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(A) :: O momento zero de uma política cultural de direita

O momento zero de uma política cultural de direita

Mas há um pecado original nestas novelas, que é o verdadeiro problema do meio:  a consagração da figura do programador como topo da cadeia alimentar da vida artística portuguesa.

Francisco Camacho
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A gritaria em torno da não recondução de Rita Rato no Museu do Aljube e de Francisco Frazão no Teatro do Bairro Alto tem, à superfície, um objecto administrativo e até banal: duas direcções mudaram. Mas bastou ouvir o tom da reacção para perceber que o escândalo, para a esquerda, não está na mudança em si. Está no facto de a direita ter ousado tocar na cultura como se a cultura fosse matéria governável, sujeita à alternância democrática. Ora, é precisamente isso que uma parte muito considerável do nosso meio político e cultural se habituou a não admitir.

Comecemos pelo óbvio, que em Portugal raras vezes é dito quando o assunto é cultura. Executivos eleitos escolhem orientações, prioridades e equipas. Fazem-no em toda a parte. Também o podem fazer na cultura. Rita Rato e Francisco Frazão não foram vítimas de expurgos. Foram não reconduzidos. Pode discutir-se a oportunidade, a elegância, a forma e até a prudência política dessas decisões. O que não faz sentido é tratá-las como se constituíssem, por si só, um atentado à democracia ou à liberdade de criação. Durante décadas, a esquerda nomeou, reconduziu, distribuiu confiança e moldou a paisagem cultural sem se sentir obrigada a dar justificações. Descobrir agora uma súbita religião da intangibilidade dos cargos é apenas uma maneira mais sofisticada de dizer que só o seu poder era legítimo.

Mas há uma questão anterior a tudo isso. À esquerda, o que lhe custa não é ver sair duas pessoas que estima ou com cuja sensibilidade se identifica. O que lhe custa é ver a direita entrar num sector que considera seu por natureza. Não por o ter conquistado num combate declarado, mas por uma osmose tão antiga que já lhe parece da ordem natural das coisas. A cultura, entre nós, passou a ser um domínio onde a esquerda não sente que escolhe os seus; sente simplesmente que escolhe. E essas escolhas, por definição, são de gente sua ou do seu mundo, partilham a sua linguagem e os seus reflexos morais. Quem aparece de fora, ainda que seja do PS (como é o caso de Anabela Valente no Museu do Aljube), ainda que seja uma figura institucionalmente irrepreensível, surge como corpo estranho. Porque para a esquerda o que está em causa é a autoridade moral de quem escolhe. Coisa que, apesar de tudo, é sempre mais difícil dizer em voz alta.

É por isso que a discussão depressa fugiu das pessoas concretas e procurou refúgio no processo. O Bloco de Esquerda, sempre mais astuto, percebeu que a indignação, por si só, não bastava e procurou deslocar a discussão para a via formal dos concursos públicos. Convém pôr alguma ordem nisto. Essa solução milagrosa é desmentida pela realidade. O país colecciona concursos públicos que não resultam em transparência, não eliminam redes, não dissolvem cumplicidades, não suspendem modas nem evitam a perpetuação dos campeões do costume. Não há nenhuma razão séria para fingir que um concurso purifica o que um convite político corrompe automaticamente. Tanto em teatros nacionais como municipais, um vereador ou um ministro pode convidar alguém em quem confia politicamente, assumindo as razões e as consequências dessa escolha.

Mas há um pecado original nestas novelas, que é o verdadeiro problema do meio:  a consagração da figura do programador como topo da cadeia alimentar da vida artística portuguesa. Exige-se ao artista o papel subalterno de apresentar e justificar projectos, fazendo a sua TED Talk perante plateias de programadores entediados, enquanto os auto-intitulados directores artísticos se deixam namoriscar como debutantes num circuito de legitimação recíproca. A Direcção-Geral das Artes alimenta isto. Os teatros municipais reproduzem isto.

Há anos que parte substancial da programação pública deixou de querer formar públicos para passar a querer administrá-los. A arte aparece como pedagogia ideológica por outros meios. Puxam-se escolas para salas onde se supõe que os miúdos receberão uma iniciação cívica em forma de espectáculo. Ensina-se a desconstruir antes de ensinar a ver. Quando Duchamp expôs o seu urinol o gesto era já de esgotamento. Ao dar-se o estilhaço do estilhaço a quem nunca chegou a receber a linguagem inteira, a incompreensão, a distância e a repulsa são o único resultado possível.

O maior triunfo cultural da esquerda, em Portugal como noutros lugares, foi não a produção de obras revolucionárias de génio, mas coisa mais modesta e mais eficaz: a transformação da vida cultural na convicção de que a arte serve para ensinar qualquer coisa, e que essa qualquer coisa coincide quase sempre com suspeitas lançadas sobre a tradição, a comunidade, a forma, a religião, a herança, a diferença entre hierarquias legítimas e opressões imaginadas.

Porém, como T. S. Eliot explica em “Notas Para a Definição de Cultura”, a cultura não é uma realidade inteiramente consciente e, por isso, não pode ser verdadeiramente planificada. Há sempre mais nela do que aquilo que julgamos controlar. A função de uma tutela séria não é fabricar cultura nem programar a alma colectiva, mas criar condições para que uma vida cultural real exista, com liberdade, memória, exigência e continuidade.

A direita, se quiser ser mais do que uma força de substituição administrativa, tem de pensar a cultura com mais seriedade do que pensou até agora. Durante demasiado tempo tratou esta matéria como lateral, refugiando-se em generalidades ou em soluções meramente nominativas. Daí a facilidade com que a hegemonia da esquerda se consolidou e se apresentou depois como neutralidade. É essa demissão que agora importa corrigir.

Fará então sentido falar de uma “cultura de direita”? Em certo sentido, não. Pelo menos, não se isso significar um aparelho doutrinário simétrico. A esquerda, pela sua própria natureza progressista, tende a ver na cultura um instrumento de transformação social, moral e antropológica. Nesses termos, “cultura de esquerda” faz sentido. A direita, pelo contrário, só se honra a si própria quando resiste a essa tentação. A sua função é, justamente, subtrair a cultura a esse excesso de politização.

Uma política cultural de direita digna desse nome começa, portanto, por não querer fabricar o homem novo. Nem o homem novo progressista, nem o homem novo patriótico, nem qualquer outro boneco doutrinário. É esse o limite da versão rudimentar de política cultural que o Chega tem procurado ensaiar em Lisboa.

A cultura deve ser o lugar onde uma civilização se recorda de si, transmite as suas linguagens, educa o gosto, dá forma ao caos da experiência e oferece ao presente a espessura do que o precede. Há formas (artísticas, morais, urbanas, linguísticas) que não são cárceres, mas condições de inteligibilidade. Conservar também passa por transmitir e por admitir o que é novo sem fazer da ruptura um valor automático.

Isso implica devolver personalidade às instituições, formar públicos sem paternalismo, separar apoio público de doutrinamento ideológico, tratar a autonomia cultural como responsabilidade, não como pretexto para a reprodução automática dos mesmos circuitos. Dito de outro modo: a cultura de que a direita deve cuidar é a cultura como herança viva.

A polémica do Aljube e do Teatro do Bairro Alto mostrou, no fundo, duas insuficiências. A da esquerda, que confunde hegemonia com pluralismo e reage à alternância como se fosse uma profanação. E a de uma direita que ainda nem sempre sabe dizer o que quer da cultura. O primeiro passo está dado quando se percebe que a cultura não é de esquerda. O segundo começará no dia em que a direita deixar de querer apenas escolher nomes e começar, enfim, a definir um sentido: dizer o que quer conservar, o que quer transmitir e em nome de que ideia de bem comum o quer fazer.