(c) 2023 am|dev

(A) :: Rapper Afroman ganha processo de difamação depois de cantar sobre polícias que fizeram buscas em sua casa

Rapper Afroman ganha processo de difamação depois de cantar sobre polícias que fizeram buscas em sua casa

Polícia fez buscas na casa do rapper, partindo porta e portão. Afroman respondeu com músicas em que fazia pouco dos agentes, usando as suas câmaras de vigilância para montar videoclipes.

Mariana Lima Cunha
text

Há quatro anos, um grupo de sete polícias arrombou a porta da casa do rapper Afroman para fazer buscas, numa investigação sobre suspeitas de tráfico de drogas e sequestro que não levou a nenhuma acusação. O que aconteceu a seguir transformou-se num processo inédito: o músico pegou na situação para fazer músicas e videoclipes sobre os polícias e as buscas, foi processado pelos agentes por difamação mas acabou mesmo por ganhar o caso em tribunal.

Recuando no tempo: Afroman, cujo nome verdadeiro é Joseph Foreman e que é sobretudo conhecido pelo êxito “Because I got high”, lançado em 2000, não gostou de ver as consequências da operação policial realizada em 2022 em sua casa, em Cincinatti (estado do Ohio), durante a qual diz que os polícias partiram o portão e a porta de casa, roubaram 400 dólares (345 euros) e revistaram os seus sapatos e bolsos dos fatos. Além disso, o processo foi “traumático” para os seus filhos, então com 10 ou 12 anos, argumenta, em declarações citadas pela CBC.

E o que decidiu fazer, como resposta, foi música: Afroman pegou nas imagens das câmaras de vigilância de sua casa e fez uma série de músicas, com os correspondentes videoclipes, que somam mais de quinze milhões de visualizações no Youtube. Um deles, chamado “Lemon Pound Cake”, mostra um agente a olhar de soslaio para um bolo de limão em cima do balcão da cozinha do artista. (“O xerife arrombou a minha porta/Depois ouvi o vidro a partir-se/Não encontraram vítimas de rapto/só um bolo de limão/O bolo de limão da mãe/Sabe tão bem/Fez o xerife querer pousar a arma/E cortar uma fatia).

https://www.youtube.com/watch?v=9xxK5yyecRo&list=RD9xxK5yyecRo&start_radio=1

Já na música “Will you help me repair my door?” (“Vão ajudar-me a consertar a minha porta?”), o rapper frisa que os polícias não encontraram nada nas buscas, acusando-os também de desligarem a certa altura as câmaras de vigilância e sugerindo que levaram dinheiro de sua casa. “O mandado dizia ‘narcóticos e raptos’/Estão a brincar? Ganho o meu dinheiro a fazer rap(…) Há vítimas de rapto nos bolsos do meu fato?/ Há milhares de gramas de erva nos bolsos do meu fato?”. Na mesma letra ainda pergunta: “Tinham de traumatizar os meus filhos?”.

Ora os polícias queixaram-se de ter sido alvo de alegações falsas, algumas sobre as suas condutas sexuais, nestas letras e pediram quase quatro milhões de dólares (3,5 milhões de euros) em indemnizações. Alegavam que sofreram assédio por causa dos vídeos e que os seus filhos foram alvo de bullying na escola.

O rapper, que saiu do tribunal dizendo que “a liberdade de expressão ganhou”, argumenta que a operação foi um erro e que “a culpa” é dos polícias: “Se não tivessem invadido a minha casa injustamente, não haveria processo. Eu nem saberia os nomes deles. Eles não estariam no meu sistema de vigilância e não haveria músicas”.

Durante o processo, alegou também que “polícias não deviam roubar o dinheiro de civis”. E em tribunal vestiu um fato estampado com a bandeira dos Eatados Unidos, garantindo que lançou as músicas para cobrir os prejuízos que a operação policial gerou.

O sargento Randy Walters argumentou em tribunal que não é “aceitável inventar por diversão algo que prejudica os outros”, tendo o advogado de Afroman frisado que é normal que os artistas, quando lançam uma crítica social numa música, exagerem na descrição das situações.