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A guerra por dentro. Filho do Presidente do Irão expõe bastidores do poder em Teerão com publicação de diário online

Yousef Pezeshkian revelou numa rede social que "figuras políticas" iranianas "estão a entrar em pânico". E que, caso o Irão não consiga parar assassinatos seletivos de Israel, "perderemos a guerra".

Mariana Furtado
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Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a guerra no Médio Oriente

Enquanto os dias de guerra se sucedem e a liderança iraniana está mergulhada na clandestinidade, recolhida em esconderijos secretos, parte do que acontece nos bastidores vai sendo registado de forma inesperada. Não em declarações oficiais, mas nas entradas de um diário de alguém destacado no regime iraniano: Yousef Pezeshkian, filho do Presidente do Irão (Masoud Pezeshkian).

Yousef Pezeshkian publica quase diariamente, no Telegram, segundo o The New York Times. O doutorado em física e professor universitário tem partilhado reflexões que oscilam entre notas pessoais e considerações políticas, criando um retrato raro de um país em convulsão visto a partir de dentro.

“Acho que algumas figuras políticas estão a entrar em pânico”, escreveu no sexto dia da guerra. Segundo três altos funcionários iranianos, que falaram sob anonimato ao jornal nova-iorquino, a capacidade de Israel de localizar dirigentes em locais ocultos criou um clima de pressão constante dentro do regime.

A incerteza é dupla: quem será o próximo alvo e como absorver perdas sucessivas no topo da hierarquia. Essa é uma das principais preocupações vertidas no diário e a prioridade número um do Governo. Travar os assassinatos seletivos, afirma, “é agora uma questão de honra”. Depois do assassinato de figuras como Ali Larijani e Esmaeil Khatib, Yousef admite que, caso Teerão não consiga conter esta tendência, “perderemos a guerra”.

O medo de uma armadilha de Israel

A morte de Larijani, o ex-secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão, surge descrita como um momento particularmente significativo. “Não queria acreditar”, escreveu o filho do Presidente, ao saber da notícia. “Não deveríamos ter permitido que o inimigo conseguisse mais um assassinato bem-sucedido.”

https://observador.pt/2026/03/19/lider-supremo-do-irao-promete-vingar-morte-de-larijani-assassinos-criminosos-terao-de-pagar-cada-gota-de-sangue-derramado/

Numa das entradas, o próprio descreve um momento de ansiedade pelo qual passou. Após ter recebido uma mensagem com um endereço, que o instruía a comparecer ao local combinado, Yousef diz ter receado uma armadilha montada por Telavive e reagido com receio. Só mais tarde, ao confirmar a situação com a sua equipa de segurança, percebeu que se tratava de um simples convite de amigos para quebrar o jejum do Ramadão.

Ao longo das publicações, o autor alterna entre registos pessoais e posicionamentos políticos. Quando se ocupa de escrever sobre o pai, as duas dimensões misturam-se, respondendo às críticas feitas por setores mais conservadores.

“A maior e a mais séria divergência que temos é: por quanto tempo devemos lutar?”

Entre esses episódios, sobressai a reação que o seu pai (Presidente Masoud Pezeshkian) teve a 7 de março, ao endereçar um pedido de desculpas a vários países árabes, após ataques iranianos. A declaração, que incluía a promessa de suspensão das operações, gerou contestação entre setores conservadores e militares e foi revertida poucas horas depois.

No diário, o filho sustenta a posição do pai: “Pedir desculpas aos vizinhos é um dever ético, não legal”, acrescentando que as populações do Golfo não são responsáveis pelo conflito. “É muito triste que, para nos defendermos, tenhamos de atacar bases americanas em países amigos”, escreveu.

https://observador.pt/2026/03/19/oma-revela-que-eua-e-irao-estiveram-a-beira-de-um-acordo-nuclear-e-defende-que-guerra-foi-maior-erro-de-calculo-da-administracao-trump/

Noutra das passagens mais reveladoras sobre o interior do sistema, Pezeshkian relatou ter participado numa reunião com autoridades governamentais na primeira semana da guerra, na qual ficaram vincadas divergências sobre a estratégia a seguir. “A maior e a mais séria divergência que temos é: por quanto tempo devemos lutar?”, escreveu. “Para sempre? Até que Israel seja destruído e os Estados Unidos se retirem? Até que o Irão esteja em ruínas e nos rendamos? Precisamos de estudar os diferentes cenários.”

Por vezes, Yousef também partilha algumas anedotas, com leituras políticas do xadrez internacional. “Penso comigo mesmo: “Quem me dera ter aprendido espanhol em vez de inglês”.

https://twitter.com/ypezeshkianint/status/2032027027444727912

Yousef escreve também sobre os tempos passados em família, a pintar figuras de livros de colorir com os filhos, e as idas a parques infantis. Escreve sobre encontrar um amigo para uma longa caminhada no parque e sobre a sua determinação em manter uma rotina de exercício físico que o ajuda a não perder a resistência mental.

Por vezes, sendo este um diário online, as suas reflexões não ficam encerradas em páginas somente ao seu alcance. Yousef conta que recebe mensagens sobre a guerra não apenas de amigos e conhecidos, mas também de estranhos. “Recebo ocasionalmente mensagens como: ‘Rendam-se e devolvam o Governo ao povo’. Se essas mensagens não vêm de agentes e mercenários israelitas, são produto da ignorância e da ilusão”.

Numa das noites, desde o início da guerra, Pezeshkian, refletindo sobre o que o futuro reservava para o seu país, explica que recorreu ao Alcorão (o livro sagrado para os muçulmanos). “A minha impressão é que a calamidade que agora enfrentamos é resultado de nosso próprio comportamento. Talvez as lágrimas sejam nossa redenção e nosso pedido de perdão.”

Esta semana, numa das entradas mais recentes, Yousef conta uma visita à avó, que desconhecia completamente os acontecimentos no país. “Após 19 dias de guerra, finalmente desabei e chorei várias vezes”, escreveu. “Fui visitar a minha avó. Durante a primeira semana da guerra, nem sequer lhe tinham dito que o líder tinha sido martirizado. Ela estava completamente alheia a tudo. Perguntava-me por que estavam a mostrar a foto do líder por todo o lado… Mais tarde, compreendeu e lamentou por todos os mártires. Quando me viu, chorou e eu consolei-a e sorri. Disse-lhe que tudo era normal. Que nada tinha acontecido. Que era a guerra. Eles matam, nós também matamos…