(c) 2023 am|dev

(A) :: Sófocles, sardinhas e o elogio do cepticismo

Sófocles, sardinhas e o elogio do cepticismo

Parte da alegria de andar pelo mundo antigo e de lidar com fenómenos aparentemente remotos como a tragédia reside no quão pouco sabemos e no quão pouco alguma vez saberemos.

Paulo Ramos
text

A tragédia mostra o que é perecível, o que é frágil e o que em nós é lento. Num mundo esmagado pela velocidade implacável e pela aceleração incessante de um constante fluxo de informação que cultiva a amnésia e uma infinita sede de futuro – supostamente garantido pelo culto aos novos deuses protéticos da tecnologia – a tragédia é uma espécie de travão de emergência.

A tragédia abranda as coisas ao confrontar-nos com aquilo que não sabemos acerca de nós: uma força desconhecida que diariamente abate sobre nós os seus efeitos mais violentos. Tal é a presença, por vezes aterradora, do passado que podemos tentar negar, mas que no fim reclamará a sua vitória, nem que seja sob a forma da nossa mortalidade. Podemos pensar que nos livrámos do passado, mas o passado não se livra de nós. Por entre as súbitas reviravoltas da Fortuna e do reconhecimento furioso da verdade sobre as nossas origens, a tragédia permite-nos ficar face a face com o que não sabemos sobre nós e que, justamente por isso, é precisamente o que faz com que este eu seja aquilo que é. A tragédia agita aquilo que nos prende, as armadilhas e os obstáculos do passado em que cegamente tropeçamos no nosso implacável, embora hesitante, movimento para a frente. É aquilo que os antigos chamavam “destino”, e que, para se abater sobre nós, cinicamente exige a nossa cumplicidade.

O fruto da reflexão sobre a tragédia não é, contudo, como pensava Schopenhauer, uma sensação de desespero ou de resignação moral, mas um sentido mais profundo do eu na sua absoluta dependência dos outros. É a velha questão da exposição vulnerável do eu a laços de parentesco aparentemente familiares (embora por vezes se descubra que, tal como Édipo, não se sabe quem são os pais, e que mesmo sabendo quem eles são, jamais saberemos quem eles são).

Uma das características mais marcantes, mas enigmáticas, da tragédia grega é a sua constante negociação com o outro, sobretudo o outro-inimigo, o outro-estrangeiro, o outro-bárbaro. A peça teatral mais antiga que chegou até nós – Os Persas de Ésquilo,472 a.C. – retrata o inimigo derrotado. Não o faz, contudo, através da lente do triunfo, mas pela da compaixão, antecipando até a possível humilhação que os Atenienses poderiam sofrer caso repetissem a hybris com que os Persas invadiram a Grécia, profanando os altares dos deuses inimigos. Infelizmente, os Atenienses não aprenderam nada com a lição de Ésquilo, e o breve período de hegemonia imperial ateniense nas décadas centrais do século V a.C. terminou com a humilhante derrota nas Guerras do Peloponeso. Talvez haja aqui uma lição moral a retirar para o nosso tempo e lugar, momento em que o império sabe que o seu auge acabou e vivemos em permanente estado de guerra. A primeira regra da guerra é a compaixão pelo inimigo, algo que se pode verificar nas tragédias de Eurípides, sobretudo nas que tratam do sangrento fim da Guerra de Tróia, em peças como As Troianas e Hécuba.

Como Aristóteles afirmou de forma perspicaz e algo despreocupada, quase um século após o apogeu do drama grego na segunda metade do século V a.C., a tragédia é a μίμησις πράξεως (mimesis praxeos – a representação de uma acção). Mas aquilo que se entende por acção está muito longe de ser claro. Peça após peça dos três grandes tragediógrafos (Ésquilo, Sófocles e Eurípides), vemos personagens completamente desorientadas pela situação em que se encontram. Não sabem como agir, como actuar. Encontramos seres humanos de alguma forma compelidos a seguir um caminho de sofrimento que os leva a levantar questões para as quais não há respostas fáceis – se é que existem de todo: o que vai ser de mim? Como posso escolher o caminho certo de acção? A experiência avassaladora da tragédia é uma desorientação expressa numa pergunta confusa e frequentemente repetida: que devo eu fazer?

A tragédia não tem a ver com o cultivo metafísico da βίος θεωρητικός (bios theoretikos – a vida contemplativa), o suposto fruto da filosofia na Ética de Aristóteles, ou em Epicuro e nas outras escolas helenísticas. Também não trata do cultivo da vida dos deuses ou da vida divina, essa perene promessa da filosofia desde Platão. Não, tragédia significa pensar em acção, pensar sobre a acção, pela acção, num sítio onde a ação ocorre fora do palco e muitas vezes nos é narrada indirectamente pela figura de um mensageiro. Mas este pensamento assume a forma de um questionamento radical: como devo agir? O que devo fazer? Se a tragédia é mimesis praxeos, então é a acção que é questionada e dissecada pela tragédia. Aquilo a que a experiência da tragédia convida não é à impulsividade cega da acção, nem a um retiro para uma vida solitária de contemplação, mas à dificuldade e incerteza da acção num mundo definido pela ambiguidade, onde o certo parece estar sempre de ambos os lados. Hegel tem razão ao insistir que a tragédia é a colisão entre reivindicações opostas, mas mutuamente justificadas, sobre o que é certo. Mas se ambos os lados têm razão, então que raio devemos nós fazer?

Parte da alegria de andar pelo mundo antigo e de lidar com fenómenos aparentemente remotos como a tragédia reside no quão pouco sabemos e no quão pouco alguma vez saberemos. De entre as muitas coisas que desconhecemos sobre a tragédia antiga, a mais importante e enigmática talvez seja o facto de não fazermos ideia do que se esperava que o espectador absorvesse destes espectáculos. A palavra grega antiga para ‘espectador’ era θεωρός (theoros), da qual deriva a palavra θεωρία (teoria). A teoria está relacionada com aquela particularíssima acção de ‘ver’, θεωρεῖν (theorein), que ocorre num teatro, um theatron. Se a tragédia consiste numa imitação da acção, da práxis, embora a natureza dessa acção permaneça profundamente enigmática, então a práxis é algo visto a partir de uma perspectiva teórica. Ou talvez, melhor dizendo, a questão da teoria e da prática, ou o fosso entre a teoria e a prática, se abra primeiramente em teatro e enquanto teatro. O teatro é sempre teórico, e a teoria é um teatro, onde somos espectadores de um drama que se desenrola: o nosso. No teatro, a acção humana, a práxis humana, é posta em causa teoricamente. Ou seja, a práxis é internamente dividida ou questionada pela theoria no espaço teatral, onde o espaço vazio do palco é uma forma de questionar os espaços que habitamos e de subverter as divisões que constituem o espaço social e político.

Ora, para além de um fragmento do sofista Górgias e de As Rãs, de Aristófanes, onde se encena um debate entre Eurípides e Ésquilo sobre quem é o melhor tragediógrafo, os únicos relatos de espectadores sobre tragédias que possuímos provêm de Platão e Aristóteles, para cujas sardinhas, bem pingonas, cada um puxava a sua brasa: no caso do primeiro, fiarmo-nos no seu relato seria um pouco como basear a nossa ideia dos vikings a partir dos relatos dos monges cristãos cujos mosteiros eles saquearam; Aristóteles parece mais benevolente, mas as aparências iludem.

Apesar de importantes trabalhos históricos, filológicos e arqueológicos, não fazemos a mínima ideia de como a tragédia era vista e do que é que o público pensava dela. Não chegaram até nós quaisquer online reviews, blogs nem tweets. Não sabemos sequer ao certo quem assistia às peças. Não sabemos com segurança, por exemplo, se alguma mulher comparecia aos festivais onde as tragédias eram encenadas com assinalável abundância de personagens femininas. No entanto, longe de ser um defeito, este deficit epistémico, esta falta de conhecimento, é, creio, uma virtude. A tragédia é a vida do cepticismo, sendo este o indicador de uma certa orientação moral no mundo, uma orientação que parece emergir precisamente da desorientação de não saber o que fazer.