Nos tempos de um dos maiores impérios da história da humanidade, Lisboa tinha um papel muito importante. Quando ainda era Olisipo, era o principal porto atlântico do Império Romano. A Baixa Pombalina estava coberta pelas águas do Tejo, a península de Troia ainda era uma ilha e a salga do peixe era estritamente proibida dentro das muralhas da atual capital, por causa do cheiro — apesar de ser a principal exportadora de garum, o molho resultante deste processo, para o resto do Império.
Mas apesar da registada importância estratégica desta pequena cidade, não existem registos significativos sobre o quotidiano de Olisipo, à exceção de algumas peças de um puzzle que ainda estava por montar. Partindo de um artefacto que entretanto desapareceu, o professor André Simões procurou contar a história da família Cássio a partir de um casal que viveu mesmo na então cidade portuária.
Em “Lusitânia”, o investigador em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa relata a vida de uma de várias famílias da alta sociedade na Lisboa romana umas décadas antes do nascimento de Jesus Cristo. Numa narrativa intercalada com alguma ficção, André Simões acompanha o percurso de Marco Cássio Arriano, o pai, pelo Fórum de Olisipo e na sua rotina diária, as tendências da moda seguidas por Árria Avita, a mãe, mas também o nascimento e crescimento dos imaginados três filhos dos casal: Quinto Cássio Arriano, Cássia Arriana e Gaio Cássio Arriano (bem como uma explicação da habitual nomenclatura romana).
Em conversa com o Observador, André Simões explica que consultou as (poucas) fontes históricas que existiam para recuar dois milénios para uma época em que a taxa de mortalidade infantil era extremamente elevada, a educação era reservada aos mais influentes e em que se podia trabalhar legalmente a partir dos cinco anos. E apesar de todas as diferenças que marcam a sociedade olisiponense da lisboeta dos dias que decorrem, muitos valores mantiveram-se ao longo dos anos.

“É fascinante. Lisboa parece uma espécie de lasanha: camada sobre camada sobre camada”
Quem são os Cássios e porque sentiu que a história desta família olisiponense era digna de ser contada?
Nós não sabemos muito sobre eles. Sabemos que havia uma série de famílias importantes em Lisboa, naquela altura, em Olisipo, e que os Cássios, alguns deles, eram de facto importantes. Quando se tratou de escolher uma personagem para o livro, ou um grupo de personagens, a ideia era que fosse alguém que tivesse realmente existido. Pensei nos mais conhecidos nomes de Lisboa e surgiram os Cássios por causa de umas termas que se encontraram não há muito tempo. Um desses Cássios existe, que é a personagem principal [Marco], e existiu de facto. Sabemos que, em tempos, existia uma lápide que se perdeu, entretanto, com uma menção à sua mãe, portanto, sabemos que a mãe também existe. O resto eu acabei por inventar um bocadinho. Partindo daquilo que nós sabemos que era a vida em Lisboa naquela época e as ocupações de famílias aristocratas — como seria o caso dos Cássios que vieram de Roma —, fui tentando reconstruir ao máximo partindo de alguns dos personagens reais.
E logo no início faz a reconstituição daquilo que seria o centro da cidade e a zona onde os Cássios viveriam. Atualmente, um apartamento naquela zona perto da Sé e do Teatro Romano, onde diz que os Cássios tinham a sua casa, custa cerca de um milhão de euros. Naquela época, como é que estaria o mercado de habitação de Olisipo?
Não sabemos. Lisboa tem um problema, é uma cidade que foi sendo destruída ao longo dos séculos. Foi sendo destruída, reconstruída, umas coisas por cima das outras. Infelizmente não sabemos muito. Aposto que não seria tão caro, mas é preciso também não esquecer que era uma das principais cidades aqui no ocidente do Império. Não era a mais importante da Península, mas era uma das mais importantes, e que era o principal porto atlântico do Império Romano. Por isso, certamente não seriam casas baratas — embora a especulação imobiliária já existisse em Roma.
Lisboa foi vítima de múltiplos incêndios e terramotos que obrigaram à reconstrução sucessiva da cidade, mas ainda há alguns vestígios da época romana espalhados por essa zona, certo? O que é que se mantém que permite ainda contar esta história?
Existem umas ruínas muito interessantes na Rua dos Correeiros, na Baixa, num sítio chamado Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros. Para quem não foi ainda, recomendo vivamente. Aí é fascinante. Lisboa, de facto, parece uma espécie de lasanha. Camada sobre camada sobre camada. Nós conseguimos ver, nessas ruínas, que são interessantíssimas, vestígios arqueológicos e camadas que vão desde a fundação da cidade, dos primeiros povoados até o século XIX. E, entre essas ruínas, encontramos muita coisa romana. Encontramos mosaicos, cerâmica, tanques de salga de peixe, que eu também falo no livro. Também naquela zona temos o famoso criptopórtico, que abre apenas duas vezes por ano. São umas galerias subterrâneas que, durante muito tempo, as pessoas diziam que eram as Termas da Rua da Prata, mas nós sabemos que não seriam as termas, seria provavelmente uma estrutura subterrânea para apoiar edifícios que estariam construídos por cima. E depois, na Casa dos Bicos, podemos ver alguns mosaicos romanos, mais alguns tanques de salga de peixe, que era, de facto, a principal indústria da Lisboa nesta época.

E dentro da cidade, na sua descrição da vida olisiponense há mais de dois mil anos, fala sobre a presença de graffitis nas paredes. Tratando-se de pinturas urbanas que, na maioria das ocasiões, tinham algum tipo de caráter político, é seguro afirmar que existiu uma espécie de Banksy romano?
De certeza, mas provavelmente não com a mesma arte. Em Lisboa, tanto quanto sei, não se encontrou nada de significativo. Agora, em Roma, na zona do Coliseu, e, sobretudo na cidade vulgarmente conhecida como Pompeia, aí tem-se encontrado milhares de grafitti. Milhares, mesmo. E tanto podem ser frases isoladas, como podem ser bonecos. Uma imagem suave, adorada, desenhada. E outras coisas menos próprias para a nossa atualidade contemporânea.
O livro começa com o regresso de Marco Cássio, o pai da família, desde uma outra casa em Salácia (Alcácer do Sal), traçando o percurso que tem de fazer até casa — incluindo a tal descrição dos odores vindos da salga do peixe. A certa altura, pára numa taberna ao pé de casa para pedir “uma malga com enchidos de porco e vinho diluído em água”. Quanto é que isto custaria na altura?
Não seria muito caro, porque existem listas de preços. Sabemos para outras cidades, porque Lisboa não foi explorada, mas não havia muita diferença. Em Pompeios [nome da cidade de Pompeia], existem listas desse género e era relativamente barato. Aliás, as pessoas que viviam em prédios de habitação, as insulae — não estamos a falar de apartamentos à maneira moderna, era uma habitação que, geralmente, só tinha uma divisão — para se alimentarem, tinham de recorrer a este tipo de estabelecimento. Era o equivalente às nossas tabernas.
Então era um local onde havia uma grande mistura das diferentes classes sociais?
Sim, sim, certamente. Mas nós não temos essas informações muito concretas sobre Olisipo. Conseguimos ter informações muito mais ricas para as cidades itálicas, porque aí temos uma riqueza arqueológica que é incomparável. Lisboa já é uma cidade bastante reconstruída. E, além do mais, não temos propriamente fontes literárias que nos digam como é que as coisas funcionavam. E essa foi uma das razões, aliás, porque no livro eu decidi imaginar — porque também não sabemos se isso era verdade ou não — que os Cássios eram uma família que tinha chegado de Roma há duas gerações. É muito difícil ter informação sobre esta realidade. Já é mais fácil saber ou supor sobre uma família que ainda traria toda uma série de rituais, de hábitos culturais, e até a própria língua.
Refere que, tal como hoje em dia, os verões olisiponenses eram muito quentes e que Marco se abrigava do calor no seu peristylium (pátio exterior romano). Mas e o resto da população que não tinha acesso a este luxo, havia infraestrutura para isso?
Havia certamente espaços públicos em Lisboa, e sabemos que existiam sítios frescos. Por exemplo, na zona do Teatro Romano, havia galerias por onde as pessoas podiam passear normalmente cobertas com vegetação; uma espécie de pérgola. Além de tudo aquilo ser relativamente fresco, era elevado, então, as pessoas levavam ainda com a brisa do Tejo e poderiam refrescar-se. Havia também — apesar de ainda não terem sido encontrados cá —aquilo que os romanos chamavam pórticos, uma espécie de jardins encerrados, onde as pessoas, muitas vezes as mulheres até, podiam andar com alguma liberdade. Aposto, também, de certeza, que iriam para as margens do Tejo. É daquelas coisas que não mudam. Agora, quem tivesse a sorte de ter um peristylium, aproveitaria, com toda a certeza, a sombra das árvores.

“As pessoas muito ricas poderiam ter centenas de escravos”
Em termos de modas, sabemos que partia tudo de Roma e depois ia se alastrando para o resto do Império. Havia alguma moda específica que só existisse nesta margem atlântica do território romano?
Falta-nos essa informação de forma direta, mas não será difícil de imaginar que as modas eram influenciadas por aquilo que acontecia em Roma. Sabiam provavelmente o que acontecia em Roma com algum atraso e seria através da estatuária das mulheres do Imperador ou de outras mulheres da alta sociedade que eventualmente chegavam a Olisipo. [As modas] Também chegavam através das moedas, que representavam as divindades, naturalmente penteadas e apresentadas com a estética contemporânea. Mas acima de tudo, a moda não evoluía com a mesma rapidez que evolui hoje em dia. Não haveria uma moda específica de Lisboa mas uma tentativa por parte da alta sociedade de imitar os modelos que eram vistos através da estatuária, das moedas e por aí fora.
Sabemos que o Marco tem um escravo que o acompanha em todo o seu percurso, depois quando chega a casa é recebido por um outro escravo, depois para cortar o cabelo há um terceiro… Na alta sociedade de Olisipo, quantos escravos é que tinha em média cada família?
As pessoas muito ricas poderiam ter centenas de escravos. Através de uma lei que saiu no tempo do Imperador Augusto que tinha a ver com a possibilidade de libertar escravos por testamento, limitava-se a quantidade de escravos que se podia libertar. E dizia, por exemplo, que uma pessoa que tivesse de um a cinco escravos só podia libertar até metade. Uma pessoa que tivesse de cinco a dez podia libertar não sei quantos, e depois concluía com o intervalo de 101 escravos para cima. Se existe uma legislação neste sentido, é porque era comum as famílias da alta sociedade terem, às vezes, na ordem das centenas de escravos. Há um outro caso de um senador na época de Nero que foi assassinado por um escravo na sua própria casa, e segundo a legislação romana, quando uma pessoa livre da casa morria de forma suspeita dentro da mesma, todos os escravos, mulheres, homens, crianças, estivessem presentes ou não estivessem presentes, eram torturados e mortos. No final da primeira metade do século I depois de Cristo, mais de quatrocentos escravos foram levados para serem executados. Causou muita comichão em Roma, porque as pessoas achavam que não fazia sentido nenhum estarem a matar mulheres e crianças que não tinham nada a ver com aquilo, só porque houve um escravo que matou o homem. Havia escravos especializados: as cozinheiras, aqueles que tratavam das crianças, aqueles que limpavam a casa e, portanto, vamos ser otimistas e pensar à volta dos dez por família.
Como é que eles eram em termos de rotina? Porque menciona que o Marco e os homens vão aos banhos à tarde, as mulheres de manhã, que o jantar era logo a seguir, quando começava a anoitecer… Homens e mulheres tinham sempre horários distintos ou chegavam a encontrar-se durante o dia?
Dependerá do tipo de família. Nas famílias das classes mais altas, as mulheres não trabalham e estão sempre em casa, não têm uma rotina. Aquilo que se espera delas é que tratem da casa, ordenem os escravos, e que façam as preparações necessárias ao nível da gestão da casa. Nas famílias mais pobres, há mulheres e homens a terem uma rotina semelhante. Passava por acordar perto do nascer do sol, tomar o pequeno almoço naquilo que nós chamamos pastelarias — onde se fazia e vendia o pão e outros alimentos do género — e depois iam à sua vida, para o trabalho. No livro, falo sobre a questão dos banhos, que as mulheres iriam de manhã e os homens à tarde, mas no caso das termas dos Cássios, nem temos a certeza disso. É uma hipótese. Nas termas pequenas, como a que falo no livro, não é possível ter banhos separados por género. E não havia banhos mistos, eram sempre separados. O que normalmente acontecia era as mulheres irem de manhã, porque, na mente de um romano, não têm nada para fazer; enquanto os homens têm a sua rotina, o trabalho durante a manhã, as atividades.
E o que é que fazem os homens mais ricos, então?
Gerem as suas lojas, as suas empresas. No caso do Cássio, eu imaginei que teria uma empresa de engarrafamento de azeite e de manhã tratava dos seus negócios. No caso de serem homens muito poderosos, é também de manhã que recebem aquilo a que os romanos chamavam os clientes, que eram pessoas que estavam sujeitas a oportunidades, os seus antigos escravos, ou simplesmente pessoas de um grau social mais baixo e que todos os dias, pela manhã, se dirigiam à casa dos seus patronos, para prestar homenagem, para se colocarem à disposição, para aquilo que fosse preciso. Também vou lembrar Séneca, que diz que a vida é esta: às vezes estão lá os pobres dos clientes, que mal dormiram, com umas olheiras enormes, cheios de frio, porque o sol ainda nem sequer acabou de romper, e lá está o patrono, deitado na cama, de ressaca, não se quer levantar. Depois levanta-se e não sabe o nome de ninguém. Tradicionalmente era à tarde que tomavam os seus banhos. E estas termas são muito mais do que os banhos que tomavam, são muito mais do que um ato de higiene. Aliás, até diria que a parte de higiene é capaz de ser secundária em relação a tudo.
Os banhos são um espaço também para desporto, atividade física e convívio, no geral…
E também para o contacto social, para os homens trocarem contactos, fazerem negócios, tratarem de política e por aí fora. E é preciso não esquecer que era um tempo em que não havia eletricidade, por isso a vida era sempre muito coordenada pelo sol. O jantar era sempre antes do pôr do sol e as pessoas também se deitavam cedo. É uma rotina pouco animada, ou, se calhar, mais saudável do que aquela que nós temos hoje.

E já que falamos dos jantares, há um episódio em que descreve um jantar composto por três momentos, essencialmente: a cena prima, a cena secunda e a cena tertia. Esta era a dinâmica habitual ou reservada apenas para os mais ricos?
Não era [comum], de todo. Mesmo para as famílias grandes, e por isso é que nessa parte do jantar inventei ali uma ocasião. Fazia-se em ocasiões muito especiais, com pelo menos três pratos, com animação, bebidas, jogos e tudo mais. Em casamentos, ou uma festa qualquer religiosa em que as pessoas se juntavam. Não era um dia normal, quando teriam só uma refeição simples, reclinados, tradicionalmente. E isso é que, às vezes, nos faz assim um bocadinho mais de confusão. Eu, pelo menos, acho que não é nada confortável comer reclinado.
E em termos de pratos, sabe-se de algum prato que fosse típico de Olisipo?
Não. Eu aposto no peixe. As referências a Lisboa são mínimas. Há alguns autores que falam de uns enviados que vieram até cá e disseram que tinham visto uma sereia aqui na cidade, que é uma coisa muito engraçada, mas sobre a vida de Lisboa, nos textos literários, não há nada.
“As filhas eram sempre consideradas, pelo menos em teoria, um empecilho”
Voltando então aos Cássios. Existe toda esta formalidade associada à hierarquia familiar: o homem que trabalha, a mulher que gere as operações domésticas, os casamentos que são arranjados. Há alguma forma de saber como eram as interações entre marido e mulher ou entre pais e filhos? Eram relações pessoais próximas, ou sempre algo formal e distante?
Acho que é sempre prudente distinguirmos duas vertentes. Em primeiro lugar, temos aquilo que nós lemos sobre o que deve ser um casamento e a relação entre marido e mulher, e temos uma imagem diferente daquela que encontramos, por exemplo, na literatura epistolar das cartas, onde os maridos falam diretamente com as mulheres. A ideia de como a própria legislação romana considerava as mulheres levar-nos-ia a pensar que se calhar havia ali uma separação um pouco grande, que ela não teria palavra a dizer sobre nada e estaria ali apenas para gerar filhos e para tratar da casa. Mas quando vamos ler os textos de natureza mais pessoal, como as cartas, temos uma imagem um pouco diferente, de dedicação, daquilo a que poderíamos chamar amor até. Não seria o motivo do casamento, mas seria algo que acabaria por nascer com a convivência. Plínio, de quem eu falo bastante, tem duas ou três cartas muito comoventes dirigidas à mulher em que diz: “Não consigo dormir a pensar em ti”, “Ando pela casa e os sítios por onde tu passas trazem recordações e é tão doloroso”, e “Volta, por favor”. Encontrámos outras cartas onde mostra saudade e a dizer que precisa dela num sentido emocional, de conforto emocional. Os casamentos eram combinados entre o pai da mulher e o seu futuro noivo, ou até o pai do seu futuro noivo, e oficialmente, pelo menos o que diz a literatura jurídica, está escrito preto no branco: a filha não tem uma palavra a dizer nem sequer se põe a possibilidade de a mãe poder ter uma palavra a dizer. Mas o que nós encontramos depois nessa literatura mais íntima é um bocadinho diferente. Cícero tem uma carta em que diz, com alguma tristeza, que tinha um casamento combinado para a filha e que ela não gostava do homem que ele lhe tinha dado. A filha e a mãe acabaram por decidir um outro casamento. E Cícero não teve outro remédio que não aceitar.
E a relação entre pais e filhos?
Temos mais testemunhos das relações entre pais e filhos mesmo, e não entre pais e filhas. Encontramos mais uma vez nas cartas, e vou passar mais uma vez a Cícero, uma dedicação grande em relação aos filhos, por continuidade. E aqui a continuidade é também no sentido religioso, por saber que são eles que vão prestar o culto dos antepassados quando morrerem. As filhas não tanto, até porque as filhas eram sempre consideradas, pelo menos em teoria, um empecilho. O pensamento era que importava criar uma filha até aos 12, 13 anos, e depois disso, casá-la. E para casá-la tem de se dar um dote, ou seja, temos de tirar dinheiro que é propriedade, dinheiro que é do pai e que deveria ir para os filhos, e que agora vai ter de ir para casa de outro homem.

O livro explora também o crescimento do primeiro filho do casal, o Quinto. Além de Quinto, há um segundo filho, Tito, que morreu com sete meses. Considerando que quase metade dos bebés morriam antes dos cinco anos, como é que as famílias processavam o luto?
Temos testemunhos indiretos através dos epitáfios. Há alguma teoria, com a qual eu não concordo muito, que diz que se calhar as pessoas não se apegavam tanto às crianças quando eram muito pequeninas, porque a possibilidade de morrerem era muito grande. Eu acho um bocadinho difícil, do ponto de vista humano, que isto acontecesse. Isso poderia explicar o facto de muitas vezes as mulheres da alta sociedade entregarem os filhos a amas, para que os criassem nos primeiros tempos de vida. Custa um bocadinho acreditar, não é? Porque as coisas não mudam, o ser humano não muda. Com certeza que seria terrivelmente doloroso. E também sabemos que havia legislação funerária, que determinava o tempo que uma pessoa podia estar de luto pelos filhos — eram cerca de seis meses. Por outro lado, as pessoas já estavam mentalizadas para isso. O outro problema é que, tradicionalmente, não se dá sepultura às crianças que morrem com poucos meses. Não conseguimos obter, para essas crianças muito pequeninas, os testemunhos que obtemos em alguns epitáfios e que são muito comoventes de pessoas que dizem “Foi-se a luz da minha vida”, por exemplo, para crianças com um, dois ou três anos. A tradição era que as crianças muito pequeninas, os bebés, quando nasciam e morriam pouco tempo depois, eram simplesmente enterradas com uma telha por cima.
Mas é uma questão interessante, porque estava muito presente naquela sociedade a celebração do “dia da purificação” — para as raparigas no oitavo dia após o nascimento, para os rapazes no nono. Quando é que isso deixou de acontecer?
É com a transição para o cristianismo. São cerimónias tradicionais romanas e com a transição para o cristianismo, acabaram por ir morrendo e sendo substituídas por cerimónias cristãs, que, em muitos casos, foram adaptadas. No fim de contas, o batismo é muito parecido, em termos formais, com o que se fazia no dia da purificação [festa para celebrar a entrada do recém-nascido na família e na sociedade]. Até há relativamente pouco tempo, era comum, inclusivamente, oferecer às crianças, no dia do batismo, amuletos também, umas pulseirinhas com umas figas. Eu apostaria que [deixou de se praticar] a partir dos finais do século IV, com o imperador Teodósio, quando ilegaliza as práticas pagãs, apostaria que por aí já se deixasse de fazer.
A história termina com o anúncio da futura emigração do Quinto. Ele que faz todos os passos do trajeto escolar, vai para Roma para continuar a sua educação. O jovem de 17 anos voltou a ver a família depois de partir para Roma?
Eu espero que sim. Imagino que sim. Aliás, terminei assim o livro de propósito para deixar em aberto a possibilidade de eventualmente contar essa história também da vida do mais jovem dos Cássios em Roma, a aprender. No fim de contas, ele vai para Roma para ir para a escola de retórica. E portanto a ideia seria contar um bocadinho como seria essa experiência e depois o regresso a Olisipo — e eventualmente o choque cultural, que se calhar não seria assim tão grande.