Há uma passagem célebre de Séneca que deveria estar afixada em todos os gabinetes ministeriais da Europa: “Não é que tenhamos pouco tempo, é que perdemos muito.” Em março de 2026, esta frase adquire uma ressonância quase literal. Enquanto o oeste dos Estados Unidos regista a vaga de calor mais extraordinária de que há memória para este mês, com temperaturas 15 a 17 graus acima da média e recordes absolutos a serem pulverizados de Sacramento a Phoenix, a Europa ocupa-se a negociar como enfraquecer os seus próprios instrumentos de política climática. Não por ignorância, mas por uma urgência mal definida.
O calor que derrete a neve das Montanhas Rochosas semanas antes do previsto, que ameaça o abastecimento de água de milhões de pessoas e que transforma março numa antecâmara de agosto, não é um acidente meteorológico. É o produto visível de décadas de emissões acumuladas, o resultado previsível de um modelo energético que a ciência condena há trinta anos. Mas o que torna este momento particularmente revelador não é a vaga de calor em si, é o que acontece simultaneamente do outro lado do Atlântico.
A urgência como álibi
Na Europa, a terceira semana de março de 2026 ficará marcada por uma ofensiva coordenada contra a arquitetura regulatória climática do continente. Dez Estados-membros exigiram à Comissão Europeia que antecipe a revisão do sistema de comércio de emissões para maio, “o mais tardar”. A França propôs que o teto de emissões do EU ETS não atinja o zero antes de 2050, invertendo a trajetória prevista para 2039. A Polónia, um dos países mais poluidores da EU, quer reduzir o ritmo anual de cortes de emissões. A indústria química europeia classifica como “crucial” a manutenção de mais licenças gratuitas para a sua sobrevivência. E tudo isto acontece sob o manto legitimador de uma crise energética que, sendo real, está a ser instrumentalizada como pretexto para recuar em compromissos estruturais.
A guerra no Golfo, com o encerramento do Estreito de Ormuz e a perturbação das cadeias de abastecimento de GNL do Qatar, criou uma pressão genuína sobre os custos energéticos europeus. Os preços da gasolina subiram 13% a 14% na Alemanha e na Áustria. Os armazenamentos de gás estão em mínimos históricos. Ninguém nega a severidade da situação. Mas o que é intelectualmente desonesto, e politicamente perigoso, é usar esta crise conjuntural para desmontar instrumentos concebidos para responder à crise estrutural que lhe está na origem.
O paradoxo da dependência revelada
Há um paradoxo que a classe política europeia se recusa a enfrentar: cada crise energética provocada por conflitos geopolíticos demonstra, de forma inequívoca, que a dependência de combustíveis fósseis é a vulnerabilidade primária da Europa, não a transição energética. Em 2022, foi a Rússia. Em 2026, é o Irão. A geografia da crise muda, mas a sua gramática é sempre a mesma: um fornecedor externo é perturbado, os preços disparam, a indústria sofre, os governos procuram culpados internos. E o culpado mais conveniente é sempre o preço do carbono, porque é o único custo que podem controlar diretamente.
Um estudo da Ember, publicado na semana passada, demonstrou o que deveria ser óbvio: é a dependência do gás, e não o EU ETS, que expõe a Europa a choques de preços. A eletrificação e as energias renováveis fariam mais pela segurança energética do que qualquer enfraquecimento do mercado de carbono. Mas a evidência empírica tem pouco peso quando a pressão política é imediata. A urgência, essa tirania do presente, funciona como um álibi para decisões que comprometem o futuro.
A lucidez que o calor exige
Regressemos aos Estados Unidos. A vaga de calor de março de 2026 não é apenas um evento meteorológico extremo. É um aviso epistemológico. Quando 25 milhões de pessoas vivem sob risco moderado de calor em março, quando as previsões de neve se evaporam literalmente, quando os bombeiros se preparam para uma época de incêndios que pode começar dois meses mais cedo, o que está em causa não é apenas o clima. É a nossa capacidade coletiva de processar informação e agir em conformidade.
A neurociência cognitiva explica-nos porque falhamos sistematicamente nesta tarefa. O cérebro humano privilegia ameaças imediatas e concretas, em detrimento de riscos distantes e abstratos. Uma fatura de gás que sobe 14% mobiliza mais do que um gráfico de anomalias de temperatura. Um conflito militar com imagens em direto gera mais urgência política do que um relatório do IPCC. Mas esta assimetria cognitiva, sendo compreensível, não é desculpa para quem governa. Governar é, precisamente, a capacidade de subordinar o imediato ao estrutural, o urgente ao importante.
Portugal entre dois fogos
Portugal, com a sua posição geográfica e a sua matriz energética em transformação, está no epicentro deste paradoxo. Somos um dos países europeus mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, do avanço do deserto à erosão costeira, da escassez hídrica aos incêndios florestais. E somos, simultaneamente, um dos países que mais poderia beneficiar de uma transição energética acelerada, dada a nossa abundância de recursos solares e eólicos. Mas beneficiar dessa transição exige que os instrumentos regulatórios europeus se mantenham intactos e credíveis.
Se o CBAM for enfraquecido, se o ETS for diluído, se as licenças gratuitas forem prolongadas indefinidamente, Portugal perde duas vezes. Perde como importador de bens intensivos em carbono, porque a concorrência desleal permanece. E perde como potencial exportador de energia limpa, porque o sinal de preço que tornaria as renováveis competitivas é artificialmente suprimido. A cegueira do urgente não é apenas uma falha filosófica. Para Portugal, é uma ameaça económica concreta.
O tempo que não temos
Séneca tinha razão, mas a sua máxima precisa de uma atualização para o século XXI: não é que percamos tempo, é que o desperdiçamos precisamente quando ele se torna mais escasso. A janela para limitar o aquecimento global a níveis geríveis está a fechar-se. Os sinais, como a vaga de calor que transforma março em agosto no sudoeste americano, são cada vez mais inequívocos. E a resposta europeia é, cada vez mais, a de quem fecha os olhos enquanto a casa arde.
A Europa não precisa de menos ambição climática. Precisa de mais lucidez sobre o que está verdadeiramente em causa. A urgência energética de hoje é o produto de décadas de dependência fóssil. Responder-lhe desmontando os instrumentos de descarbonização é como apagar um incêndio com gasolina. O resultado é previsível e será irreversível.