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(A) :: Urgência regional. Após primeira semana, diretor de Obstetrícia prepara contratação de tarefeiros. 12% dos partos vieram de Vila Franca

Urgência regional. Após primeira semana, diretor de Obstetrícia prepara contratação de tarefeiros. 12% dos partos vieram de Vila Franca

Carlos Veríssimo sublinha que é necessário um reforço de médicos para continuar a assegurar escalas. FNAM alerta para falta de camas e de espaço.

Tiago Caeiro
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Poucos dias depois da abertura da primeira urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia do país, os médicos do Hospital Beatriz Ângelo (HBA), em Loures, alertam que é necessário um reforço de profissionais para fazer face ao aumento da afluência. Ao Observador, o diretor de serviço de Ginecologia/Obstetrícia, Carlos Veríssimo, reconhece que seria necessário o reforço das equipas no serviço de urgência. Também o médico João Nunes, delegado da Federação Nacional dos Médicos (FNAM) e médico no Hospital de Loures, alerta que é necessário aumentar a capacidade de resposta não só na Obstetrícia mas também noutras áreas, como a Anestesiologia, essencial para a prestação de cuidados na urgência.

Queríamos ter algum reforço na parte médica. Dava jeito“, frisa Carlos Veríssimo, acrescentando que, neste momento, as escalas da urgência regional “só são cumpridas” à custa de horas extraordinárias dos médicos do quadro. “Conseguimos cumprir a nossa escala, porque os colegas fazem horas extraordinárias”, sublinha o responsável.

https://observador.pt/2026/03/16/loures-urgencia-regional-ja-abriu-mas-conta-apenas-com-o-reforco-de-um-enfermeiro-especialista-de-vila-franca-de-xira/

A urgência regional localizada no HBA abriu portas na passada segunda-feira, passando a acolher também as mulheres e grávidas da área de influência da Unidade Local de Saúde (ULS) do Estuário do Tejo, de que faz parte o Hospital de Vila Franca de Xira. No entanto, a equipa só foi reforçada com um enfermeiro especialista em Saúde Materna e Obstétrica vindo do Hospital de Vila Franca (cuja urgência encerrou), o que, para a FNAM, é claramente insuficiente. “Será insuficiente perante o aumento da procura que estamos a ter”, sublinha o anestesiologista João Nunes, alertando também que, para além da equipa afeta diretamente à urgência (constituída por obstetras e enfermeiros), também seria necessário um reforço de anestesistas e neonatologistas.

Escalas estão completas, por agora. Serviço tenta recrutar tarefeiros

Desde 2024 que não se registavam encerramentos da urgência de Obstetrícia em Loures. Atualmente, os turnos da nova urgência regional, quando estão completos, são compostos por quatro médicos, sendo três deles especialistas e um interno, adianta o diretor de serviço de Ginecologia/Obstetrícia do HBA. Para já, está assegurada a equipa mínima de obstetras exigida pela Ordem dos Médicos (OM), garante Carlos Veríssimo, mas as dificuldades para continuar a assegurar as escalas poderão aumentar nos próximos tempos, admite o responsável, o que está a levar o serviço a preparar a contratação de médicos tarefeiros. “Estamos a tentar, para os turnos que se avizinham, um reforço com prestação de serviços”, adianta o médico, que é também presidente do Colégio de Ginecologia/Obstetrícia da OM.

"Estamos a tentar, para os turnos que se avizinham, um reforço com prestação de serviços"
Carlos Veríssimo, diretor do serviço de Ginecologia/Obstetrícia do Hospital Beatriz Ângelo

Já na segunda-feira, no primeiro dia de funcionamento da urgência, Carlos Veríssimo tinha sinalizado que o Hospital de Loures estava no limite da sua capacidade assistencial a nível dos partos. “No ano passado fizemos 2.700 partos e não temos capacidade para fazer muito mais neste momento. Daí que tudo o que possa vir de recursos humanos ajudar-nos são bem-vindos”, alertava.

A solução para reforçar o número de médicos não virá do Hospital de Vila Franca de Xira. Gravemente depauperada em várias áreas, aquela unidade hospitalar foi perdendo os médicos obstetras ao longo dos últimos anos (uma realidade agravada pelo regresso do hospital à gestão pública, em 2021) e conta atualmente com apenas um obstetra no quadro, que ficará no hospital a coordenar a restante atividade assistencial, apurou o Observador. Segundo o despacho que cria a urgência regional, no Hospital de Vila Franca de Xira mantêm-se as consultas, cirurgias programadas, exames e internamento de puérperas (isto porque cerca de metade dos partos, os programados, deverão manter-se nesta unidade). Só a urgência é deslocalizada para Loures.

Assim, e sem reforço de recursos humanos da ULS do Estuário do Tejo, ao Hospital Beatriz Ângelo só resta uma solução: a contratação de prestadores de serviços, caso não seja possível assegurar as escalas com o quadro médico existente. No entanto, na segunda-feira, a diretora clínica do HBA mostrava-se confiante de que não iria ser necessário qualquer reforço. “É mais um enfermeiro que vem aumentar a nossa equipa e, portanto, estamos preparados para receber essas utentes”, disse Ana Miranda em declarações aos jornalistas, acrescentando que esse reforço de profissionais previsto “não é insuficiente”.

12% dos partos realizados esta semana foram de grávidas do Hospital de Vila Franca de Xira

Carlos Veríssimo adianta que houve um aumento da afluência ao serviço de urgência obstétrica desde segunda-feira no HBA, mas classifica esse acréscimo como “reduzido”. Durante os primeiros dias de funcionamento da nova urgência centralizada, 17% das admissões foram de utentes da área da influência da ULS de Estuário do Tejo, bem como 12% dos partos realizados.

O Observador questionou oficialmente a ULS de Loures/Odivelas, que abarca o HBA, quanto ao número de atendimentos e partos registados durante a primeira semana de funcionamento da urgência, bem como quanto à evolução face à semana anterior, mas não obteve resposta em tempo útil. A ULS também não deu qualquer esclarecimento quanto ao tema dos recursos humanos, mesmo depois de várias insistências.

O diretor do serviço de Ginecologia/Obstetrícia salienta que têm sido “dias normais” na urgência, uma vez que, lembra, o hospital de Loures já recebia as mulheres e grávidas do hospital de Vila Franca de Xira, desde que a urgência daquele hospital deixou de dar resposta há mais de um ano. Antes da concentração de urgências — proposta pela Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente (o grupo de peritos que aconselha o Governo nesta área, liderado pelo médico Alberto Caldas Afonso) e aceite pela ministra da Saúde — o hospital de Vila Franca de Xira, que serve uma área extensa, onde vivem cerca de 250 mil pessoas, encerrava com frequência a urgência obstétrica por falta de médicos, obrigando as grávidas a deslocarem-se ao HBA, a cerca de 35 quilómetros de distância.

Agora, as mulheres e grávidas com situações urgentes e emergentes, que antes eram atendidas em Vila Franca de Xira, são agora encaminhadas para o Hospital de Loures de forma permanente, o que levanta também uma outra interrogação: terá o HBA espaço físico e capacidade de internamento suficientes para face face a um aumento da afluência e de partos? Para a FNAM, esse é um problema para o qual não foi ainda encontrada uma solução. “Não houve aumento de camas e precisamos dessas camas para as grávidas“, alerta o anestesiologista João Nunes, sublinhando não há sequer espaço físico para aumentar o número de camas.

Sobre este tema, a diretora clínica do HBA Ana Miranda explicou na segunda-feira que, se for necessário, as puérperas serão transferidas para outro hospital, de forma a criar mais vagas e o hospital conseguir receber as grávidas que “necessitam de parir no momento”.

FNAM alerta para falta de espaço e de camas para responder ao aumento da afluência. Hospital desvaloriza

O delegado sindical salienta que os médicos do HBA foram “apanhados de surpresa” com a concentração da urgência no Hospital Beatriz Ângelo. “Termos conhecimento disto através dos media causa alguma frustração, porque não fomos tidos em conta“, critica João Nunes, alertando para os riscos da criação de uma urgência regional sem reforço adequado dos recursos humanos. Num tom mais otimista, o diretor do serviço de Ginecologia/Obstetrícia garante que a equipa que lidera está “motivada” para ultrapassar os desafios que tem pela frente.

"Temos de dar resposta às grávidas a nível local, porque o trabalho de parto evolui muito rapidamente"
João Nunes, anestesiologista e delegado sindical da FNAM no Hospital Beatriz Ângelo

No entanto, tanto Carlos Veríssimo como João Nunes concordam que a carga de trabalho vai aumentar. “O que acontece é que os médicos terão mais trabalho e isso pode colocar em causa a capacidade de resposta, é a pior situação onde nos podem colocar”, lamenta o delegado sindical da FNAM, lembrando que “a tendência dos sucessivos governos tem sido aplicar mais trabalho aos médicos”, o que, alerta, causa “descontentamento, que depois leva a saídas”.

João Nunes realça também que, com o aumento da distância entre as grávidas e o hospital de referência (por exemplo, de Benavente, no Ribatejo, ao HBA são 45 minutos de viagem) sobe também o risco de ocorrerem partos em ambulâncias, um fenómeno que se avolumou exponencialmente no ano passado, com 60 partos nestes veículos. “Isto aumenta o risco de haver partos em locais não recomendados, como ambulâncias“, sublinha o anestesiologista, que defende que a solução não é concentrar urgências mas sim aumentar a atratividade do SNS de forma a captar mais profissionais.

https://observador.pt/2026/01/27/partos-em-ambulancias-mais-do-que-duplicaram-em-2025-quase-metade-tiveram-lugar-na-regiao-de-lisboa/

“As urgências de Obstetrícia sempre estiveram a funcionar, durante anos. O que aconteceu entretanto? O SNS deixou de ser atrativo. Cabe ao Governo tornar esses serviços mais atrativos”, frisa João Nunes, lembrando que se trata de uma área delicada. “Temos de dar resposta às grávidas a nível local, porque o trabalho de parto evolui muito rapidamente”.

Para além da urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia no HBA, o Governo decidiu também avançar com a concentração de urgências na Península de Setúbal. No entanto, neste caso, o processo está atrasado. Como o Observador avançou, a maioria dos médicos obstetras do Hospital do Barreiro recusam integrar as escalas da futura urgência, que ficará localizada no Garcia de Orta (em Almada), o que tem complicado o planeamento e a elaboração das escalas. A nova urgência centralizada não abrirá portas antes do mês de abril.