A Procuradoria Europeia abriu uma investigação para apurar se, nas obras das vias férreas de Adamuz, em Córdoba, no sul de Espanha, onde em janeiro ocorreu um acidente ferroviário que fez 46 mortos, terão sido desviados fundos dos 111 milhões de euros concedidos pela Comissão Europeia para a renovação do troço Madrid-Sevilha. A informação foi avançada pelo jornal El Mundo esta quinta-feira.
Segundo fontes da investigação citadas pelo periódico espanhol, o órgão comunitário está a averiguar a possível prática de um crime de desvio de fundos públicos e/ou fraude de fundos europeus. Após “uma exaustiva fase inicial de verificação, o procurador europeu constatou, em primeiro lugar, que foram destinados fundos da União Europeia à conservação da via onde ocorreu o fatídico acidente dos comboios Alvia e Iryo no passado dia 18 de janeiro e, em segundo lugar, que esses fundos poderão ter sido utilizados de forma fraudulenta”.
Bruxelas concedeu a Espanha uma subvenção no valor exato de 111 646 340 euros em junho de 2024 para renovar profundamente esta linha ferroviária que liga Madrid a Sevilha, que datava de 1992 e era a mais antiga de alta velocidade em Espanha. O pacote de financiamento previa “a substituição de carris e travessas” com Fundos Europeus de Desenvolvimento Regional (FEDER).
Ora, a principal hipótese sobre a tragédia ferroviária centra-se, neste momento, precisamente no mau estado da via, nota o El Mundo. Mais concretamente, numa soldadura com defeito entre a via de 1989 e a de 2023, que poderá ter provocado o descarrilamento do comboio Iryo e, consequentemente, o acidente. Segundo a Euronews, as autoridades espanholas têm manifestado intenções de colaborar e facilitar toda a documentação necessária.
Esta sexta-feira, o ministro dos Transportes de Espanha, Óscar Puente, reagiu à abertura do inquérito, noticiada na imprensa espanhola, afirmando que “a Procuradoria Europeia investiga o acidente de Adamuz desde o momento em que ocorreu. É assim que acontece em todos os casos em que estão envolvidos fundos europeus. Por alguma razão, isto é hoje apresentado como uma novidade importante. Não é”, acusou na rede social X.
https://twitter.com/oscar_puente_/status/2034915863573221438
O processo da Procuradoria Europeia decorre em paralelo ao que já tinha sido iniciado por um tribunal de Montoro e que procura determinar a causa do descarrilamento do comboio Iryo que colidiu com um Alvia que circulava em sentido contrário.
A 18 de janeiro, um comboio de alta velocidade da empresa Iryo, que viajava desde Málaga com destino a Madrid, descarrilou e embateu num segundo comboio, da Renfe, que circulava em sentido contrário. O primeiro transportava 317 pessoas e descarrilou cerca de uma hora após o início da viagem, pelas 19h50, em Adamuz. Segundo a imprensa espanhola na época, citando fontes oficiais, descarrilaram as três últimas carruagens do Irya, números 6, 7 e 8, que entraram na via férrea contrária, onde circulava outro comboio, da estatal Renfe, com 184 passageiros, que ligava Puerta de Atocha — Huelva, e que seguia a 200 quilómetros por hora. As primeiras carruagens do comboio da Renfe também descarrilaram e caíram de uma altura de cerca de seis metros. Nestas carruagens seguiam 53 pessoas. Um dos mortos era o maquinista do comboio da Renfe.