É o todo, e não a parte, que pode salvar a exibição cinematográfica em Portugal.
Nos últimos meses tem sido intenso o debate sobre o futuro do cinema em Portugal. Com efeito, além da perspetiva usual que se tem centrado na produção e no incentivo e financiamento a novos autores e obras cinematográficas, a realidade do fecho de salas sitas em espaços comerciais, realçou o facto de que, sem estas salas, a produção cinematográfica não cumpre o seu fim, que é ser vista pelo público em salas de cinema. O elo da cadeia, amiúde secundarizado, revelou-se, assim, essencial. Foram frequentes as constatações e as contestações ao facto de estarem a encerrar este tipo de salas de cinema, impedindo o acesso dos habitantes de determinada região do país a essa atividade de fruição cultural.
A APEC- Associação Portuguesa de Empresas Cinematográficas, uma parte verdadeira, aberta e declaradamente interessada na dinamização deste setor em Portugal, reuniu alguns dados, com base em informação do Instituto do Cinema e do Audiovisual I.P. para clarificar a reflexão acerca destas matérias. Estes dados são reveladores do contributo dos seus associados – frequentemente designados como exibidores comerciais – para a dinamização não só da exibição, como também, da produção cinematográfica portuguesa. Estes dados, além de revelarem que em 2025 os seus associados representaram cerca de 93,8% dos bilhetes de cinema vendidos em Portugal e 70% dos ecrãs do país, o que não é surpresa, revelam também um outro facto muitas vezes escamoteado: num contexto em que o cinema português vale apenas 2% dos espectadores e em que 98% da receita de bilheteira provém de filmes oriundos de outros países, são estas salas, maioritariamente sitas em espaços comerciais, que garantem a já frágil visibilidade do cinema nacional.
Os números são claros: dos 229.455 espectadores de filmes portugueses em 2025, 155.153 — ou seja, 67,62% do total nacional — foram registados em cinemas multiplex. Isto significa que mais de dois terços do público do cinema português depende diretamente da rede de exibição deste tipo de salas e, tão ou mais importante, 80% da receita dos filmes portugueses foi feita, precisamente, nessa rede e, ainda que fosse só por isso, ela já merece ser bem apoiada.
Importa, assim, recordar que entre 2019 e 2024 perderam-se 20,8% dos espectadores e em 2025, a quebra acumulada face a 2019 atingiu 25,9%, com impacto estimado de 24 milhões de euros. As salas de cinema operam com custos fixos elevados e dependem sobretudo da bilheteira. Quando o público diminui de forma continuada, a sustentabilidade fica comprometida. Os encerramentos em várias regiões confirmam-no e a opinião pública reconhece que estas salas, prestam, afinal, um serviço público de acesso à cultura e, por sinal, um dos que ficam menos onerosos ao espectador: veja-se o preço de um bilhete de cinema face a outras iniciativas culturais como um concerto ou uma peça de teatro.
Apesar de tudo, perante a crise que alguns consideram estrutural, há esperança, isto se as medidas de revitalização do setor preconizadas pelo Governo juntarem ao invés de dividirem, se não se centrarem única e exclusivamente nos exibidores públicos ou privados de menor dimensão que, como já demonstrámos, não vão, por si só, salvar o acesso do público português ao cinema, em geral, e muito menos ao cinema português, em particular.
Há esperança se se entender o sistema como complementar e se se deixar para trás a falsa oposição entre salas sitas em espaços comerciais e salas de cinema fora de espaços comerciais. A verdade é que a cadeia de valor do cinema é interdependente e neste momento precisa de apoio com um todo. Ignorar esta realidade, ou seja, ignorar as necessidades da grande maioria dos espaços que exibem cinema, fragiliza todo o sistema. Da mesma forma, torna-se evidente que nenhuma medida terá resultados práticos se não existir um incentivo à frequência das salas de cinema.
Incentivos à ida ao cinema para jovens e seniores, à semelhança do que já acontece noutros países europeus, como em Espanha ou em França, podem apoiar a formação de públicos. Tal como a reunião da comunidade cinematográfica – que inclui o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto e as entidades tuteladas – em volta de eventos que promovam o cinema, de uma maneira geral, como é o caso do “Cinema em Festa”, são iniciativas fulcrais para dotar esta atividade da centralidade que merece na vida cultural dos portugueses, enquanto ainda existe e tem força para continuar.