Em Strout, a banalidade é profunda e densa. O dia-a-dia é sublimado, depurado, atirado à cara do leitor, com elegância e delicadeza. Basta ler meia dúzia de páginas para se perceber que a autora não procura o épico. Em vez disso, procura coisa maior – a vida de coisa pouca, que é como a vida costuma ser, e que é a mais difícil de fazer bem em literatura. Mas Strout trata-a de forma exemplar, metendo o leitor em pequenos dramas, pequenas dores, pondo-o na intimidade numa casa, fazendo dele um membro de uma família afectada por uma acção ou outra. A partir do Maine, eis mil dores à portuguesa, conduzidas por uma mão exacta, que por sua vez conduz personagens, enredo e prosa, pegando em tudo o que há de subtil nas relações humanas, nas suas tensões, nas falhas e nos gestos mais aparentemente inócuos, mas carregados de sentido e consequências.
Os leitores portugueses de Strout já estarão habituados ao ambiente de Shirley Falls, no Maine, cidade fictícia que é parte do território literário da autora. O lugar, que serve para Strout inventar mundos partindo de terra a sério, não sabe a coisa inventada, antes à vulgaridade do dia-a-dia, a tantas terras por aí: uma cidade industrial em decadência, os jovens que partem em busca de melhor vida e de empregos, a chegada de habitantes novos, alguns migrantes. É neste cenário, que traz contexto contemporâneo à prosa, que a autora delineia os seus dramas familiares e sociais, e onde familiariza o leitor, que se vai sentindo mais parte do lugar, que o vai conhecendo mais a cada página, entrando em casas e cabeças diferentes.
Ora, no epicentro do romance que aqui trazemos agora, temos uma dessas famílias. Jim e Bob, os irmãos Burgess, são advogados em Nova Iorque, às bordas de uma crise de meia-idade. Na sua terra natal, são ainda lembrados por acontecimentos fatais da infância, altura em que Bob provocou um acidente: depois de ter mexido nas mudanças do carro, este deslizou colina abaixo, resultando na morte do pai. De família perfeita a família mutilada foi uma queda.
Depois disso, Jim conseguiu uma absolvição num julgamento de uma celebridade, o que também o catapultou para a fama e para uma carreira brilhante. Os dois irmãos contrastam fortemente: Jim parece o filho pródigo, admirado e bem-sucedido, enquanto Bob é o maldito, divorciado, sem filhos, a trabalhar na assistência jurídica. E existe ainda Susan, irmã deles, que nem em criança colhia grande simpatia. Abandonada pelo marido, vive com o filho Zach, adolescente a quem se deve a crise que espoleta o romance, ao fazer rolar a cabeça semi-congelada de um porco para dentro de uma mesquita durante o Ramadão. O caso vira notícia nacional, e os tios do rapaz, após pedido de Susan, voltam a Shirley Falls.

O romance desenvolve-se e mostra o que se sabe da vida: as aparências iludem. O filho pródigo não é perfeito; os casamentos aparentemente estáveis têm falhas; as relações entre irmãos oscilam entre afeto e desprezo; a subida na vida implica arrogância; a malícia faz parte do quotidiano. Strout atira a complexidade humana à cara do leitor, mostrando vidas maculadas por cicatrizes, erros e segredos, e que os efeitos das escolhas se prolongam no tempo, moldando vidas e relações. E fá-lo partindo das próprias ilusões das personagens: Jim considera-se brilhante, Bob vê-se como o falhado, o sempiterno culpado sem remédio e Susan parece achar ter amarras que a prendam àquele chão. Ora, como quem tacteia enquanto escreve, a autora vai desfiando a vida, de forma a que o próprio leitor a contraponha às perspectivas dos três irmãos.
Assim, Strout é neste livro o que foi sempre: uma autora ampla que analisa as relações entre humanos, expondo-as, sem tiques maniqueístas, sem assumir lados. Em vez disso, mostra a vida, mergulhando na psique das personagens e evidenciando os efeitos dos destaques – uma mentira aqui, uma consequência ali; um passo falhado aqui, uma catástrofe ali; um desvio aqui, um afastamento ali.
Zach age, entre outras coisas, imbuído da sua adolescência, e por isso se surpreende com a reacção e as consequências. O livro acompanha a forma como este acto reverbera através da família, mostrando o impacto das decisões, das acções impulsivas e da negligência, bem como a dificuldade de lidar com a culpa e a responsabilidade. E, nisto, casa magistralmente duas coisas: há a evidente polémica nacional, as consequências macro; e há o lado mais pessoal, esse que garante a empatia do leitor, que vai beber às consequências dentro de uma casa, de uma família. Assim, vê-se o mesmo fenómeno partindo de dentro e de fora em simultâneo, sob múltiplas lentes. O gesto de atirar uma cabeça de porco para uma mesquita poderia parecer, à primeira vista, apenas ofensivo, até desajeitado, mas Strout usa-o para mostrar a dimensão política que atravessa a vida contemporânea americana, que integra a convivência tensa entre comunidades, o medo do outro e a inegável fragilidade da convivência civil. Mas Zach, e ainda bem, nunca funciona como símbolo ou uma tese. Zach é um rapaz, e os rapazes são, volta e meia, ressentidos e carentes. É neste território impreciso que Strout trabalha, sem nunca delinear nada ou ninguém a preto e branco. Aliás, já noutros livros a autora usou acontecimentos aparentemente localizados para mostrar fissuras mais profundadas das comunidades retratadas. Olive Kitteridge, por exemplo, ajuda a construir uma espécie de mosaico humano em torno de uma figura central, abrindo portas para outras vidas, estas tratadas por via dos seus dramas silenciosos. Enfim, abrindo portas para vidas com vida dentro. A composição entre os dois romances, contudo, diverge: Olive Kitteridge tem o seu quê de romance fragmentado em histórias interligadas e Os Irmãos Burgess tem uma narrativa mais linear, seguindo as reverberações de um acontecimento descrito.
Os Irmãos Burgess é, por tudo isto, um grande romance: a culpa de um rapaz, o momento em que o irmão, a posteriori, compreende porque é que o pai morreu, as traições, as esperanças, o amor em tempos de nada, a adolescência em força bruta, a raiva só porque sim. E Strout é uma autora cirúrgica: em vez de pena, um bisturi. Ei-la, assim, como quem ilumina o caminho, dando corpo ao que parece invisível, transformando pequenos nadas em acontecimentos monumentais, usando detalhes como catapultas de tensão, de consequências. Como se não bastasse, a prosa é limpa, ampla, convidativa – um leitor que cai na primeira página terá de aterrar na última.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.