Foram cinco décadas ao serviço do futebol, foram cinco décadas em que o futebol foi sempre mais do que um “serviço”. Silvino Louro, ou apenas Silvino, deixou de vez os relvados em 2021 quando teve uma passagem pelo Sudão mas o futebol nunca o deixou – e foi por isso que, até ao ano passado, ia recebendo sondagens de países de latitudes tão distintas como Bolívia, Egito, Marrocos ou Arábia Saudita. Por uma ou outra razão, foi recusando todos. Um a um. Ainda assim, nunca ninguém se esqueceu daquele que foi um dos guarda-redes mais carismáticos que passaram pela Seleção nas últimas décadas, sempre com mais uma história por contar, com mais um elogio por fazer ou com mais uma distinção para recordar. Aos 67 anos, não resistiu a uma doença oncológica e acabou por morrer na cidade de Setúbal, onde tudo começou há cinco décadas.
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Esse era apenas um dos pontos em comum que tinha com José Mourinho, técnico com quem trabalhou ao longo de quase 20 anos em alguns dos maiores clubes da Europa. Ainda esta quinta-feira, a propósito do Dia do Pai, o atual treinador do Benfica confidenciava a Rui Miguel Tovar a estreia ligação com o antigo guarda-redes. “Um dos meus melhores amigos, um daqueles amigos por quem eu faço tudo, é o Silvino, que é uma pessoa verdadeiramente fantástica. Dizia sempre: dois guarda-redes rivais, em que joga um e depois joga outro, um é suplente se o outro joga, um vai à Seleção se jogar e outro já não vai e serem tão amigos têm de ser dois gajos verdadeiramente especiais. Quando o Neno partiu, o Silvino sofreu muito e eu, sem ser muito amigo do Neno, aprendi a gostar muito dele via Silvino”, recordava em entrevista à Rádio Renascença.
Na última deslocação dos encarnados a Madrid, e quando muitos achavam que existia algum tipo de despiste ou desvio de atenções, Mourinho saiu duas vezes do hotel onde estava concentrada a equipa para visitar um amigo que se encontrava hospitalizado em Madrid. Era Silvino, o amigo que continuava a assegurar a tudo e todos sempre que falava que o Special One ainda tem muitos títulos para ganhar no futebol. Agora, não estará cá para ver. E com o mesmo abalo que sentiu as partidas de companheiros como Neno e Bento ou “rivais” de clube mas amigos de Seleção como Vítor Damas, muitos sentem agora o seu desaparecimento.
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Formado no V. Setúbal, o seu clube do coração que lhe viria a inspirar também o equipamento preferido – o verde, que se confundia com a relva para baralhar os adversários mas que era também a sua homenagem aos sadinos onde começou a carreira –, Silvino teve a sua primeira grande mudança da carreira quando troca os vitorianos pelo V. Guimarães em 1982. A aposta de Pimenta Machado naquele jovem guarda-redes em final de contrato foi acertada, com uma lesão de Manuel Bento a abrir-lhe as portas da Seleção A quando estava ainda nos minhotos em 1983. Empatou a zero com a Hungria, perdeu com uma goleada frente ao Brasil, só voltou a ser titular na equipa nacional cinco anos. Entretanto, muito tinha mudado na sua carreira.
Depois de duas épocas nos vimaranenses, Silvino é aposta do Benfica. Primeiro ano, ano zero: em 1984/95 não realiza qualquer jogo tendo a concorrência de Bento e Delgado. Segundo ano, ano menos um: pediu para ser emprestado ao Desp. Aves pela falta de minutos que iria adensar-se pelo regresso de Neno à Luz. Terceiro ano, ano um, dois e três num só: a partir de 1986/87, ano em que foi campeão nacional, fez a dobradinha mas esteve onde ninguém gostaria de estar nos 7-1 sofridos em Alvalade (então vestido de azul com as meias todas vermelhas), consolidou-se como o número 1 da baliza dos encarnados, algo que só deixou de ser verdade universal a partir de 1990/91 quando foi perdendo esse protagonismo com a ascensão de Neno.
Silvino saiu da Luz a fazer de plantéis dos encarnados que não só conquistaram oito títulos nacionais entre quatro Campeonatos, três Taças de Portugal e uma Supertaça mas também aqueles que estiveram nas duas últimas finais do Benfica na Taça dos Clubes Campeões Europeus, com derrotas nos penáltis frente ao PSV em 1988 (e ele, que por ver sempre o Domingo Desportivo com toda a atenção, ia decifrando os “truques” de quem batia as grandes penalidades…) e pela margem mínima diante do AC Milan em 1990. Regressou ao V. Setúbal em 1994, altura em que parecia apostado em ter um final de carreira mais “tranquilo”, mas voltou a fazer as malas um ano depois para rumar ao Norte, quando uma curta chamada de Pinto da Costa conseguiu convencê-lo a fazer ainda duas temporadas no FC Porto, primeiro com Bobby Robson (e os adjuntos Inácio e… Mourinho) e depois com António Oliveira. Mais dois Campeonatos, mais uma Supertaça.
Acabaria a carreira em 1999/00 no Salgueiros mas, antes, conseguiu ainda uma época ao mais alto nível no Vidal Pinheiro que lhe reabriu as portas da Seleção mesmo tendo à frente outro “monstro” das balizas que viria depois a treinar chamado Vítor Baía, sendo o guarda-redes da formação então comandada por Artur Jorge que empatou a um na Alemanha no jogo do célebre vermelho por acumulação a Rui Costa na altura da substituição e que bateu a Irlanda do Norte por 1-0, naquela que foi a 23.ª internacionalização. Portugal foi o seu último grande “desafio”, Portugal tornou-se o primeiro passo de um novo “desafio”, fazendo parte da equipa técnica liderada por António Oliveira e começando a trabalhar, a partir de 2001/02, como treinador de guarda-redes de José Mourinho no FC Porto. A partir de 2002, focou-se somente nos dragões.
Até ao final da passagem pelo Manchester United, Silvino trabalhou sempre com o conterrâneo de Setúbal em todos os projetos entre dragões, Chelsea (duas vezes), Inter, Real Madrid e red devils, naquela que foi a época com mais conquistas de Mourinho: duas Liga das dos Campeões, duas Taças UEFA/Liga Europa, dois Campeonatos de Portugal, uma Taça de Portugal, uma Supertaça de Portugal, três Premier, uma Taça de Inglaterra, quatro Taças da Liga inglesas, duas Supertaças de Inglaterra, duas Series A, uma Taça de Itália, uma Supertaça de Itália, uma Liga espanhola, uma Taça do Rei de Espanha e uma Supertaça de Espanha. Tudo com o Mãozinhas, como também era conhecido, a trabalhar de forma diária com alguns dos principais nomes das balizas mundiais, casos de Vítor Baía, Petr Cech, Júlio César ou Casillas, entre outros.
“Futebol português perde uma figura consensual, maior do que os clubes”
“Silvino Louro foi mais do que um guarda-redes. Foi um dos jogadores mais carismáticos do futebol português nas décadas de 80 e 90. Quando deixou de jogar, transportou toda a paixão para o treino de guarda-redes, onde assumiu papel de referência. Treinou alguns dos melhores guarda-redes do mundo. Mais do que o jogador e treinador, o futebol português perde uma figura consensual, maior do que os clubes. Um homem bom, que contagiava todos com boa disposição”, salientou Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, já depois de uma nota do órgão a destacar o trajeto do ex-guarda-redes.
“O Sport Lisboa e Benfica manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Silvino, antigo guarda-redes do clube e da Seleção Nacional, figura marcante de uma geração que muito honrou o emblema ao peito. Silvino representou o Benfica ao longo de nove épocas, somando 330 jogos oficiais e contribuindo de forma decisiva para a conquista de seis troféus: quatro Campeonatos Nacionais (1986/87, 1988/89, 1990/91 e 1993/94), uma Taça de Portugal (1986/87) e uma Supertaça (1988/89). A sua dedicação, profissionalismo e qualidade entre os postes deixaram uma marca indelével na história do clube. Mais do que os títulos e os números, ficará para sempre a memória de um atleta que serviu o Benfica com compromisso, paixão, orgulho e espírito de equipa, elevando os valores que definem o clube”, destacaram também os encarnados.
“O FC Porto recebeu com muita consternação a notícia da morte de Silvino Louro, antigo atleta e treinador de guarda-redes do clube. No seu percurso, destacou-se não apenas pelo conhecimento e competência técnica, mas também pela lealdade, sentido de compromisso e espírito de equipa que sempre pautaram a sua ação. Respeitado por todos os que com ele trabalharam, Silvino deixa a imagem de um profissional íntegro e de um homem de valores firmes, cuja presença nos balneários e nos relvados ficará na memória coletiva do clube”, salientaram os dragões. “Foi com profunda tristeza e pesar que recebi a notícia do falecimento do Silvino. Partilhámos momentos profissionais e pessoais que vou guardar com saudade. Era uma pessoa dócil e gentil, companheiro e amigo. Despedi-me dele recentemente e revi o seu sorriso mesmo quando a doença o atraiçoou. Um homem singular”, acrescentou o líder André Villas-Boas.
“É com imensa dor, profunda tristeza e o coração pesado, que a Direção do Vitória FC lamenta o falecimento de Silvino Louro, homem da nossa terra e nome maior da história vitoriana. Vestiu pela primeira vez a nossa camisola nos iniciados, dando início a um percurso marcado por enorme dedicação ao nosso clube. Defendeu as nossas cores durante sete épocas consecutivas, até 1982, regressando mais tarde, na época 1994/95. Ao serviço do nosso clube, realizou 101 jogos, deixando uma marca de entrega, qualidade e paixão pelo emblema que trazia ao peito. A sua carreira levou-o ainda a representar a Seleção Nacional por 23 ocasiões, um feito que muito honra o nosso clube e a nossa cidade. Hoje despedimo-nos de um dos nossos, de um vitoriano de alma inteira, que será para sempre recordado com carinho, respeito e gratidão. Até sempre, ‘Mãozinhas'”, escreveu também o conjunto sadino, recordando os primeiros passos que teve na carreira.
“Vinte e três vezes internacional por Portugal, representou o Vitória Sport Clube entre 1982 e 1984, tendo somado 57 jogos oficiais pelos Conquistadores. Em duas épocas, ficou associado a um quarto lugar no principal Campeonato português e à presença nas meias-finais da Taça de Portugal. Ao longo da sua carreira de futebolista, conquistou seis campeonatos, três Taças de Portugal e duas Supertaças, abraçando depois o cargo de treinador de guarda-redes, passando por FC Porto, Chelsea, Inter de Milão, Real Madrid e Manchester United”, recordaram os minhotos, numa nota publicado no site oficial do clube.
“Fomos surpreendidos com a triste notícia do falecimento do Silvino Louro. Quero neste momento muito difícil prestar, em nome de toda a equipa do Sindicato dos Jogadores, uma sentida homenagem e destacar a elegância, a simpatia e generosidade com que o Silvino sempre presenteou todos os que com ele tiveram a oportunidade de privar. O Silvino deixou a sua marca no futebol português e mundial, como jogador e treinador de guarda-redes, tendo integrado durante vários anos a equipa técnica de José Mourinho, trabalhando em clubes de topo mundial como o Real Madrid, Chelsea, Inter e Manchester United, entre outros”, apontou também Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores.