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(A) :: O 'regresso' de Sócrates ao julgamento. O nervosismo, as "massas" da mãe, os códigos e as "dificuldades financeiras" de um "miserável"

O 'regresso' de Sócrates ao julgamento. O nervosismo, as "massas" da mãe, os códigos e as "dificuldades financeiras" de um "miserável"

As gravações dos interrogatórios realizados após a detenção em novembro de 2014 e em maio de 2015 foram reproduzidos no julgamento da Operação Marquês. Porquê? Para produzir prova.

João Paulo Godinho
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Luís Rosa
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Após uma interrupção que já perdurava desde 24 de fevereiro, devido à novela em torno dos advogados e dos oficiosos que representam a defesa do ex-primeiro-ministro, o regresso das sessões ficou marcado pela reprodução das gravações dos interrogatórios ao ex-primeiro-ministro na fase de inquérito, nomeadamente após a sua detenção em novembro de 2014 no aeroporto da Portela.

“Consigne em ata que se vai proceder à reprodução das declarações do arguido José Sócrates prestadas em fase de inquérito”, anunciou a juíza presidente do coletivo, Susana Seca, sensivelmente a meio da tarde de terça-feira. Era a primeira vez que se voltava a ouvir a voz de José Sócrates — sem ser por intermédio de escutas — desde setembro de 2025, altura em que o principal arguido do processo interrompeu as suas declarações iniciais, sem mais voltar a comparecer no Juízo Central Criminal de Lisboa.

E tudo começou com o interrogatório ao antigo governante nos dias 22, 23 e 24 de novembro de 2014, na sequência da mediática detenção após a chegada ao aeroporto de Lisboa, na noite de 21 de novembro, num voo proveniente de Paris. Perante o então juiz de instrução Carlos Alexandre e o procurador Rosário Teixeira ouviu-se um José Sócrates diferente daquele que todos os portugueses conheciam. Ouvido no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), José Sócrates não foi o “animal feroz” que se autointitulou no passado, ao denotar nervosismo, insegurança e desconhecimento.

https://observador.pt/especiais/o-interrogatorio-de-jose-socrates-sempre-tive-dificuldades-financeiras/

O que disse José Sócrates? Da famosa casa de Paris às vendas de casas da sua mãe ao empresário Carlos Santos Silva, passando pelas “dificuldades financeiras” que assumiu ou as “massas” que Maria Adelaide Monteiro lhe ia dando para orientar a sua vida, sem esquecer os “empréstimos” do amigo “de posses”, José Sócrates foi confrontado com muitas das imputações que viriam depois a figurar na acusação do Ministério Público, em outubro de 2017, e refletidas na pronúncia do Tribunal da Relação de Lisboa, em janeiro de 2024.

O Observador volta a reproduzir as declarações de José Sócrates nesses interrogatórios de novembro de 2014 e maio de 2015 pela importância que podem vir a ter na decisão final do julgamento da Operação Marquês.

Uma longa amizade com Carlos Santos Silva

Foram as explicações de José Sócrates nos interrogatórios de 22, 23 e 24 de novembro de 2014 que voltaram agora a ser reproduzidas, desta feita enquanto produção de prova para o coletivo poder valorar as explicações para uma futura decisão do julgamento. Só aquilo que é dito em audiência de julgamento é que pode ser usado na análise das juízas, podendo assim contrapor as explicações de Sócrates nas diversas fases do processo Marquês.

As explicações não se ficariam por este interrogatório, com a reprodução de declarações a avançar para 27 de maio de 2015, a segunda vez em que foi ouvido — quando já se encontrava em prisão preventiva há cerca de seis meses —, desta feita apenas diante do procurador Rosário Teixeira e do inspetor tributário Paulo Silva. Mas já lá chegaremos, pois foi neste primeiro interrogatório de novembro de 2014, reproduzido esta semana no julgamento, que José Sócrates começou a construir a sua linha de defesa, em total contraponto com a tese do Ministério Público (MP).

Onde o MP via corrupção durante o exercício do cargo de primeiro-ministro e colocação de dinheiro à sua disposição por um suposto ‘testa de ferro’ chamado Carlos Santos Silva, José Sócrates respondia com uma amizade construída desde os tempos de juventude e meros empréstimos. E mesmo quando lhe apontavam levantamentos e entregas de ‘dinheiro vivo’ através de alegados terceiros, como o ex-motorista João Perna, em detrimento de transferências bancárias, o antigo governante referiu que tal se devia a questões de conveniência e facilidade para agilizar perante situações de necessidade.

As sessões de interrogatório que ocorreram em novembro de 2024 foram realizadas sob a liderança do juiz de instrução Carlos Alexandre. O Sócrates que se ouve nessas gravações, com destaque para o primeiro dia, não é o Sócrates combativo e provocador que tem marcado a relação do ex-primeiro-ministro com a Justiça. É um Sócrates nervoso, que tenta explicar o seu ponto de vista e que aceita a liderança do interrogatório de Carlos Alexandre. Mas sem nunca perder de vista uma estratégia de vitimização.

José Sócrates: Gostaria que se percebesse que sou amigo de infância… de juventude de Carlos Santos Silva e somos muito amigos, (…) passamos férias juntos há muitos anos… (…) a verdade é que fiquei a saber mais sobre os bens do eng. Carlos Santos Silva ontem [dia 21 de novembro de 2017], quando li estes factos, do que soube nos últimos trinta anos. Nunca perguntei nem nunca soube quanto é que o Carlos Santos Silva detinha. Portanto, não conhecia, até ler o que está aqui [no despacho de indiciação], o património do eng. Carlos Santos Silva. Bom, esse é o ponto mais importante. Mas eu não sei como é que o senhor doutor juiz quer conduzir o interrogatório, mas julgo que, do meu ponto de vista…

Juiz Carlos Alexandre: Esse ponto é fulcral, efetivamente.

José Sócrates: Sim.

Juiz Carlos Alexandre: Portanto, no seu dizer, não há qualquer conjunção no sentido de que as verbas que existiram nestas contas da Suíça [de Carlos Santos Silva] e que vieram transportadas para cá [para Portugal] aquando do RERT [Regime Excecional de Regularização Tributária ] fossem em alguma parte suas?

José Sócrates: Não só isso é falso, não só desminto perentoriamente isso, como também quero desmentir uma outra coisa a propósito da pergunta que me faz sobre o RERT. (…) O RERT I e o RERT II foram decisões tomadas de acordo com aquilo que o Governo na altura considerou ser o interesse do país (…) e não foi condicionado por nenhum interesse particular, repito, nenhum interesse particular. Nem era do meu conhecimento que o senhor eng. Carlos Silva tivesse ou não tivesse contas na Suíça. (…) A única coisa que sabia era que o senhor eng. Carlos Santos Silva era um homem de posses, porque sempre o conheci, como digo, como empresário.

Juiz Carlos Alexandre: Mas sabe de onde é que lhe vinham essas posses, pode dizer alguma coisa a respeito disso que seja útil aqui para a inspeção?

José Sócrates: (…) A única coisa que sabia é que o eng. Carlos Santos Silva era um homem com posses, ligado, desde sempre, a empresas na área de consultadoria de projetos e na área da construção civil.

A postura do ex-primeiro-ministro ao longo do interrogatório do primeiro dia era claramente muito longe da imagem de ‘animal feroz’ que sempre o caracterizou. Sócrates até mostrou preocupação com os palavrões que se ouviam nas escutas telefónicas que foram reproduzidas durante as várias sessões do interrogatório.

José Sócrates: É pena que o vosso sistema não permita substituir por pis os palavrões porque quem os profere também não está, também não…

Juiz Carlos Alexandre: Senhor doutor, por amor de Deus, não é por aí.

José Sócrates: Bom, mas está uma senhora [funcionária judicial] presente na sala…

As sucessivas vendas de casas da mãe ao amigo do filho — e a questão da herança

Dois apartamentos vendidos no Cacém. Um apartamento vendido no edifício Heron Castilho, em Lisboa. Em comum: a vendedora, Maria Adelaide Monteiro, e o comprador, Carlos Santos Silva. Na ótica do MP, estas operações mais não eram do que uma forma de dissimular a disponibilização de fundos a José Sócrates através de transações legitimamente registadas entre outras pessoas.

De acordo com o despacho de acusação, Sócrates terá recebido entre 29 janeiro de 2012 e 26 de agosto de 2014 um total de 550 mil euros da sua mãe que tiveram origem no amigo e empresário. Rosário Teixeira e Carlos Alexandre procuraram explorar a circulação desse dinheiro e o ex-primeiro-ministro relatou as conversas tidas acerca desse tema, sublinhando a confiança que existia entre a sua família e Carlos Santos Silva para a realização dos respetivos negócios, bem como a vontade deste último em apostar a partir de certa altura no setor imobiliário.

De acordo com o despacho de acusação, Sócrates terá recebido entre 29 janeiro de 2012 e 26 de agosto de 2014 um total de 550 mil euros da sua mãe que tiveram origem no amigo e empresário. Rosário Teixeira e Carlos Alexandre procuraram explorar a circulação desse dinheiro

José Sócrates: Que eu tenha conhecimento, a minha mãe vendeu três casas ao eng. Carlos Santos Silva. As primeiras duas casas, dois apartamentos, a minha mãe, a minha mãe herdou do meu avô — vários apartamentos e uma fortuna em dinheiro, fortuna que eu nem sei avaliar, mas enfim, que era significativa (…) bom, mas quem tratou disso foi o meu irmão [António Pinto de Sousa] (…) não tenho memória disso mas, para ser absolutamente franco e honesto, o que acho é que foi o meu irmão a falar-lhe e que mais tarde o Santos Silva comentou: ‘Olha, o Tó Zé falou-me nisso e eu vou comprar os andares à tua mãe’ — qualquer coisa desse tipo. (…)

Procurador Rosário Teixeira: Isso. Quanto ao Heron Castilho?

José Sócrates: Quanto ao Heron Castilho, ora bem, a Heron Castilho é uma história que se conta muito facilmente. A minha mãe viveu e vivia em Cascais (…) e, enfim, é o que é, não posso dizê-lo de outra forma, houve um momento em que ela ficou muito infeliz porque morreu o cão; ela já vivia sozinha com o cão e então aconselhei-a: ‘Ó mãe, venha viver comigo (…), venha viver comigo não, venha viver para o meu prédio, há lá andares à venda, compra lá, venda a casa e compre lá um’. A minha mãe vendeu a casa do Cobre e comprou o andar na Heron Castilho, (…) compra essa que me causou os maiores incómodos porque tive que me explicar de forma absolutamente injusta perante jornalistas que me questionaram sobre isso (…), a proprietária disse que a casa que era dela, mas era dela estando em nome de uma offshore. Foi a primeira vez que ouvi falar em offshores. (…) Acontece que eu fui viver para Paris em 2012 e a minha mãe disse-me: ‘Olha, eu acho… eu quero sair daqui, quero ir para Cascais’. (…)

Juiz Carlos Alexandre: Vendeu a casa, pronto.

José Sócrates: Vendeu a casa. (….) E, nessa altura, lembro-me de conversar com o Carlos [Santos Silva], várias vezes, e ele tinha já há muito tempo, há muito tempo não… há muito tempo a partir de… tendo em conta o momento presente, me tinha dito que a intenção dele era fazer agora investimentos no imobiliário (…), isto é, queria… recordo-me das conversas em que ele dizia: ‘Bom, isto há uma ameaça aos sistemas financeiros, não se sabe bem o momento em que pode falir um banco’ — a conversa era genericamente essa, não muito diferente das conversas que os cidadãos comuns têm nos cafés sobre a fiabilidade dos bancos (…) Falei à minha mãe nisso: ‘Olhe, talvez o Carlos Santos Silva queira comprar’. E ela disse “Gostaria de lhe vender a ele” mas, já porque tinha passado por tudo o que passei, e estamos a falar já de quando eu estava em Paris, não é, fiz duas coisas, uma foi dizer-lhe: ‘Olha, Carlos, muito bem, a minha mãe vende-te a casa, mas isto tem de ser um preço justo’. E, para evitar chatices no futuro (…), por favor manda fazer uma avaliação. Eu nunca vi essa avaliação, mas o Carlos Santos Silva disse-me: ‘Mandei fazer uma avaliação e o preço que a tua mãe está a pedir [600 mil euros] é… está de acordo com a avaliação que fiz’.

A venda do andar que Maria Adelaide tinha no Heron Castilho levou, contudo, a uma disputa judicial com a Tânia Gouveia, ex-cunhada de José Sócrates, primeira mulher do irmão António Pinto de Sousa. A ex-nora de Maria Adelaide, que já depôs no julgamento da Operação Marquês como testemunha,  considerou que, em nome da sua filha (neta de Maria Adelaide e sobrinha de José Sócrates), também tinha direito a uma parte dos cerca de 600 mil euros que Santos Silva tinha pago. Além de uma queixa que apresentou no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa (que foi noticiada no Correio da Manhã), a matéria obrigou Sócrates a consultar dois advogados: Daniel Proença de Carvalho e Vera Adão e Silva, mãe do comentador e militante socialista Pedro Adão e Silva.

José Sócrates: E nessa altura a minha mãe disse: “Mas olha, eu quero que tu fiques já com o dinheiro [600 mil euros], porque não quero que mais ninguém… fique já com o dinheiro isto é, quero dar-te já as coisas que tenho”. (…)

Juiz Carlos Alexandre: Dispor, como se diz na gíria.

José Sócrates: Sim, dispor do seu património para mo entregar ainda em vida. (…) E eu disse-lhe: “Mas ó mãe, eu acho que a mãe não tem esse direito porque é preciso acautelar, em termos de direito sucessório, a quem é que… o que é que a mãe me pode dar e o que é que a mãe não pode (…)”. Bom, e então vai daí, consultei dois advogados, (…) o dr. Proença de Carvalho, mas consultei primeiro um outro advogado, uma outra advogada que tratou do meu divórcio e da Sofia, ela foi advogada de ambos e era especialista de Direito de Família e é mãe de um amigo meu que é a… (Oh Deus!, pá, a partir dos cinquenta anos…)

Advogado João Araújo: Posso dar uma ajuda?

Juiz Carlos Alexandre: Diga, diga… senão não andamos.

José Sócrates: Pedro Adão e Silva.

Juiz Carlos Alexandre: Isso.

José Sócrates: O Pedro Adão e Silva… a mãe do Pedro Adão e Silva (…) tratou do meu divórcio e eu liguei ao Pedro e disse: “Dá-me lá o telefone da tua mãe porque eu gostaria de a consultar para saber o que é que a minha mãe me pode dar” e (…) ela esclareceu-me genericamente: (…) “a sua mãe pode dispor de metade”, se não é de metade é de não sei quanto e quanto ao restante produto ou ao restante do recebimento pela venda da casa ela pode doar-lhe a parte que lhe compete se ela acaso falecesse.

https://observador.pt/2025/10/09/defesa-de-jose-socrates-tenta-chamar-caso-ivo-rosa-ao-julgamento-da-operacao-marques/

As “dificuldades” de um “miserável”, financeiramente falando

Muitas das declarações de José Sócrates neste primeiro interrogatório judicial de novembro de 2014 já foram publicadas ao longo dos anos. No entanto, apesar de serem conhecidas, a sua reprodução em sede de julgamento não foi totalmente pacífica e mereceu a contestação de algumas defesas.

Pelo menos os advogados dos arguidos Joaquim Barroca (administrador do Grupo Lena), Zeinal Bava (ex-CEO da PT), Henrique Granadeiro (antigo chairman da PT), João Perna (ex-motorista de José Sócrates) e as sociedades Lena – Engenharia e Construções, S.A., Lena – Engenharia e Construção SGPS, S.A. e Lena SGPS, S.A. requereram várias irregularidades e inconstitucionalidades relacionadas com a reprodução da gravação dos interrogatórios em audiência de julgamento.

A defesa de João Perna chegou até a invocar que o Tribunal estava a ter uma visão utilitarista da lei devido aos problemas com a continuidade da audiência levantados pelas sucessivas renúncias de advogados de José Sócrates. Contudo, a juíza Susana Seca recusou todos os requerimentos das defesas, tendo defendido a legalidade da sua decisão com um acórdão de fixação de jurisprudência de 2023.

Segundo um despacho da presidente do coletivo, a que o Observador teve acesso, o referido acórdão determina que as declarações prestadas em fases preliminares, como no inquérito ou na fase de instrução, “‘só podem ser valoradas como prova desde que reproduzidas ou lidas em audiência de julgamento’. A omissão desta diligência inquinaria o acórdão de nulidade por valoração de prova proibida”, conclui a juíza presidente do coletivo que está a julgar a Operação Marquês.

Assim, foi possível ouvir também em tribunal José Sócrates queixar-se da sua situação financeira, ao desmentir a tese do MP de que mais de 20 milhões de euros depositados em contas de Carlos Santos Silva na Suíça seriam, afinal, seus e garantir que o dinheiro que lhe chegava eram meros “empréstimos”.

Descrevendo-se como “um miserável” em termos financeiros, na sequência da reprodução de uma escuta com a sua antiga gestora de conta na CGD, e que dependeu da “generosidade” da mãe, o ex-primeiro-ministro assumiu que sempre teve “dificuldades financeiras” e não conseguiu explicar ao procurador Rosário Teixeira (que pôde interrogar o arguido com a autorização do juiz Carlos Alexandre) algumas coincidências na movimentação de verbas com origem em Carlos Santos Silva.

Procurador Rosário Teixeira: Não houve da sua parte nenhuma solicitação à sua mãe que, dado ter algumas despesas em Paris, precisasse deste dinheiro, de que tivesse pedido à sua mãe se lhe podia, digamos assim, isto ser um empréstimo?

José Sócrates: Ó senhor doutor! Correspondeu à vontade da minha mãe e correspondeu também à minha necessidade, porque a mãe sabia bem que eu não sou propriamente uma pessoa que… nem de bens e, pelo contrário, sou uma pessoa que vive com algumas dificuldades financeiras. Aliás, o que, se me permite dizê-lo, uma coisa que me espanta é que as dificuldades financeiras pelas quais eu passo sejam viradas contra mim em vez de me favorecerem. Eu sempre tive dificuldades financeiras, isto é, nunca tive contas a prazo, não tenho dinheiro de fortuna, tenho uma casa e um carro e sempre vivi com a generosidade da minha mãe, que lá ia dando umas ‘massas’ quando eu precisava e nessa altura, bom, também me fazia jeito isso. (…)

Rosário Teixeira: Segunda questão: é que este pagamento do senhor eng. Carlos Santos Silva à sua mãe, de três tranches de 200 mil euros, é feito em datas coincidentes com a aquisição do imóvel de Paris. (…) Ao que acresce que, nesta data de 2012, tinha o senhor Carlos Santos Silva trazido o dinheiro para Portugal através da adesão ao RERT II. E a minha questão era essa: o senhor eng. Carlos Santos Silva falou-lhe pelo menos nalguma disponibilidade de fundos que tinha na altura por via dessa adesão ao RERT e se estes investimentos imobiliários, estes sucessivos pagamentos têm que ver com essa disponibilidade que ele tinha cá então?

José Sócrates: Não. (…) Essa coincidência eu não a sei explicar nem sei… e nem sei sequer quando é que o eng…, tenho ideia de quando é que o Santos Silva comprou o apartamento de Paris, porque acontece que eu fui para lá morar imediatamente a seguir, quase, e ele disse-me que comprou um apartamento e eu estava à procura de apartamento para alugar, e ele disse-me:’Porque é que não ficas lá até as obras estarem prontas? Tenho que fazer obras para o colocar no mercado’. A coisa passou-se mais ou menos assim.

Procurador Rosário Teixeira: Mas ele não… (…) não lhe falou, e a minha pergunta era mais nesse sentido, de que: ‘É pá, eu tenho agora umas disponibilidades, trouxe para cá o dinheiro do RERT’ e tal?

José Sócrates: Não, não, não falou, não, não me falou em nada. O eng. Carlos Santos Silva às vezes para lhe arrancar uma palavra é preciso… não é um falador como eu, como os homens da política que são maçadores até porque falam demais. Ele fala pouco, eu nunca lhe perguntei (…).

A questão “mais complexa” de entregas de numerário e a linguagem em forma de código

O procurador Rosário Teixeira teve de insistir um pouco com José Sócrates para abordar o tema de pagamentos e entregas de numerário originadas em Carlos Santos Silva. De acordo com a tese do MP, o ex-primeiro-ministro teria alegadamente recebido mais de um milhão de euros entre 2010 e 2014 através de dinheiro vivo que lhe chegava graças ao amigo, muitas vezes através de terceiros, como João Perna, descrito por Sócrates como “um tipo honestíssimo” e que o antigo governante reconheceu que só estava envolvido naquela ‘história’ por sua causa.

O antigo líder do PS mostrou-se algo reticente, manifestou preferência por uma metodologia diferente e admitiu que esta era a matéria “mais complexa” e aquela onde tinha “mais dificuldade” em apresentar esclarecimentos. Com efeito, uma dessas dificuldades passou pela situação de não fazer transferências bancárias e porque não pedia tais alegados “empréstimos”, segundo a sua versão, por transferência bancária ou até por cheque bancário.

Foi então que o juiz Carlos Alexandre deu azo a uma das tiradas mais insólitas do interrogatório quando procurou avançar com a diligência. “Nós somos apenas… eu só falo por mim, mas tenho acompanhado aqui o dr. Teixeira nos últimos dez anos, somos apenas dois simples magistrados de província, preocupados apenas em … em andar com os processos para a frente e fazer o que for possível de justiça, mais que não seja processual”, comentou. A alusão à província seria recuperada posteriormente por Sócrates: “Sou um pobre provinciano que andou na política uns anos”.

No entanto, José Sócrates negou que as verbas que lhe tivessem chegado provenientes de Carlos Santos Silva fossem superiores a um milhão de euros em poucos anos.

José Sócrates: Bom, eu… (…) quero contestar, em primeiro lugar, que o Carlos Silva me tenha entregue, através de outras pessoas, as quantias que aqui estão, porque são exageradíssimas. Mas devo dizer-lhe que é verdade, que o Carlos Santos Silva de onde em onde me emprestava dinheiro, de onde em onde me emprestava dinheiro, é mesmo assim, porque eu tenho pouco, e sei que ele é um homem de posses e, de vez em quando, pedia-lhe dinheiro, de vez em quando pedia-lhe dinheiro. Portanto, genericamente, é o que tenho a dizer.

Juiz Carlos Alexandre: Dinheiro esse que devolveu, não é?

José Sócrates: Não, não… é que ainda não devolvi nada.

Juiz Carlos Alexandre: Não devolveu nada?

José Sócrates: Não devolvi nada, mas tenho… não devolvi nada não, vamos lá ver…

Juiz Carlos Alexandre: Diga, diga.

José Sócrates: Algumas coisas lhe fui devolvendo ao longo da vida, mas eu sei que tenho para com ele uma dívida que procurarei pagar, mas é assim… (…)

Outra questão que deixou José Sócrates incomodado foi a utilização de códigos em conversas telefónicas para alegadamente solicitar a Carlos Santos Silva a entrega de numerário. Durante o interrogatório, o procurador Rosário Teixeira chegou a mesmo a pedir autorização ao juiz Carlos Alexandre para passar diversos trechos de escutas telefónicas de conversas entre Sócrates e Santos Silva para fundamentar o seu ponto de vista.

"A expressão que eu utilizo é ‘preciso’. Se isso é uma imposição? Desculpem, não é. (…) É um pedido de ajuda. (...) Como é que vou explicar isto… mas, enfim, vou explicar da forma mais aberta que sei… Eu sou amigo do eng. Carlos Santos Silva há muitos anos, mas ele tem respeito por mim e admiração por mim. Ele… e… e esse respeito e admiração leva-o sempre a ser…(…) O Carlos emprestava-me dinheiro para fazer face às minhas necessidades mais prementes, isso é assim, confirmo isso."
José Sócrates

Procurador Rosário Teixeira: Já agora, só uma questão de, em termos de… quando fazia estas… estes pedidos ao senhor Carlos… ao eng. Carlos Silva, aquilo que se nota, mais uma vez da sua conversa, é que não é propriamente um pedido, é reivindicar aquilo que é seu e muitas vezes… (…) quer dizer mesmo quando uma pessoa normal pede [dinheiro], até a algum familiar mais próximo, pede: ‘Preciso… estou aqui com necessidade… e tal… liberta-me lá mais isto ou liberta-me lá mais aquilo, se puderes, e tal’. O senhor nunca utiliza estas expressões na sua linguagem com o Carlos Santos Silva, fala sempre em ‘preciso’, ‘olha, é o mesmo que da outra vez’, ‘metade que da outra vez’, há uma… há um… um sentido afirmativo no seu pedido que ele [Carlos Santos Silva] nunca nega, não é, mas…

José Sócrates:Ó senhor dr. …

Procurador Rosário Teixeira: E… à medida que o senhor pede, ele satisfaz.

José Sócrates: Ó senhor dr., eu tive conversas pessoais com o eng. Carlos Santos Silva, em que lhe dei conta das minhas dificuldades, que lhas expliquei, em que lhe disse como é que estava a pensar resolver o problema no futuro.

Juiz Carlos Alexandre: Ó senhor eng.…

José Sócrates: … e pedi-lhe… e pedi-lhe ajuda para, de onde em onde….

Juiz Carlos Alexandre: (…) e por isso utilizava códigos de linguagem, porque isso se percebia?

José Sócrates: Códigos? Mas ó senhor… ó senhor procurador… ó senhor dr. juiz desculpe mas eu não posso aceitar…

Juiz Carlos Alexandre: Não… não são códigos de linguagem?

José Sócrates: Não, são códigos, não, não é isso… eu não queria…

Juiz Carlos Alexandre: Nunca disse em tom claro que queria isto ou que queria aquilo?

José Sócrates: Exacto, exacto, é verdade!

Juiz Carlos Alexandre: É nesse sentido que eu digo que são códigos.

José Sócrates: É verdade, códigos… isso sim, mas eu não me referia a isso.

Juiz Carlos Alexandre: Códigos?! Expressões que..

José Sócrates: A expressão que eu utilizo…

Juiz Carlos Alexandre: … que não querem dizer exatamente o que é.

José Sócrates: A expressão que eu utilizo é ‘preciso’. Se isso é uma imposição? Desculpem, não é. (…) É um pedido de ajuda. E também gostaria que compreendessem o seguinte… Como é que vou explicar isto… mas, enfim, vou explicar da forma mais aberta que sei… Eu sou amigo do eng. Carlos Santos Silva há muitos anos, mas ele tem respeito por mim e admiração por mim. Ele… e… e esse respeito e admiração leva-o sempre a ser… Ele é uma pessoa muito cordial e é muito minha amiga. (…) O Carlos emprestava-me dinheiro para fazer face às minhas necessidades mais prementes, isso é assim, confirmo isso.

Refira-se que, como é seu direito, José Sócrates optou por não abordar o que diz serem empréstimos de Carlos Santos Silva nas suas declarações iniciais no julgamento da Operação Marquês. Se Sócrates optar por ficar em silêncio, o tribunal coletivo poderá ter em consideração estas declarações na fase de inquérito para sustentar o seu veredicto final.

O salto para maio de 2015 e um Sócrates ao ataque ao MP

Demoraria cerca de seis meses até que José Sócrates voltasse a ser interrogado pelos factos apurados na investigação da Operação Marquês. No entanto, entre o primeiro e o segundo interrogatório do ex-primeiro-ministro foi uma questão de minutos na sessão de quinta-feira do julgamento. Depois da reprodução da gravação das suas declarações de novembro de 2014, o tribunal prosseguiu para o interrogatório de maio de 2015, no DCIAP.

José Sócrates estava há cerca de seis meses em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Évora e desta feita teve outro tempo para se preparar. Por isso, numa diligência que desta vez teve direito a gravação em vídeo, viu-se um José Sócrates mais fiel a si mesmo: com uma postura marcadamente mais agressiva e ao ataque ao MP. Perante o procurador Rosário Teixeira e o inspetor tributário Paulo Silva, o antigo governante surgiu acompanhado pelos advogados João Araújo e Pedro Delille, num interrogatório caraterizado por um clima de forte tensão.

E ainda antes que o magistrado do MP começasse com as perguntas sobre novos factos recolhidos pela investigação, Sócrates partiu para o ataque. “Estas imputações são falsas, todas elas, e não há nelas um pingo de verdade. E lamento que o Ministério Público não se interesse pela descoberta da verdade, mas que esteja mais concentrado na perseguição”, referiu o ex-primeiro-ministro, que fez questão de denunciar uma “campanha de denegrimento” da sua pessoa e que tinha efeitos políticos contra o seu partido, o PS.

"Estas imputações são falsas, todas elas, e não há nelas um pingo de verdade. E lamento que o Ministério Público não se interesse pela descoberta da verdade, mas que esteja mais concentrado na perseguição"
José Sócrates

“Gostaria que me fossem dados os elementos em que se baseiam. (…) Não são imputações de um MP consciente dos seus limites”, atirou o antigo governante, que refutou que os negócios envolvendo Carlos Santos Silva e o seu primo José Paulo Pinto de Sousa o tivessem como verdadeiro beneficiário, deixando uma garantia: “Durante 30 anos servi o meu país honestamente“.

As gravações dos restantes interrogatórios de José Sócrates, tanto na fase de inquérito como na fase de instrução — na qual se prolongaram por cinco dias —, deverão continuar a ser reproduzidas na próxima semana.

Porém, essa reprodução não se vai cingir às palavras do principal arguido do processo Marquês, já que, conforme a juíza Susana Seca deixou expresso em despacho, serão ouvidas as “declarações de todos os arguidos, pela ordem de identificação destes no despacho de pronúncia, sendo calendarizadas à medida que forem reproduzidas”. Segundo as contas do tribunal, será assim o rumo do julgamento até maio.