Há quatro anos, um grupo de sete polícias arrombou a porta da casa do rapper Afroman para fazer buscas, numa investigação sobre suspeitas de tráfico de drogas e sequestro que não levou a nenhuma acusação. O que aconteceu a seguir transformou-se num processo inédito: o músico pegou na situação para fazer músicas e videoclipes sobre os polícias e as buscas, foi processado pelos agentes por difamação mas acabou mesmo por ganhar o caso em tribunal.
Recuando no tempo: Afroman, cujo nome verdadeiro é Joseph Foreman e que é sobretudo conhecido pelo êxito “Because I got high”, lançado em 2000, não gostou de ver as consequências da operação policial realizada em 2022 em sua casa, em Cincinatti (estado do Ohio), durante a qual diz que os polícias partiram o portão e a porta de casa, roubaram 400 dólares (345 euros) e revistaram os seus sapatos e bolsos dos fatos. Além disso, o processo foi “traumático” para os seus filhos, então com 10 ou 12 anos, argumenta, em declarações citadas pela CBC.
E o que decidiu fazer, como resposta, foi música: Afroman pegou nas imagens das câmaras de vigilância de sua casa e fez uma série de músicas, com os correspondentes videoclipes, que somam mais de quinze milhões de visualizações no Youtube. Um deles, chamado “Lemon Pound Cake”, mostra um agente a olhar de soslaio para um bolo de limão em cima do balcão da cozinha do artista. (“O xerife arrombou a minha porta/Depois ouvi o vidro a partir-se/Não encontraram vítimas de rapto/só um bolo de limão/O bolo de limão da mãe/Sabe tão bem/Fez o xerife querer pousar a arma/E cortar uma fatia).
https://www.youtube.com/watch?v=9xxK5yyecRo&list=RD9xxK5yyecRo&start_radio=1
Já na música “Will you help me repair my door?” (“Vão ajudar-me a consertar a minha porta?”), o rapper frisa que os polícias não encontraram nada nas buscas, acusando-os também de desligarem a certa altura as câmaras de vigilância e sugerindo que levaram dinheiro de sua casa. “O mandado dizia ‘narcóticos e raptos’/Estão a brincar? Ganho o meu dinheiro a fazer rap(…) Há vítimas de rapto nos bolsos do meu fato?/ Há milhares de gramas de erva nos bolsos do meu fato?”. Na mesma letra ainda pergunta: “Tinham de traumatizar os meus filhos?”.
Ora os polícias queixaram-se de ter sido alvo de alegações falsas, algumas sobre as suas condutas sexuais, nestas letras e pediram quase quatro milhões de dólares (3,5 milhões de euros) em indemnizações. Alegavam que sofreram assédio por causa dos vídeos e que os seus filhos foram alvo de bullying na escola.
O rapper, que saiu do tribunal dizendo que “a liberdade de expressão ganhou”, argumenta que a operação foi um erro e que “a culpa” é dos polícias: “Se não tivessem invadido a minha casa injustamente, não haveria processo. Eu nem saberia os nomes deles. Eles não estariam no meu sistema de vigilância e não haveria músicas”.
Durante o processo, alegou também que “polícias não deviam roubar o dinheiro de civis”. E em tribunal vestiu um fato estampado com a bandeira dos Eatados Unidos, garantindo que lançou as músicas para cobrir os prejuízos que a operação policial gerou.
O sargento Randy Walters argumentou em tribunal que não é “aceitável inventar por diversão algo que prejudica os outros”, tendo o advogado de Afroman frisado que é normal que os artistas, quando lançam uma crítica social numa música, exagerem na descrição das situações.