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"O problema não foram as renováveis, mas o controlo da tensão". Relatório ao apagão revela falhas no sistema elétrico espanhol

Relatório final revela falhas no controlo do nível de tensão no sistema elétrico espanhol, mas reconhece que nunca antes um fenómeno destes tinha causado um apagão e diz que há soluções para o evitar.

Ana Suspiro
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O problema não foi o excesso de centrais renováveis a produzir energia, mas o controlo de tensão por parte dessas centrais que levou ao colapso da rede elétrica no apagão de 28 de abril.

A mensagem foi repetida várias vezes durante a apresentação do relatório final ao “evento mais grave e sem precedentes” no sistema elétrico europeu. Os peritos da ENTSO-E, associação europeia de operadores de transporte, concluem que o blackout resultou da “interação de fatores múltiplos”. É um fenómeno muito complexo que teve uma causas sem precedentes e que ainda não estão totalmente explicadas.

Esses fatores envolveram uma combinação de flutuações de tensão e fenómenos de oscilação que desencadearam o disparo generalizado de várias centrais de produção em Espanha, sobretudo de unidades renováveis, o que gerou uma cascata de desconexões e culminou na perda de sincronismo do sistema ibérico.

Não obstante, o relatório final à investigação reconhece que a “crescente penetração de energia renovável variável e de produção descentralizada” é um dos fatores que contribui para condições de operação mais desafiantes que exigem níveis mais elevados de resiliência. Espanha tem uma das incorporações de produção renováveis mais altas da Europa e à hora do apagão, eram sobretudo as centrais eólicas e solares que estavam a alimentar a rede, o que também permitia exportar grandes quantidades de energia para Portugal e França.

O relatório independente dos operadores de rede europeus aponta para falhas no controlo de sobretensão do sistema elétrico espanhol a vários níveis. Essas falhas vão das centrais renováveis, para as quais não foi estabelecida a obrigação de fornecer o controlo de tensão à rede, a algumas das centrais convencionais cujas configurações foram definidas abaixo dos limites de tensão estabelecidos.

https://observador.pt/2025/10/03/apagao-resultou-de-fenomeno-local-no-sul-de-espanha-investigadores-defendem-controlo-de-tensao-em-todas-as-centrais/

O problema teve origem local, mas nunca antes um fenómeno desta natureza tinha provocado um impacto sistémico em toda a rede, com os investigadores a sublinharem que a cadeia de eventos que transformou um problema local num problema ibérico se desenrolou a uma enorme velocidade. O que acabou por minar a capacidade de resposta do sistema, que passou a operar de uma forma diferente face ao que estava planeado.

Evitando apontar diretamente à Rede Elétrica de Espanha, os peritos fazem recomendações para todos os intervenientes do sistema elétrico que “precisam de mudar o seu comportamento”, desde os operadores da rede de transporte e distribuição até aos produtores.

Uma das situações já identificadas como estando na origem das oscilações de tensão foram os disparos de produção verificados nas centrais eólicas e solares de Segóvia, Huelva, Badajoz, Sevilha e Cáceres, num total de 928 MW, que ocorreram devido à proteção contra a sobretensão. Os peritos não conseguiram determinar a causa da maioria destes disparos, mas a análise realizada permite concluir que as configurações de proteção contra sobretensão em algumas unidades de geração foram definidas abaixo dos limites de tensão estabelecidos, de acordo com os requisitos aplicáveis.

E uma das mudanças mais evidentes é a necessidade de dotar as centrais renováveis de sistemas de controlo de tensão, o que não era exigido em Espanha. “Temos tecnologia para resolver o problema. Sabemos como controlar a tensão” na rede elétrica, sublinhou Damian Cortinas, o presidente do conselho da ENTSO-E.

Os fatores que contribuíram para o fenómeno

Os investigadores destacam como um dos fatores a baixa margem dada pelos limites de tensão permitido pela rede de transporte espanhola, que são mais altos do que os praticados em Portugal e na generalidade dos países europeus. Esses padrões “explicam a margem mínima ou nula entre os valores máximos de operação e os valores a partir dos quais os geradores se desligam”, indica a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).

A ERSE elenca as outras circunstâncias que  “condicionaram negativamente a evolução dos valores de tensão na rede em Espanha”

  • Existência de reatâncias shunt desligadas, cuja operação manual requer um tempo mínimo de atuação;
  • O regime de gestão de potência reativa aplicável à maioria da produção de fonte renovável (não incluindo a grande hídrica) no sentido de manter um fator de potência fixo insensível ao valor da tensão na rede;
  • O desalinhamento do controlo de tensão prestado pelos geradores síncronos (centrais térmicas convencionais e hídricas) face aos requisitos regulamentares aplicáveis, nomeadamente atingindo os valores de potência reativa definidos em menos de 75% do tempo;
  • A não definição explícita dos requisitos dinâmicos de controlo de tensão do procedimento regulamentar aplicável e não aplicabilidade de penalidades por incumprimento dos requisitos mínimos;
  • O desalinhamento dos processos de controlo de tensão em redes privadas de geradores, de interligação à rede de transporte, com as necessidades do sistema, que levou a casos de interrupção intempestiva de geradores.

Outro dos fatores assinalados foi o contributo do trânsito de potência entre transporte e distribuição, que foi afetado pela “participação em serviços de sistema de geradores ligados na rede de distribuição, e, com maior impacte, ao disparo de uma parte dos geradores dispersos na rede de distribuição associada a sobretensões e ao comportamento das cargas perante subidas do valor da tensão. Esta alteração dos trânsitos contribuiu para o acréscimo do perfil de tensões na rede de transporte”, refere a ERSE.

Há ainda uma chamada de atenção para o comportamento de milhares de pequenas unidades renováveis ligadas à rede, sobretudo painéis fotovoltaicos, que podem ter contribuído para o fenómeno de excesso de tensão que levou outras centrais de maior dimensão a desligarem-se automaticamente, agravando o problema de estabilização das redes.

Quanto ao restabelecimento, o painel de peritos identificou várias questões que afetaram o processo, destacando dificuldades na entrada em funcionamento das unidades de arranque autónomo (centrais de blackstart) ou na manutenção de ilhas elétricas estáveis. Este problema foi sentido em Portugal. Também foram apontados problemas com os sistemas de comunicação por voz de vários operadores de rede e dos grandes clientes, sendo uma das recomendações assegurar a autonomia das comunicações durante pelo menos 24 horas.

ERSE vai “indicar o caminho a seguir em relação às compensações”, diz ministra

Face aos resultados do relatório, cabe agora ao regulador avaliar consequências, como eventuais compensações, disse a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho.

“Este relatório confirma que as autoridades nacionais portuguesas não são responsáveis nem causadoras do apagão”, afirmou, em declarações aos jornalistas citadas pela agência Lusa, sublinhando que “todas [as causas] estão fora de Portugal”.  A governante destacou que o relatório é “independente” e “não é um relatório de apurar culpados”, mas sim de identificação de causas.

“Este era o primeiro passo. O primeiro passo era perceber tecnicamente o que é que se passou. Agora é o momento de […] o regulador nacional, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), fazer a sua avaliação e indicar o caminho a seguir em relação às compensações”.

(Atualizado às 15h35 com as declarações da ministra do Ambiente)