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“Ele não queria ir, mas decidiu que se a equipa toda ia, ele ia com eles.” O relato é feito por Suchawadee Malikaeo, que fala sobre o marido, Chawarit Chaiwong, de 35 anos e que trabalha como marinheiro há uma década, à CNN. Foi com esta decisão tomada que Chawarit, no dia 10 de março, embarcou no cargueiro Mayuree Naree nos Emirados Árabes Unidos rumo à Índia. Mas a passagem no estreito de Ormuz viria a validar os receios de Chawarit — o navio foi atingido por um ataque iraniano e Chawarit está desaparecido desde o ataque.
A bordo da embarcação de bandeira tailandesa seguiam 23 tripulantes. Depois do ataque, um incêndio deflagrou na casa das máquinas e os três marinheiros que estavam no local, incluindo Chawarit, nunca chegaram ao ponto de encontro, na ponte do navio, e permanecem desaparecidos. Os outros 20 marinheiros foram resgatados. O momento do ataque no estreito de Ormuz foi relatado por um outro marinheiro, que se identificou ao canal norte-americano com o pseudónimo Samut.
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“Houve dois estrondos, de seguida, talvez com uns segundos de diferença”, descreveu. “Quando fomos atingidos, não tínhamos ideia de onde vinham os ataques, quem estava a disparar ou se havia um navio de guerra lá fora, por isso ninguém se atreveu a ir lá fora”, continua. Às escuras, entre o fumo negro e o barulho dos alarmes, os marinheiros encaminharam-se para a ponte. Agora a salvo, Samut denuncia a forma como o navio seguiu para o mar durante a guerra.
Depois de uma breve reunião, a empresa dona do Mayuree Naree apresentou declarações de renúncia de responsabilidade para os marinheiros assinarem. “Era basicamente: ou ficam no navio ou não”, resume. Confrontados com estas opções, todos os marinheiros assinaram as declarações, mesmo aqueles que, como Chawarit, “não queriam ir”.
Vários marinheiros que trabalham em navios na região relataram à Bloomberg sentir pressões semelhantes por parte dos empregadores, que não querem perder dinheiro por cada dia que os barcos passam atracados nos portos do Golfo Pérsico. Por toda a região, o dilema é discutido por centenas de marinheiros que não podem abdicar de um dia de remuneração, mas temem as consequências de atravessar uma “área de operações de guerra” — como foi classificado o estreito de Ormuz, o golfo Pérsico e o golfo de Omã pela Federação Internacional de Trabalhadores de Transporte.
“Se a empresa te der 500.000 [não é discriminada a moeda], ias?”, questionou um marinheiro chinês na aplicação de mensagens WeChat, numa conversa citada pela AFP. “Irmão, tinhas de estar vivo para gastar esse dinheiro”, respondeu outro. “Quem for teimoso ao ponto de fazer isto tem problemas”, declarou um terceiro marinheiro.
Os receios são justificados, já que o navio em que seguiam Samut e Chawarit não foi o único a ser atacado. “Temos visto ataques aéreos e explosões. Sentem-se barulhos altos e vibrações a toda a hora. Isto é algo como nunca vimos”, relatou um marinheiro que se identificou apenas pelo apelido, Pereira, à Bloomberg. “Mantemos as nossas malas sempre feitas e prontas. Assim que tivermos uma chance, vamos sair”, rematou.