homem que uma criatura começou a restaurar no termo da sua vida, quando o filho já andava por aqui em busca de si mesmo no interior de um corpo a que chamava seu, porque, ao construir-se numa esperança de duração, o meu pai me entregou a minha própria finitude.

Diferenças que, por vezes, assinalam semelhanças improváveis. “Talvez fosse essa finitude que eu não quis levantar face à sua eternidade. Muito pouco tenho a ver com ele fisicamente, muito pouco tenho a ver com ele por dentro. Se calhar sou ainda mais seu filho por ser o seu oposto, se calhar estou tão longe que fiquei pertíssimo.

Cada filho tem muitos pais: o primeiro é o herói incontestado da meninice; outro é o tirano insuportável da nossa adolescência rebelde; o seguinte é já o ancião estimado da nossa agradecida maturidade; e o último, quando a sua presença já deu lugar ao vazio da nossa chorosa orfandade, é o pai da nossa saudade. É este último que o escritor evoca, numa singela homenagem filial, que também faço minha e extensiva a todos os pais que souberam unir a sua geração ao passado familiar. Ser pai é ser, de algum modo, pontífice – aquele que constrói a ponte que nos liga à nossa ancestralidade.

Deus, ao fazer-se homem, dispensou um progenitor masculino, mas não quem exercesse nele uma verdadeira paternidade (Lc 2, 48) que, mais do que o mero acto de procriar, comum à geração animal, é amor e educação. Jesus assumiu uma ascendência humana em que, como em todas, há luzes e sombras (Mt 1, 1-16; Lc 3, 23-38). Desde então, a nossa genealogia é uma linhagem divina: o filho de Deus fez-se homem, para que os homens fossem filhos de Deus (Jo 1, 12-13; 1Jo 3, 1-2) e, nesse Pai comum, todos fossemos irmãos em Jesus Cristo.

O comum interesse do pai do escritor e do meu, pelo passado das nossas famílias, estabelece entre nós uma espécie de parentesco espiritual, na base de uma comum dívida filial. Mas também eu, como António Lobo Antunes, só tardiamente o reconheci, quando “compreendi que a árvore genealógica que lhe levou tanto tempo a fazer e quis deixar-me era (…) a carta de amor mais linda que recebi de alguém.