A ciência política comparada mostra-nos um padrão claro: sociedades onde o poder político pode capturar riqueza tendem a redistribuir escassez, não a criar prosperidade.
“Do vasto aumento no bem-estar de centenas de milhões de pessoas ao longo dos 200 anos da Revolução Industrial, praticamente nada pode ser atribuído à redistribuição direta de recursos dos ricos para os pobres” (Heath, 2022).
Sim, esta frase pode ser, para muitos, no mínimo, desconfortável. E é precisamente por isso que deve ser levada muito a sério.
Durante décadas, o debate político nas democracias ocidentais foi construído sobre uma ideia moralmente intuitiva: a pobreza existe sobretudo porque a riqueza está mal distribuída. A conclusão implícita parece lógica, quase inevitável, mesmo. Se redistribuirmos mais, a pobreza diminuirá estruturalmente.
O problema é que a história económica real conta uma história bastante diferente e até surpreendente.
Crescimento, e não redistribuição: o padrão histórico dominante
A maior redução de pobreza extrema da história humana não coincidiu com grandes experiências redistributivas. Coincidiu com industrialização, aumento massivo de produtividade, inovação tecnológica e expansão de mercados.
Robert Lucas descreveu este fenómeno de forma direta no seu relatório “The Industrial Revolution: Past and Future” de 2004, referindo que o grande evento económico dos últimos dois séculos foi o crescimento sustentado da produção, não a redistribuição de riqueza existente.
A evidência empírica reforça esta ideia. Dollar e Kraay, por seu turno, mostraram que, em média, quando as economias crescem, os rendimentos dos mais pobres também aumentam, mesmo sem grandes alterações redistributivas diretas (Dollar & Kraay, 2002).
Atenção. Isto não significa que a redistribuição seja inútil, evidentemente. Significa apenas que, historicamente, isso não foi o motor principal da transformação massiva do bem-estar humano como muitos advogam.
O que é que a ciência política acrescenta a este debate?
A discussão pública tende a tratar o crescimento como um fenómeno puramente económico. Mas o crescimento sustentável é, antes de mais nada, um fenómeno político-institucional.
As economias crescem de forma consistente quando certas condições existem, a saber:
– Previsibilidade jurídica
– Separação de poderes
– Proteção de direitos de propriedade
– Baixos níveis de corrupção
– Capacidade administrativa do Estado
– Mercados relativamente abertos
Sem estas condições, o crescimento tende a ser episódico, capturado por elites ou destruído por instabilidade política.
A ciência política comparada mostra-nos um padrão claro: sociedades onde o poder político pode capturar riqueza tendem a redistribuir escassez, não a criar prosperidade.
O erro recorrente: tratar redistribuição como motor primário de progresso
A redistribuição atua sobre a riqueza existente, não cria riqueza nova.
Quando as economias crescem, a redistribuição pode acelerar a redução de desigualdades e suavizar choques sociais.
Quando as economias estagnam, a redistribuição tende a transformar-se em competição política por recursos fixos. Neste cenário surgem padrões bem conhecidos da ciência política:
– Clientelismo
– Captura institucional
– Expansão de dependência fiscal
– Polarização política
– Conflito distributivo permanente
Não porque os atores sejam moralmente piores mas porque os incentivos estruturais mudam.
A dimensão comportamental que raramente entra na discussão
Há ainda uma dimensão que raramente entra no debate público: a natureza humana.
Os seres humanos não evoluíram para viver em abundância permanente. Evoluíram para competir por recursos escassos.
Quando os sistemas produzem crescimento, a competição social desloca-se para a produção, inovação e mobilidade económica.
Quando os sistemas produzem estagnação, a competição desloca-se para a redistribuição política e captura de recursos institucionais.
Isto não é cinismo. É pura teoria de incentivos aplicada a sistemas humanos reais.
O mito confortável e a realidade histórica
O mito confortável é simples, traduzido na ideia de que a pobreza existe porque os ricos têm demasiado.
A realidade histórica é, contudo, mais complexa e menos emocionalmente satisfatória: a maior redução de pobreza da história humana coincidiu com a maior expansão de produção, tecnologia e mercados da história humana.
Ignorar isto não torna as sociedades mais justas. Torna-as apenas mais vulneráveis a soluções politicamente sedutoras, mas estruturalmente frágeis.
A pergunta que realmente interessa
O debate sério nunca foi crescimento ou redistribuição.
O debate sério é outro: que sistemas políticos e económicos conseguem simultaneamente criar riqueza, manter estabilidade institucional e reduzir desigualdades sem destruir os incentivos que criam prosperidade?
Esta é a pergunta difícil.
E é também a única que interessa.
E é isto.