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(A) :: A TAP Azul

A TAP Azul

Enquanto a TAP voa com as dívidas dos outros, Portugal espera na fila, como sempre esperou, pelo último estadista que partiu e por nenhum que tenha vindo.

João Antas de Barros
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Chegou a novidade, a TAP deve dinheiro à Azul. Uma dívida nova, fresquinha, reluzente na sua impudência, a somar ao generoso catálogo de dívidas que a companhia vai acumulando com a devoção metódica de quem faz colecção de selos raros, só que em vez de selos são milhões, e em vez de um álbum é o Orçamento do Estado. Parabéns a todos. Mais um credor, mais uma linha no balanço, mais um episódio deste folhetim de luxo pago, como sempre, pelo suado contribuinte português, esse ser anónimo, resignado e eternamente generoso a quem nunca ninguém pediu opinião sobre o assunto.

Porque a TAP não escolhe os seus credores ao acaso. Há uma certa poesia na escolha da Azul, uma companhia brasileira, fundada por um empresário que percebe de aviação como negócio, não como ideologia. A ironia é maravilhosa, enquanto Portugal usa o dinheiro público para sustentar uma empresa que não consegue pagar as suas dívidas a privados, esses mesmos privados aguardam, pacientemente, na fila dos credores, ao lado dos bancos, dos fornecedores, dos trabalhadores despedidos e de uma lista crescente de entidades que fizeram o erro fundamental de confiar que a TAP pagaria o que devia. Spoiler, não pagou.

Porque é preciso dizê-lo com clareza e sem anestesia, a TAP não é uma companhia aérea. Nunca foi verdadeiramente uma companhia aérea, pelo menos não no sentido em que companhias aéreas existem para gerar valor, transportar pessoas com eficiência e,  conceito aparentemente subversivo em Portugal, dar lucro. A TAP é uma filosofia. A filosofia de que o dinheiro público não tem dono, de que o Estado é um poço sem fundo, de que os prejuízos são sempre socializados com elegância e sem cerimónia, e de que a empresa existe, acima de tudo, para satisfazer as necessidades de quem a gere, sejam elas de emprego, de influência, de rotas convenientes ou de contratos generosos com consultoras amigas. Os lucros, claro, quando existem, e existem raramente como miragens no asfalto quente, são assunto de outro departamento.

Os números falam, embora ninguém em Lisboa pareça ter pressa de os ouvir. Ao longo das últimas décadas, a TAP consumiu em apoios, injecções de capital, garantias estatais e resgates sucessivos um montante que, se fosse aplicado em hospitais, escolas ou infraestruturas, teria transformado este país de forma irreversível. Mas não, esse dinheiro foi para uma companhia que continua a acumular dívidas com a regularidade de um relógio suíço, o único mecanismo, na TAP, que funciona com precisão.

Houve, porém, um momento de lúcida sanidade neste país. Um instante breve, quase improvável, em que alguém em São Bento olhou para os números sem óculos cor-de-rosa, olhou para o futuro sem o filtro da conveniência partidária e disse, simplesmente, ”chega disto”. O governo de Passos Coelho privatizou a TAP, resolveu o assunto com a determinação de quem sabe que governar não é gerir a impopularidade do momento, mas construir as condições para que o futuro seja sustentável. Entregou o problema a quem soubesse o que fazer com ele, ou seja, ao mercado, ao capital privado, a quem arrisca o seu próprio dinheiro e não o de outrem. Portugal respirou, o contribuinte ficou aliviado, e a TAP tornou-se, finalmente, um problema de adultos que aceitam o risco e a responsabilidade que dele decorre.

Era uma decisão corajosa, e precisamente por isso era impopular nos círculos certos. Privatizar a TAP era atacar um símbolo e, em Portugal, os símbolos valem mais do que os balanços. A bandeirinha na cauda do avião, a ligação às ex-colónias, o prestígio imaginado de ter uma companhia de bandeira, tudo isso pesa mais, na retórica da esquerda sentimental, do que os milhões drenados às gerações futuras. Passos Coelho fez o que era certo, não o que era popular. Distinção que, nos dias que correm, parece ter caído completamente em desuso.

A reversão da privatização da TAP não foi uma decisão de governação, foi uma transacção, o preço da sobrevivência política num parlamento hostil e o bilhete de ida para o poder, pago com o dinheiro de quem não estava na sala a negociar. O PS, faminto de poleiro e desesperado por parceiros que o sustentassem no governo, vendeu-se à esquerda sectária com a naturalidade serena de quem sabe que o cheque é do povo e a conta nunca chega ao jantar. O Bloco de Esquerda queria, o PCP exigia e Costa, calculista supremo, taticista de primeira água, entregou a TAP como se fosse um brinquedo envolto em papel de seda, com laço vermelho, naturalmente, sem olhar para o custo que isso representava para o país.

É um exercício fascinante imaginar a conversa. Em algum gabinete sombrio, rodeado de assessores e de silêncios carregados, Costa terá feito as contas. A TAP como moeda de troca, a nacionalização como símbolo de rendição ideológica suficientemente forte para manter a geringonça coesa. O contribuinte? Esse não estava na equação, o contribuinte raramente está. O contribuinte é apenas quem paga, nunca quem decide.

O resultado chegou com a pontualidade que a TAP nunca soube ter nos seus voos. Milhões em resgates, reestruturações anunciadas com pompa e executadas com incompetência. Consultores contratados a preços astronómicos para produzirem relatórios que outros consultores, ainda mais caros, viriam depois criticar. Demissões de trabalhadores que tinham a ingenuidade de pensar que a empresa existia para voar e não para alimentar o ecossistema de influência que a rodeia. Rotas cortadas, slots perdidos, reputação destruída. E agora, com a graça habitual de quem não aprende porque não precisa de aprender, uma dívida à Azul. Uma companhia brasileira, porque a TAP, até nos credores, mantém o seu indefectível cosmopolitismo lusófono.

Entretanto, cá fora, alguém governa? Governa-se. À vista, com o radar desligado, o altímetro avariado e o piloto automático programado exclusivamente para o ciclo eleitoral. Os estadistas, esses seres raros que pensavam o país em décadas e não em sondagens, foram substituídos por gestores de percepção, especialistas em fotografia de rua, mestres do comunicado de imprensa e virtuosos da declaração vaga que compromete o mínimo e promete o máximo. O país é administrado por taticistas de horizonte curto, rodeados de sicários políticos que transformaram a lealdade numa profissão remunerada, a visão numa fraqueza a esconder e a coragem numa excentricidade de outros tempos.

Fala-se muito de liderança por estas paragens. Conferências sobre liderança, livros sobre liderança, podcasts sobre liderança e quanto mais se fala de liderança, mais evidente se torna a sua ausência. O último homem que governou Portugal com o olhar posto no horizonte longo, disposto a pagar o preço político das decisões certas, foi descartado pela máquina partidária e substituído por uma sucessão de gestores do imediato, cada um mais habilidoso que o anterior na arte de parecer sem ser, de prometer sem cumprir e de governar sem liderar.

E o país?

O país ficou em terra, sem bilhete, sem destino, sem nome no painel de embarque.

Enquanto a TAP voa com as dívidas dos outros, Portugal espera na fila, como sempre esperou, pelo último estadista que partiu e por nenhum que tenha vindo.

O voo está atrasado, sem previsão de chegada…