Alguém diz uma graça e outra pessoa ri-se; concluímos que se riu dessa graça, embora se possa ter rido de outra coisa que coincidiu no tempo com a graça, ou de quem disse a graça, em especial porque raramente imagina que alguém se possa rir dele. É não obstante razoável concluir que na maior parte dos casos se riu por causa dessa graça, e também imaginar que existe uma relação entre uma coisa que foi dita (a graça) e uma coisa que aconteceu (alguém por perto rir-se): concluir que havia uma coisa especial, uma propriedade, naquilo que foi dito, que fez rir alguém.
Falar sobre propriedades é parecido com falar sobre substâncias activas. Talvez uma boa graça tenha uma substância activa que causa o riso. O óxido nitroso é um gás usado às vezes pelos dentistas como analgésico, mas que também causa o riso. Não é contudo nesse sentido que achamos que a graça tem propriedades que causam o riso. Com efeito, no dentista sorrimos irresistivelmente ao óxido nitroso; pelo contrário, gostamos de pensar que, apesar de nos rirmos imediatamente das boas graças, temos a escolha de não nos rir delas irresistivelmente, isto é, de não achar graça a uma graça. Quem se ri de uma graça gosta de pensar que poderia não lhe ter achado graça.
Quem diz a graça espera regra geral que quem a oiça se ria. Não espera porém como quem espera que as pessoas se riam irresistivelmente com o óxido nitroso. A diferença é como a diferença entre esperar que um gás cause riso e esperar por um autocarro. Mas há várias maneiras de esperar por um autocarro: esperar que as pessoas se riam das nossas graças não é como esperar que o autocarro chegue; ou sequer como esperar que o autocarro chegue nos próximos quatro minutos; é mais parecido com apostar com alguém que o autocarro vai chegar nos próximos quatro minutos. As esperanças do engraçado são como as esperanças de um apostador. E para um apostador as propriedades daquilo que o fará ganhar a aposta não são o mais importante.
Para a maior parte das pessoas a vida não depende de esperarem que as suas graças tenham sucesso; e por isso não depende de fazerem apostas sobre se alguém se irá rir do que dizem. Mas o modo de vida dos engraçados depende de ganharem apostas dessas. Para eles, a graça é um investimento sério, como no mercado de acções. O riso de terceiros é o lucro desse investimento: uma coisa que se passa no mundo, como numa assembleia de accionistas de uma companhia, e que prolonga a sua vida engraçada. Sabemos que a vida de um engraçado corre bem quando o público começa a rir-se ainda antes da sua primeira graça; quando o público passa a apostar que o engraçado vai ganhar a sua aposta.