Chuck Norris, conhecido ator norte-americano e eterno “Texas Ranger”, morreu esta quinta-feira, aos 86 anos, avança o Hollywood Reporter, citando uma declaração da família divulgada esta sexta-feira.
O ator tinha sido hospitalizado no Havai esta quinta-feira após uma emergência médica. Numa publicação nas redes sociais oficiais do ator, a família fala numa “morte repentina”, sem divulgar a causa. “Embora prefiramos manter as circunstâncias em sigilo, saibam que ele estava rodeado pela família e partiu em paz”, pode ler-se.
“Para o mundo, era um praticante de artes marciais, ator e um símbolo de força. Para nós, era um marido dedicado, um pai e avô amoroso, um irmão incrível e o coração da nossa família”, continua o texto.

A publicação surge dias depois de Norris ter comemorado o aniversário com um vídeo em que aparecia a praticar boxe.
Chuck Norris tornou-se uma figura marcante do entretenimento graças à sua presença imponente e ao seu estilo único nas artes marciais. Ficou amplamente conhecido por interpretar o ranger Cordell Walker na série televisiva Walker, Texas Ranger, ao longo de nove temporadas. Na pele de um ex-fuzileiro naval com um forte sentido de justiça, deu vida a um personagem que combinava ação intensa, como os famosos pontapés giratórios, com valores morais tradicionais, tornando a série um clássico do pequeno ecrã.
A sua carreira no cinema começou em 1968, mas ganhou verdadeiro destaque após contracenar com Bruce Lee no filme A Fúria do Dragão (1972). Esse encontro foi decisivo para a sua ascensão como estrela de ação, especialmente durante os anos 1980, quando protagonizou vários filmes sucessos. Entre os seus trabalhos mais conhecidos destacam-se Desaparecido em Combate (1984) e Força Delta (1986), consolidando a sua imagem como um dos grandes nomes do cinema de ação.
No livro de auto-ajuda e desenvolvimento pessoal que escreveu em 1988, “The Secret of Inner Strenght: My Story” (O Segredo da Força Interior: A Minha História), Norris afirmou que “muitas pessoas querem e precisam de alguém com quem se identificar, de um homem que é autossuficiente, que tem os pés assentes na terra, e sem dificuldade de enfrentar adversidades”. No ecrã e fora dele, o ator representou esse modelo de masculinidade, viril e patriótico, com punhos de ferro e golpes furtivos que desarmavam os bullies e os inimigos da América. Mas nem sempre foi a lenda das artes marciais pela qual ficou célebre.
Da infância “extremamente difícil” à fama
Nascido a 10 de março de 1940, Carlos Ray Norris (o “Chuck” só surgiria mais tarde), nasceu no estado de Oklahoma, filho de uma mãe dona de casa e de um veterano da Segunda Guerra Mundial que descreveu como sendo alcoólico. Depois do divórcio dos pais, mudou-se com a mãe e os irmãos para o Kansas e depois para a Califórnia, onde cresceu rodeado de dificuldades financeiras e marcado por grandes inseguranças: em entrevistas posteriores, relatou sentir-se introvertido, pouco atlético e academicamente fracassado durante a infância e juventude.
“A maioria das pessoas vê alguém com sucesso e diz, ‘Ele teve sorte. Era uma estrela do karaté. E depois fez filmes’. Mas foi extremamente difícil”, disse Norris ao The Los Angeles Times em setembro de 1988.
Após atingir a maioridade, juntou-se à força aérea americana, tendo sido destacado para a Coreia do Sul — onde se apropriou da alcunha “Chuck” e começou a estudar Tang Sang Do, uma arte marcial originária daquela região. Quando regressou aos EUA, participou em competições de artes marciais, tendo vencido uma série de campeonatos relevantes. Ao longo da vida, acumulou vários cinturões negros, de karaté, taekwondo, judo e jiu-jitsu brasileiro.

Norris também ganhou reputação de instrutor de karaté entre as estrelas de Hollywood. No contexto das competições de artes marciais, conheceu Bruce Lee, à época famoso pela participação na série da ABC The Green Hornet. O ator de Hong Kong convidou Norris para o seu primeiro papel relevante no grande ecrã, como seu opositor em A Fúria do Dragão. O clímax do filme de kung-fu corresponde a um confronto épico no Coliseu de Roma — que o protagonista, interpretado por Lee, evidentemente vence.
Incontestável mestre das artes marciais, nem sempre foi elogiado pela sua performance dramática. Na crítica do filme O Regresso do Justiceiro da Noite (Breaker! Breaker!, no original), de 1977, o The New York Times considerou Norris “tão emocional como uma estátua”. Noutra ocasião, a revista Time descreveu o ator como “um vazio expressivo”. Os filmes nunca deixaram, contudo, de ter um sucesso estrondoso.
No vasto repertório de filmes, contam-se várias frases icónicas, como, “Eu não lutei, eu dei um seminário motivacional” depois de despachar um grupo de rúfias em Força Delta II (1990) ou “Se eu quiser a tua opinião, vou tirá-la à chapada”, em O Código do Silêncio (1985).
Afastado dos grandes ecrãs
Em 2017, o ator revelou numa entrevista à revista Good Health a decisão de pausar a carreira, a fim de cuidar da mulher, a ex-modelo Gena O’Kelley, vítima de um envenenamento por gadolínio — substância de contraste frequentemente injetada nos pacientes submetidos a exames de ressonância magnética. “Toda a minha vida neste momento está concentrada em mantê-la viva”, afirmou então Norris.

O’Kelley foi sujeita a um tratamento para remover a substância do corpo, extremamente debilitado, e a família avançou com um processo à empresa Bracco Imaging, responsabilizando-a pelo envenenamento. Com a saúde melhorada, em 2020, acabou por desistir do caso, no mesmo ano em que Norris fez uma participação especial no último episódio da série Hawaii 5.0.
Norris e O’Kelley deram o nó em 1988 e tiveram dois filhos gémeos: Dakota Alan Norris e Danilee Kelly Norris, nascidos a 20 de agosto de 2001. O ator já antes estivera casado com Dianne Holachek, namorada dos tempos da escola com quem também teve dois filhos. A TMZ avançou a morte de Holachek no passado dia 21 de dezembro, que o ex-marido lamentou em declarações à Fox News. “A Dianne era uma pessoa incrível”, afirmou. “Nunca vou esquecer a sua presença na minha vida. Foi uma mãe amorosa e devotada para os nosso filhos, Mike e Eric, que sempre foram o seu grande orgulho.”
Herói patriótico e republicano
Vocal no apoio ao Partido Republicano e adepto de políticas conservadoras, Norris admitiu nem sempre ter simpatizado com as ideias do partido. “Eu era democrata, “reconheceu, “mas, infelizmente os democratas foram-se deslocando demasiado para a esquerda e os republicanos ocuparam a posição que tinham há 40 anos. Eles perderam completamente o contacto com a realidade daquilo que significa a América. E, por isso, eu percebi que, neste ponto, os republicanos estão mais focados naquilo que é melhor para o país.”
Até fevereiro de 2025, o ator manteve uma coluna no website informativo de extrema-direita WorldNetDaily, onde manifestou admiração pelo atual Presidente Donald Trump por ocasião da sua reeleição: “Estava na hora de termos um verdadeiro homem de negócios a lidar com a confusão que vai em Washington D.C.” Na mesma plataforma, revelou os seus dois presidentes americanos favoritos, Ronald Reagan e George H. W. Bush.
Para além de apoiar candidatos republicanos e participar em campanhas eleitorais, em 2012, Norris apelou aos evangélicos americanos para votarem contra Barack Obama, cuja vitória submeteria o país a “mil anos de escuridão”. A imagem de herói patriótico, construída nos filmes e séries em que participou, tem tração junto do eleitorado republicano e já foi explorada por Trump, consolidando o ator como uma figura simbólica do seu campo ideológico.
Chuck, o meme
Ainda um sucesso estrondoso de audiências, a imagem Norris atingiu novas alturas através de um formato muito específico difundido via internet: memes enaltecendo o seu caráter invencível e excecionalmente masculino. O fenómeno coincidiu com o início da Guerra do Iraque (2003-2011), durante a qual o ator se afirmou como uma figura extremamente popular entre os militares americanos que participavam no conflito.
https://twitter.com/StonedApe/status/2034687816807158094
Norris apelou às tropas destacadas pela sua imagem convencionalmente masculina, atitude implacável e habilidades de combate, para além de ser um reconhecido apoiante da causa conservadora. Além disso, muitos dos filmes protagonizados pelo lutador de artes marciais desenvolviam temas militares, sendo casos disso Força Delta ou Desaparecido em Combate, assim como a famosa série Walker, Texas Ranger, na qual interpretava um agente de autoridade e veterano da marinha.