O que é a perturbação de jogo? 11 perguntas sobre mentiras, conflitos, dívidas e sofrimento psicológico
Jogar para aliviar emoções negativas é um comportamento aditivo que provoca ansiedade, desgaste, depressão… e dívidas. A facilidade do jogo online veio acentuar ainda mais este problema.
1 O que é o "jogo patológico"?
Esta é, atualmente, uma designação fora de uso. “Jogo patológico” é usado popularmente, mas cientificamente ultrapassado. O termo correto, segundo os principais manuais de diagnóstico internacionais, é perturbação de jogo (da tradução do inglês “gambling disorder”).
Perturbação de jogo a dinheiro é reconhecida, há séculos, como um comportamento com potencial destrutivo. Segundo João Reis, médico psiquiatra da Unidade Local de Saúde de São José – Polo Júlio de Matos, em Lisboa, a terminologia “foi reclassificada como uma perturbação aditiva, passando a integrar o mesmo grupo das dependências de substâncias (como álcool ou drogas ilícitas), dada a semelhança nos mecanismos psicológicos e neurobiológicos envolvidos”.
A palavra jogo, em português, pode, aliás, gerar ambiguidade, uma vez que não distingue claramente o jogo a dinheiro de atividades lúdicas (como videojogos), cujo objetivo é entretenimento e não ganho financeiro, embora estas também sejam alvo de atenção por parte de profissionais de saúde mental.
2 É uma doença mental?
Sim e não. Jogar a dinheiro pode ser um comportamento socialmente aceite e, em muitos casos, não constitui doença. Passa a ser considerado uma perturbação mental quando o padrão de jogo provoca sofrimento significativo ou prejuízo relevante no funcionamento pessoal, familiar, social, académico ou profissional.
Ou seja, quando há perda de controlo e consequências negativas persistentes.
3 Quais são os sintomas?
Para o diagnóstico, o comportamento deve ser persistente e recorrente, não basta um episódio isolado de gasto excessivo.
Entre os principais critérios, estão estes exemplos:
- Necessidade de apostar quantias crescentes para obter a mesma excitação — a pessoa sente maior excitação psicológica quando aumenta o valor apostado e começa a arriscar cada vez mais;
- Irritabilidade ou agitação quando tenta reduzir ou parar de jogar – este critério diz respeito ao que se chama modulação afetiva e revela uma frustração marcada quando o indivíduo, em luta interior ou pressionado por terceiros, reduz a frequência de jogo;
- Tentativas repetidas e falhadas de controlar ou abandonar o jogo – a pessoa cria regras internas para tentar limitar o problema e falha sucessivamente;
- Preocupação constante com o jogo, como recordar apostas passadas, planear futuras ou pensar em formas de obter dinheiro;
- Jogar para aliviar emoções negativas, como tristeza, ansiedade ou frustração;
- “Correr atrás das perdas”, ou seja, jogar para tentar recuperar o dinheiro perdido;
- Mentir para esconder o envolvimento no jogo – quando é confrontado, esconde ou diminui a amplitude do problema como forma de “proteger” essa atividade e continuar a jogar;
- Comprometer relações, emprego ou estudos devido ao jogo – a atividade torna-se de tal modo prioritária na vida da pessoa que áreas importantes, como relações afetivas e emprego são negligenciadas e colocadas em segundo plano;
- Contrair dívidas ou depender financeiramente de terceiros para lidar com as consequências das perdas.
4 E há sinais de alerta evidentes?
São vários. Aumento da frequência ou do valor das apostas. Mudanças de comportamento desde que se começou a jogar (como tentar manter em segredo, negligência de responsabilidades pessoais ou profissionais ou endividamento inexplicável).
“Em termos de saúde mental, o desenvolvimento de ideação suicida é um sinal de alarme grave e pode constituir uma emergência médica”, diz o médico psiquiatra, também responsável pela consulta de dependências comportamentais do serviço de alcoologia e novas dependências no Polo Júlio de Matos da Unidade Local de Saúde de São José, em Lisboa.
5 E as causas, são conhecidas?
Há várias causas e resultam de vários fatores. Fatores biológicos, ou seja, predisposição genética ou vulnerabilidade individual. Psicológicos, como impulsividade, baixa tolerância à frustração, estados de humor deprimido (tristeza), ansiedade, baixa autoestima ou tédio. E ainda fatores sociais e ambientais, como exposição precoce ao jogo, fácil acessibilidade, influência das pessoas em redor e marketing que apresenta o jogo como oportunidade de enriquecimento.
6 Os antecedentes na família podem levar a esta perturbação?
Antecedentes familiares de dependências são um fator de risco. Há estudos com gémeos que sugerem a existência de uma componente hereditária, aumentando a probabilidade relativamente à população geral.
Mas a predisposição não significa inevitabilidade. “Trata-se de uma vulnerabilidade que pode ou não manifestar-se, dependendo da exposição e de outros fatores ambientais”, diz o psiquiatra, acrescentando que este dado “reforça a importância da psicoeducação e das políticas de saúde pública, nomeadamente na regulação da publicidade e no controlo da acessibilidade”.
7 Afeta mai sos homens, certo?
O perfil mais frequente é o de um homem com início precoce de jogo (adolescência ou início da idade adulta). No entanto, a prevalência nas mulheres tem vindo a aumentar. Não existe associação clara com classe social ou nível académico.
8 Quais os impactos na saúde mental?
Há vários, são significativos e manifestam-se a diversos níveis.
- Individuais: depressão, ansiedade, desgaste psicológico, sentimentos de culpa e desesperança;
- Relacionais: mentiras, conflitos, perda de confiança e ruturas;
- Profissionais: desinvestimento, estagnação ou perda de emprego;
- Sociais: isolamento progressivo;
- Financeiros: dívidas, perda de poupanças e recuperação económica demorada.
9 Envolve sempre dinheiro?
Nesta perturbação, existe sempre aposta de dinheiro com o objetivo de obter ganho financeiro. “O prazer é mais característico das fases iniciais”, diz João Reis. Em fases mais avançadas, predominam sentimentos de perda de controlo, culpa e aprisionamento ao comportamento, sendo comum a tal “corrida atrás das perdas”.
10 O jogo online funciona da mesma maneira e tem os mesmos efeitos?
Os mecanismos psicológicos são essencialmente os mesmos. Estudos realizdos no nosso país, feitos pelo psicólogo Pedro Hubert, referência no tratamento nesta área, mostraram que quando se desenvolve o problema de jogo a dinheiro, ocorre muitas vezes a transição para o jogo online.
“A principal diferença é a acessibilidade imediata (telemóvel ou computador), o que pode aumentar a frequência e a intensidade do comportamento. A facilidade de acesso constitui um fator de risco adicional”, diz João Reis.
Há dados que indicam que mais de metade da população portuguesa tem ou já teve algum contacto com jogo e que o jogo online é cada vez mais frequente, até porque agora trabalha-se e comunica-se mais através do mundo digital. Mas há questões que se levantam. “A maioria joga jogos considerados menos problemáticos como o Euromilhões e lotarias, pensando-se que não há aceleração dos gastos porque se tem de esperar dias pelo resultado e isso, terá de alguma forma, um efeito contentor.”
Do outro lado do espectro, há os jogos como as raspadinhas com resultado imediato. E há ainda as apostas desportivas online, de fácil acesso, que, aumentando o risco de dependência, são um problema cada vez mais sério.
“A questão do online funciona também como um acelerador porque permite que o acesso seja remoto e não temos de ir a um casino ou tabacaria para poder jogar.”
11 Há tratamento?
Sim, há tratamento eficaz, sobretudo quando há motivação genuína para a mudança. A base é a psicoterapia, sendo recomendada avaliação médica para despiste de depressão ou perturbações de ansiedade associadas.
Outras medidas frequentemente úteis incluem participação em grupos terapêuticos, supervisão das finanças por pessoa de confiança, recurso ao mecanismo de autoexclusão disponível em Portugal, através do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos.
Há várias unidades públicas de saúde (como a da Unidade Local de Saúde de São José, em Lisboa) que acompanham este tipo de patologias, com consultas dedicada a esta área. O Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências tem também respostas para estas situações.