Mudar a configuração das notas e das moedas, faz parte da pequena política monetária, mais que não seja para prevenir falsificações. Nesse contexto, o Banco de Inglaterra propôs uma consulta pública onde pedia propostas para as habituais imagens e símbolos que acompanham este tipo de objeto. O regulamento era claro: “O tema não pode envolver imagens que, razoavelmente, possam ser interpretadas como ofensivas ou excluir grupos”.
O resultado? As imagens de figuras históricas como Winston Churchill, Jane Austen, J.M.W. Turner e Alan Turing serão removidas das notas, e trocadas por representações da fauna e da flora “tipicamente inglesas”. É verdade que outras alterações já foram feitas no passado. Há mais de 50 anos, Shakespeare foi o primeiro não-monarca a figurar em notas inglesas, seguido de James Watt ou Adam Smith; Churchill, por exemplo, só foi introduzido em 2016, e Turing, em 2019; e as cédulas do Royal Bank of Scotland já apresentam representações de vários animais. Mas esta mudança tem algo diferente. Não pode incluir imagens potencialmente ofensivas ou divisivas.
No entanto, lamento informar: tudo é ofensivo, tudo é divisivo, tudo é fraturante.
Numa altura em que o custo de vida dispara, como é que o Banco de Inglaterra ousa, por exemplo, glorificar uma lontra? Falamos de um animal que passa os dias a boiar de barriga para cima, a abrir ostras e a comer marisco fresco. É uma exibição de luxo aristocrático que insulta a classe trabalhadora! Mais: as lontras têm comportamentos de acasalamento extremamente agressivos e são predadores territoriais implacáveis. São opressores aquáticos que constroem casas e barragens rudimentares, apropriando-se descaradamente do trabalho e da cultura dos castores, sem lhes dar qualquer crédito.
De facto, há algo de profundamente infantil nesta deriva. A ideia de que o Estado tem o dever de proteger os cidadãos contra o “potencialmente nocivo” não é nova. É, aliás, a base de qualquer censura competente. A própria P.I.D.E poderia dizer, por exemplo, que censurar propaganda soviética tinha motivações racionais: objetivamente, a URSS era um totalitarismo sanguinário.
No entanto, como o recém-falecido Jürgen Habermas diria: a esfera pública não serve para evitar o conflito; serve para o mediar racionalmente. Apagar Churchill, Austen, Turner ou Turing, com o objetivo de não ofender ninguém, é privar a sociedade britânica de debater quem é, que passado tem e que valores quer celebrar hoje. As democracias maduras têm de ter uma relação crítica e reflexiva com a sua própria história. Esta atitude impede esse processo.
Além do mais, deslocar o debate da racionalidade para a ofensa é uma manifestação de imaturidade. Deixamos de discutir factos para discutir “estados de alma”. A partir de agora, quem chora mais alto, ganha. É a vitória da preguiça intelectual disfarçada de elevação moral. A verdade, no entanto, nada tem a ver com boa educação.
Neste contexto, a ofensa passou a ser o trunfo para proibir tudo o que nos desagrada. Hoje, passou-se a dar primazia a uma visão terapêutica que protege as emoções, em detrimento do choque de ideias. Naturalmente, qualquer pessoa tem o direito de se ofender com o que quer que seja. No entanto, o facto de alguém se ofender não lhe dá o poder de retirar a liberdade de expressão aos outros. Quando alguém profere uma barbaridade como “os negros são intelectualmente inferiores”, a atitude nunca deveria ser “isso não se diz”, mas “porque dizes isso?”. E isto tem um motivo: as ideias mal combatidas regressam sempre, com o prestígio clandestino do proibido, da mesma maneira que deixamos de saber defender as ideias que inventariámos como dogmas indiscutíveis.
Geralmente, quem defende a higienização do espaço público, argumenta que é essa atitude que possibilita um horizonte de progresso e bem-estar social. É precisamente o contrário. Quase todas as grandes conquistas do progresso humano começaram por ideias que ofendiam profundamente a ordem estabelecida e as tradições vigentes. Sem a liberdade subversiva para ofender as crenças da maioria, a sociedade nunca teria avançado para aceitar debates sobre temas como os direitos das mulheres ou o antirracismo. Por isso, e contrariamente ao que seria de esperar, o politicamente correto está a gerar uma geração mais machista, mais racista e mais xenófoba que a anterior. No fundo, não estamos a proteger os mais vulneráveis; estamos, mais uma vez, a afiar a guilhotina.