Com o subtítulo “Relato Autobiográfico”, a dois dias edições acaba de publicar A Analfabeta, da escritora húngara Agota Kristof (1935-2011), texto relevante, não só pelo testemunho histórico que encerra, como por constituir uma espécie de tratado sobre a escrita e a leitura, fora de pretensões essencialistas, tomando ambas as atividades como formas de resistência marcadas por determinados aspetos, com os quais todos nos cruzámos a dado momento da nossa história privada de leitura.
Vinga uma sede por causas, respira-se no ar a avidez por uma rebelião. Como se os motivos não estivessem já dados. Como se não estivesse já tudo à beira de um colapso mascarado por uma progressiva regulamentação da vida e dos costumes. A literatura deve ser uma poderosa aliada dessa vontade de transgredir para revelar a norma na sua natureza arbitrária, facilmente apoderada pelos mesmos, essa ínfima percentagem de gente que concentra, por outro lado, tantos por cento da riqueza do mundo. Há, todavia, um engano que pode ser fatal: o de achar-se a beleza, ou algo próximo do que em tempos se declarou como a arte pela arte, inútil, aliás, insolente, quando é justamente aí que reside a grande contrariedade e a grande ofensiva ao poder instituído. Querem falar de amores? Falem. A verdade é que é sempre do nosso umbigo que falamos, a partir daí. Uns chegam mais longe que outros, é certo, mas são esses que mais se aproximam do seu centro, seja lá o que isso for.
Não se desprezem umbigos, nem sexos, nem romances privados. O que Kristof nos mostra, com uma simplicidade comovedora, é que não se escrevem senão relatos autobiográficos. Como não se escreve senão um único, imenso e irredutível segredo. Abre-se a porta de uma casa própria. A primeira? A língua. Querem, pois, falar do ciúme, da traição, da inveja? Falem alto, escrevam, afixem em muros e rascunhem na borda de cardápios, mesmo no restaurante mais insuspeito da cidade mais recôndita, do país que — bendito seria! — ainda não foi descoberto. Lembro-me do meu bisavô Henrique, nascido em Messejana, uma terra no interior alentejano, e de um gesto com o qual procurei rimar um par de vezes, por escritos que fui rabiscando. Não encontrei nunca uma resposta à altura, é possível que nada supere a imagem de uma mão escrevendo no escuro. Conto-vos: trabalhador numa obra, na sua terra-mãe, pegou num lápis e escreveu num tijolo que ficaria no espaço surdo, mas vigilante, do interior de uma parede: O socialismo vencerá. Contou-o ao meu pai, que mo contou a mim. Escreveu para ninguém, ou escreveu para ele, inscreveu um segredo, ainda assim, forçosamente pela possibilidade de uma fuga, isto é, de uma partilha: da frase e do socialismo. A língua e o socialismo à solta, depois de uma vontade reprimida, a cobrança, diria Chico Buarque, de “todo esse amor reprimido, esse grito contido, este samba no escuro”.
Num gesto análogo a esse fundador da minha ligação, mais poética do que narrativa, com o avô Henrique, que me segurou nos braços mas não conheci, figura essencial na vida do meu pai, que me segura nos braços até os dias de hoje, a escritora húngara Agota Kristof escreveu silenciosamente, por oposição ao estrondo das bombas em plena II Grande Guerra. Escreveu sobre o que a fazia chorar, sobre a separação, nos anos de internato, a começar aos 14 anos, numa instituição estatal, onde se tomavam duches frios e a comida era tão má que os miúdos andavam, a maior parte do tempo, com fome: “durante estas horas de silêncio forçado [nas salas de estudo onde é exigido silêncio absoluto], começo a redigir uma espécie de diário, onde inventei uma escrita secreta para que ninguém o consiga ler. Escrevo nele os meus infortúnios, as minhas aflições, a minha tristeza, tudo o que me faz chorar silenciosamente na minha cama, à noite.” (18) A escrita surge, pois, enquanto conservação viva — não é um paradoxo — de um segredo, por oposição à exposição que a circunstância repressiva de um país ocupado pelas tropas russas promovia: os livros permitidos são os de leitura obrigatória, no âmbito programático do doutrinamento ideológico da população, a correspondência que chega aos alunos é acedida pela direção da escola, sob desculpa de não serem ainda os destinatários maiores de idade, o dia da morte de Estaline arregimenta uma tristeza coletiva obrigatória, onde o riso é punível pela lei, e esta revelada, por Kristof, sob a luz da sua mais insana arbitrariedade.

A ocupação da Hungria, primeiro pela Áustria depois pela Rússia, é paralela à invenção, por um lado, de uma língua secreta e da abertura do mundo privado, mas partilhável, da escrita, e por outro lado, força silenciamentos, gera cortes, obriga à ficcionalização do íntimo, para manter a máscara pública de uma suposta familiaridade e um suposto afeto até ao delirante: ao líder, ao império, a uma língua, afinal, estrangeira, primeiro o russo, depois o francês da Suíça para onde Agota irá fugir. Agota menina encontra-se com a mãe, que já só vive com Tila, o irmão mais novo, estando a filha e Yano em internatos. Conta: “Não temos mais nada a dizer uma à outra. Gostaria de lhe dizer que mandei consertar os meus sapatos, que o sapateiro terá avançado com o dinheiro do arranjo, dívida essa que terei de liquidar o quanto antes, contudo, vendo o vestido velho e surrado da minha mãe, e as suas luvas manchadas de veneno, não posso dizer nada sobre tudo isto. Dou-lhe um beijo, vou-me embora, e não volto nunca mais.” (25)
Percebemos que um série de objetos se interpõem entre mãe e filha: o vestido manchado e gasto, as luvas, os sinais de uma pobreza de uma força impressiva tal que não tem cabimento a designação do conformismo. Só a dignidade dos que se sustentam numa encruzilhada. O afastamento sentencial é dado pela presença ínfima, mas determinante, desses dois objetos, e esse desfasamento de escalas — entre a pontualidade de dois objetos simbólicos e operantes e o afastamento entre uma mãe e uma filha — é gerador de uma pena que não reserva ânimo nem mesmo para uma postura indignada. O texto traz precisamente a melancolia dos relatos sobre o que já passou, aquilo que, de uma forma ou de outra, encontrou a organização possível para o horror, aquilo que vingou, não obstante o sofrimento. A linguagem enxuta do livro não advém, com efeito, da indiferença ou da resignação, mas sim da distância dada pela condição de sobrevivência.
A língua é o primeiro sinal de pertença, ou pelo menos aquele que permite uma pertença fora do meio familiar, a superação da estrutura genealógica, a possibilidade do encontro fora de estruturas de sangue, a inauguração dos afetos deve, pois, muito à língua, cada qual com o seu tom próprio, esse verdadeiramente intraduzível. Ligada aos objetos e a uma arquitetura das coisas, forçar o esquecimento de uma língua, pela imposição de outra a aprender, é forçar um corte com a própria origem, obrigando a uma reestruturação do mundo: “No início, havia apenas uma língua. Os objetos, as coisas, os sentimentos, as cores, os sonhos, as cartas, os livros, os jornais, estavam nessa língua.” E, na cabeça de uma criança húngara, é claro que todas as línguas que não a sua, são línguas inventadas, muito embora uma tal diferenciação não gere um sentimento odioso de exclusão, antes sim de identificação: “Diziam que os ciganos, instalados nas imediações da povoação, falavam outra língua. Eu pensava que aquela não era uma língua verdadeira, mas sim uma língua inventada que eles falavam entre si, exatamente como eu e o meu irmão Yano fazíamos, quando falávamos de uma maneira que o nosso irmão mais novo, Tila, não conseguisse entender.” (29).
A história da Hungria no século XX pauta-se pela ocupação austríaca e russa, circunstância que determinou a edificação de línguas inimigas, por oposição a uma língua materna — distinção de que Kristof se serve para um capítulo justamente intitulado “Língua Materna e Línguas Inimigas”, sendo imperiosa a oposição do singular da materna e do plural das inimigas, como ferida aberta representativa do sofrimento incalculável de um povo: “O que nunca será possível quantificar é o papel nefasto que exerceu a ditadura na filosofia, na arte e na literatura dos países do Leste. Impondo-lhes a sua ideologia, a União Soviética não só impediu o desenvolvimento económico destes países, como, inclusive, também tentou sufocar as suas culturas e identidades nacionais” (35). Essa impossibilidade de medir o sofrimento é positivamente enquadrada na experiência inventiva da língua, enquanto modo de activar a estranheza como forma de ligação expressiva e de construção de universos alternativos, à margem da lei, à margem da língua que é, também ela, materna ou não, um meio de legislar, de decidir da segregação ou agregação da população.
A resistência pela língua pode concretizar-se pela invenção de uma língua secreta, alternativa, mas também pela recusa a apre(e)nder a língua do invasor: “Ninguém conhece a língua russa. Os professores que ensinam línguas estrangeiras — alemão, francês, inglês — frequentam cursos intensivos de russo durante alguns meses. Porém, não podemos dizer que aprenderam realmente esta língua, e não têm qualquer vontade de ensiná-la. De qualquer forma, os alunos não têm igualmente qualquer vontade de aprendê-la. Assistimos aqui a uma sabotagem intelectual nacional, a uma resistência passiva natural, não concertada, embora muito evidente.”
De algum modo também esta resistência é secreta, não obstante incontestável, geradora de efeitos práticos. Língua secreta ou língua de silêncio, a língua é resistência, é concerto e meio de contestação, sendo igualmente um sustento da perda, não a remetendo para o buraco negro do irreversível, mas erguendo-a enquanto matéria-prima para outras histórias, nomeadamente para a narrativa da própria história. Quando Agota se questiona do que teria sido a sua vida se não tivesse escapado para a Suíça, com o marido e a filha bebé, exílio de perdas em catadupa, conclui tão-simplesmente: “Do que estou inteiramente segura, é que teria escrito, em qualquer lugar, em qualquer língua” (47). Não se trata da expressão de uma indiferenciação, mas a fidelidade ao mistério, ao que se precisa dizer, assumindo o risco de um desvio, da iluminação de cantos estranhos a nós — importa lembrar — e não à casa.
Se é quase um pecado apoderarmo-nos da imagem da situação real do exílio, da perda e da opressão para as converter em metáforas, o certo é que muito do que Agota Kristof nos conta neste pequeno — mas poderoso — livro é tão fundamental que permite a identificação a partir do lugar singelo do leitor; o que talvez faça da leitura um modo de compreender a errância que caracteriza a vida, e a ficção que invariavelmente significa a origem que prontamente tomamos como própria. Saibamos colher pois a lição para sermos leitores-escreventes, para sabermos contar a nossa história: “Em primeiro lugar, é preciso escrever, é claro. Depois, é preciso continuar a escrever. Inclusive quando ninguém está interessado. Inclusive quando temos a impressão de que nunca interessará a ninguém. Inclusive quando os manuscritos se acumulam nas gavetas, e esquecemo-nos deles, para escrever outros.” (53).
Bem acolhendo o desafio da analfabeta, sabemos agora que se escreve contra nós, por meio de um beijo dado à língua e de um corpo espreguiçado para o lado de fora. A razão entre céu e parapeito é móvel: confie-se no exílio, aceite-se que somos um a caminho de sermos tantos quanto não pudermos contar.