Aconteceu há seis anos. A 23 de Janeiro de 2020 realizou-se a primeira reunião do Comité de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional sobre a Covid, no qual a OMS decidiu não declarar Emergência de Saúde Pública naquele momento. O director-geral Tedros Ghebreyesus afirmou explicitamente: “No momento, a OMS não recomenda restrições mais amplas a viagens ou ao comércio.” Quando, oito dias depois, Trump impôs restrições que contrariavam a recomendação inicial da OMS, o candidato presidencial Joe Biden falou em “xenofobia histérica e medo”, e diversos democratas falaram em “racismo”, “estigmatização” e “medida inútil”. Em Fevereiro, a sra. dona Nancy Pelosi, então presidente da Câmara dos Representantes, foi à Chinatown de São Francisco comer “dim sum” e convidar as massas: “Venham, é muito seguro. Não tenham medo.” Em Março, à medida que Trump foi desvalorizando a gravidade da epidemia, os democratas impunham “confinamentos” rigorosos na Califórnia e, por contágio (sem graçola), na maior parte do país. A retórica do partido adoptou o estribilho de que a atitude “leviana” de Trump era uma irresponsabilidade assassina.
A 1 de Fevereiro de 2020, o “Washington Post” publicou um artigo sob o título: “Controla-te, América (‘Get a grippe’, um trocadilho). Por enquanto a gripe é uma ameaça muito maior que o coronavírus”. A 24 de Março, o mesmo jornal, cujo lema é “A escuridão mata a democracia”, publicou um artigo sob o título: “Trump volta a desdenhar do coronavírus comparando-o com a gripe sazonal. Não é uma comparação justa.”
Em Fevereiro e Março, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) e o sr. Fauci, director do NIAID (National Institute of Allergy and Infectious Diseases) avisavam que “as máscaras não são necessárias para o público em geral”. Visto que, neste caso, Trump seguiu os conselhos oficiais ou de qualquer modo não usava máscara, a máscara depressa se tornou obrigatória na maioria dos estados, e quem a descurasse arriscava multa, interdição e opróbrio social. Andar de rosto ao léu significava concordar com Trump, e concordar com Trump equivalia a promover a morte de milhões de pessoas.
Na Primavera, e à medida que Trump pedia a reabertura da economia por razões evidentes e, por dados clínicos entretanto colectados acerca do risco pediátrico diminuto, a reabertura das escolas, os estados democratas inventavam estatísticas (por exemplo, a de que 41% dos infectados iam parar ao hospital – a realidade oscilava entre 1 a 2%), mantinham a vida fechada por reacção. E se Trump aludia ao exagero no número de mortes, o CDC diluía os critérios para incluir nas vítimas os mortos apenas “com” Covid, ou mesmo “provavelmente com” Covid.
A partir de Maio, Trump começou a garantir que haveria uma vacina para a Covid até ao final do ano. O sr. Fauci e especialistas que o ecoavam juravam que a vacina demoraria uns 18 meses. Em Agosto e Setembro, Trump sugeriu que a vacina talvez chegasse antes das eleições de Novembro. Apesar dos mortos, reais e alegados, o sr. Fauci e os especialistas riam. Em Setembro e em Outubro, a candidata vice-presidencial Kamala Harris afirmou repetidamente que jamais tomaria uma vacina aconselhada por Trump. A 3 de Novembro, Trump perdeu as eleições. A 9 de Novembro, a Pfizer e a BioNTech anunciaram uma vacina com 90% de eficácia na prevenção da Covid. Nos meses seguintes, os democratas, os “media” e a própria contracultura do entretenimento equipararam a recusa da vacina ao Mal absoluto, e os respectivos objectores ao grau de perversão do “serial killer” médio.
E pronto. Lamento (é força de expressão: não lamento) desiludir os teóricos das conspirações, mas a Covid não foi um plano internacional concertado para testar a vocação da humanidade para a submissão. É verdade que, durante dois anos, a quase totalidade do Ocidente se sujeitou a inomináveis enxovalhos somente porque a “lei”, criada há dez minutos, assim o exigia. Nada, ou praticamente nada, na estratégia para lidar com a Covid obedeceu à razoabilidade ou, conforme indivíduos possuídos por surtos de milenarismo juravam, sequer a uma sombra difusa da “ciência”. Sucede que o enxovalho, e os abusos, e o folclore místico, e o rombo económico, e a devastação mental, e o espezinhamento do direito de cada um à decência vieram por acréscimo, o tipo de escalada a que os poderes públicos e a mesquinhez do público não resistem a impor logo que a oportunidade espreita. E se a escalada transbordou, como no último século as coisas costumam transbordar, dos EUA para o resto do nosso hemisfério, no princípio de tudo, esteve, como na última década nunca tem deixado de estar, Trump.
Embora o homem não tenha propriamente culpa, eu culpo-o pelos tempos negros da Covid. Imaginem que tinha sido Trump a estimular o clima de histeria, que distorcia os números, que era um fanático das máscaras e dos “distanciamentos” e dos “confinamentos”, que promovia o despedimento dos cépticos e que lhes chamava “negacionistas”, que engendrava constrangimentos crescentemente alucinados, que imputava as alucinações à “ciência”, que protagonizava o lançamento da vacina e as campanhas de vacinação. Alguém acredita que, nessas condições, a Covid inspiraria as reacções que inspirou? Talvez os que acreditaram que proibir a venda de livros a toda a hora e de álcool após as 20.00 desanimava o vírus.
A Covid é uma infecção respiratória com uma taxa de mortalidade de cerca do dobro da da gripe “comum”. Já o circo montado a pretexto da Covid constituiu um fenómeno bastante diferente, cuja existência se deveu em boa parte às reacções face à postura de Trump, o qual, caso tivesse decretado o pânico, nos teria poupado longos meses de humilhação. A doença que de facto orientou esse período medonho é designada por Síndrome de Destrambelhamento por Trump e ainda não entrou nos livros de medicina. Mas entrou em inúmeras cabeças. E, pelo que se constata, delas não saiu.