14 de junho de 2022. Sentados à volta de uma mesa, ao estilo d’A Última Ceia, para celebrar os nove anos do grupo, os BTS têm um anúncio para os fãs: vão fazer uma pausa. Cansados, divididos, com choradeira e tudo, explicam que querem focar-se nos projetos a solo. Pensando bem, eles são sete (RM, Jung Kook, V, Jimin, Suga, Jin e J-Hope), podem render muitos álbuns e concertos, mas essas contas não interessam a quem segue fielmente a maior banda de K-pop do mundo. No dia seguinte, as ações da empresa mãe da banda caem cerca de 30% e a depressão começa a propagar-se entre o público mais depressa do que uma epidemia. Pior: todos sabem que, mais tarde ou mais cedo, os membros terão de cumprir o serviço militar, obrigatório na Coreia do Sul. Para a Hybe Corporation, detentora do projeto, essa ausência que pode durar de 18 a 21 meses, significa perder cerca de 8,6 mil milhões de euros na década seguinte, com uma implicação para a economia do país de 33 mil milhões de euros. Mas, como diz o ditado, “o que tem de ser, tem muita força”, e J-Hope é o primeiro a fardar-se — os outros hão seguir-se a conta gotas. Por esta altura, estamos em dezembro de 2022.
Façamos agora um fast forward até 20 de março de 2026: o regresso oficial e ansiosamente aguardado dos BTS. Há novo álbum, Arirang, concertos transmitidos para todo o mundo através da Netflix, um documentário na mesma plataforma e, sobretudo, uma tournée mundial que vai durar dois anos e passar por dezenas de países — Portugal não é, até à data, um deles. Para os fãs de BTS, este 20 de março é Natal, é feriado, é o dia mais esperado do ano. Para todos os outros, é a oportunidade para entender o porquê de toda esta loucura.
Como é que viemos aqui parar?
Desde que a banda anunciou a pausa, em 2022, a timeline não foi igual para todos. J-Hope foi o primeiro a editar um álbum a solo, Jack in the Box, em julho desse ano, apresentando-se ao serviço militar em abril de 2023. Nesse mesmo mês, Suga lançou D-Day e em setembro foi a vez de V, com Layover. Em novembro de 2023, Jung Book lançou o álbum a solo Golden e fez uma atuação surpresa em Nova Iorque. Chegados a dezembro de 2023 já todos estavam na tropa.
Para que a máquina não parasse, foram editando trabalhos durante o serviço militar, que tinham deixado prontos antes, mas a euforia despertou realmente de novo quando Jin foi o primeiro a regressar à vida civil, em junho de 2024, o que lhe deu tempo para filmar uma série online, Run Jin, e preparar um álbum a solo, Happy, em novembro desse ano. Em junho de 2025 fez também uma tournée mundial, #RunSeokjin_Ep. Tour.

18 de junho de 2025: agora, sim, o serviço militar está formalmente terminado para todos. Mas, se isso acabou, começou outra coisa: o frenesim. Já não havia mais desculpas para a banda não regressar aos seus afazeres — ou pelo menos era essa a pressão imposta pelos fãs e pela indústria.
Em julho fizeram uma transmissão em vídeo a anunciar que, sim, iam voltar a juntar-se. Sete milhões de pessoas viram em direto e ficaram em suspenso nas semanas seguintes, à espera de novidades. Elas só chegaram de forma concreta a de 1 de janeiro deste ano: o anúncio do novo álbum levou tanta gente a tentar aceder à plataforma Weverse (onde a banda divulga tudo) que o site foi abaixo. Para entendermos o motivo para esta loucura é preciso fazermos uma viagem ao passado, com várias paragens.
Primeira paragem: associar nomes a caras
Também conhecidos como Bangtan Boys, nasceram em 2010 na Coreia do Sul. A sigla BTS significa Bangtan Sonyeondan, o que se traduz em “escuteiros à prova de bala”. De acordo com um dos membros, J-Hope, o nome é o desejo do grupo de “bloquear estereótipos, críticas e expectativas que são dirigidas aos jovens como se fossem balas”. Foram criados em torno de um rapper que já tinha algum nome no mercado, RM, que seria, à partida, a estrela da banda.
[os BTS ao vivo nos Grammys em 2022:]
https://www.youtube.com/watch?v=HbkBVxU5K5A
RM é Kim Namjoon (ou também Rap Monster), um MC fluente em inglês — que terá aprendido ao assistir à série Friends com a mãe. Tem um QI de 148, ficou nos 1% dos melhores classificados na admissão ao ensino superior na Coreia do Sul, escreve poesia desde muito cedo e ainda adolescente começou uma carreira no mundo do hip hop. Suga (ou Min Yoon-gi) compara-se a um gato, porque não gosta muito de conviver. Jogou basquetebol quando era miúdo (Suga junta as primeiras letras de “shooting guard”, a posição que ocupava), e quando entrou no mundo do rap tinha tão pouco dinheiro que chegava a ter de escolher entre comprar comida ou o bilhete de transporte de volta a casa.
J-Hope (Jung Ho-seok) é considerado o melhor dançarino da banda, já que é precisamente dessa área que vem. Só começou a cantar rap quando se juntou à agência que criou os BTS e o nome J-Hope demonstra a vontade que tem de ser uma fonte de inspiração e esperança. Depois chegou Jin (Kim Seokjin), identificado por um olheiro da Big Hit Entertainment quando saía de um autocarro. Estudou cinema, cozinha muitas vezes para os colegas por ser o mais velho e é o autor de temas virais, como Super Tuna e Abyss. Jeon Jung Kook é o mais novo, toca vários instrumentos e participou no programa de talentos Superstar K.
V (Kim Taehyung) é conhecido pelo olhar sedutor e tem voz de barítono, um contraste com os tons mais agudos dos coligados. Quando se juntou ao Instagram, conseguiu um milhão de seguidores na primeira hora e chegou aos dez milhões em cinco horas. Park Jimin tem raízes na dança mas um grande alcance vocal, sendo também considerado o trabalhador mais afincado. Durante o serviço militar, essa característica valeu-lhe a atribuição da menção honrosa de guerreiro especial.
Segunda paragem: criar uma banda, não — criar uma marca megalómana
Estes sete nomes gravitaram, em 2010, até à Big Entertainment, a editora que já representava RM e que queria criar um grupo de hip hop em torno do rapper. Bang Si-hyuk, o CEO, percebeu rapidamente que precisava, não apenas de encontrar cantores, mas de criar ídolos que os fãs venerassem e com os quais sentissem uma ligação genuína — arrastar multidões para concertos e lucrar com merchandise era o que estava no horizonte, mas isso era até um objetivo humilde tendo em conta o que se seguiu.
Nesse ano houve castings e os escolhidos (que agora já conhecemos) passaram a viver juntos, ensaiando até 15 horas por dia. A primeira vez que se apresentaram foi em 2013 para pessoas ligadas à indústria da música.

O single de estreia foi No More Dream, tirado do álbum 2 Cool 4 Skool, editado a 13 de junho de 2013. Não causou grande impacto. Ainda assim, depressa se percebeu que aquela não era uma banda de K-pop qualquer. As músicas tinham temas e propósitos, havia pontos de vista defendidos e assuntos que eram tabu na Coreia do Sul. Mais do que isso, os membros da banda falavam a mesma língua dos miúdos daquela idade (no final da adolescência) com preocupações sobre solidão, ansiedade, sucesso, família, condições da sociedade para os jovens, criando uma proximidade jamais conseguida com as bandas antes deles.
Os BTS não foram um fenónemo por acaso, pelo contrário. Bang estudou o que funcionava: coreografias impecavelmente sincronizadas e uma comunicação direta e constante com os fãs. As aparições em televisão não foram uma prioridade para ele, que percebeu que o segredo estava na Internet.
Por essa altura, o YouTube ganhava espaço e a propagação de videoclipes e outros conteúdos em vídeo ajudou os BTS a espalharem-se mundialmente muito depressa. Ainda antes de haver álbum ou música nova, já a banda tinha um canal na plataforma, na qual eram publicadas dezenas de conteúdos de bastidores e pequenos teasers que aguçaram cada vez mais a curiosidade. A conta de Twitter era gerida pelos sete membros da banda e os conteúdos eram tão genuínos e pouco filtrados quanto diretos em noitadas com muito álcool.
Online organizou-se também um grupo de fãs, conhecido como ARMY (Adorable Representative M.C. for Youth) que se desdobrava a traduzir as letras das canções em várias línguas (estamos a falar numa era pré-IA) e a igualar as doações feitas pelos membros do grupo a instituições de caridade (o que acontece com frequência).
Em 2017, os BTS já eram mundialmente conhecidos, entrando no mercado norte-americano. Como um refresh da marca, BTS passou a significar também Beyond the Scene (Além do Palco), marcando a passagem de adolescentes para adultos. Os álbuns e os respetivos temas abordados acompanharam essa evolução. Dark & Wild (2014) foi o primeiro disco de estúdio, ao qual se juntaram mais quatro em coreano. Mas houve mais, em japonês: Wake Up (igualmente de 2014) e três outros. As datas das edições coincidiram, mas a aposta neste segundo mercado deu-lhe entrada direta no segundo maior mercado de música do mundo, o que significou também um aumento brutal de fãs.


Além dos álbuns, há documentários, transmissões online e uma overdose de conteúdos da qual ninguém se queixa. Prova disso são os números. Em 2019, a revista Time incluiu a banda na lista das 100 personalidades mais influentes do ano, chamando-lhes “príncipes da pop”. Um estudo de 2018 revelou que, nos quatro anos anteriores, cerca de 800 mil turistas tinham visitado a Coreia do Sul impulsionados pelos BTS. Em 2021, o banco central da Coreia do Sul reconheceu o “efeito cascata” dos BTS, traduzindo-se no aumento do turismo e no crescente interesse por filmes coreanos e estudo da língua coreana. Traduzido em números, estes jovens contribuíram com qualquer coisa como 4,33 mil milhões de euros por ano para a economia sul-coreana. De acordo com os últimos dados, de 2023, os BTS são a banda que mais vendeu em toda a história da música sul-coreana.
Se por acaso não decorou o nome que ficou lá mais acima, recordamos quem é o responsável por tudo isto: Bang Si-hyuk.
Terceira paragem: quem é o pai dos BTS?
Bang Si-hyuk tem 53 anos e, neste momento, é um dos 50 homens mais ricos da Coreia do Sul, um bilionário da área do entretenimento. Os números mais recentes, divulgados a 19 de março, dizem que ele detém ações no valor de 3,6 mil milhões de dólares
Era um miúdo solitário, cuja companhia eram os livros. Foram os pais que o incentivaram a ter aulas de guitarra. Aí, abriu-se para ele todo um mundo: não só das canções, mas da indústria, da qual até os tops de vendas decorava. Porém, os pais sempre deixaram bem explícito que isso nunca deveria ser uma carreira para ele (o pai tinha um alto cargo no Instituto Coreano de Investigação da Segurança Social). Apesar de ter criado uma banda com os amigos na escola secundária (ouvia heavy metal e Led Zeppelin), onde chegou a compor temas originais, na faculdade estudou filosofia, com a área de especialização em estética. Nessa altura ganhou o Yoo Jae-ha Music Contest, o concurso mais antigo de autores/compositores da Coreia do Sul. Por esta altura, os pais ainda não sabiam nada disto. Ele estava à espera do ter sucesso. Um dia, Bang entregou-lhes um envelope cheio de notas e disse: “Os músicos também conseguem fazer dinheiro”, recordou à revista The New Yorker.
Aliou-se depois a um amigo que tinha uma produtora, J.Y.P., e, além de compor, começou a produzir. Os sucessos acumularam-se e valem-lhe a alcunha “Hitman”, por ser um criador de hits. Por essa altura, com grandes incentivos financeiros do governo na área da cultura, surgiram os fenómenos: K-pop, K-drama, K-tudo.
Com a chave do sucesso (achavam eles), os dois sócios arranjaram um escritório nos arredores de L.A. onde, garantiram-lhes, seriam “produtores de estrelas”. Não tiveram uma única reunião. Em poucos meses fizeram as malas e regressaram a Seul, onde toda a gente conhecia o nome deles.
Em 2005 saiu da J.Y.P. criou a própria empresa, a Big Hit Entertainment. Aqui, em vez de recriar os sucessos que já sabia produzir, fez algo diferente: deu realmente voz aos artistas. Além de serem bonitos e afinados robots dançantes, podiam, imagine-se, dar as próprias opiniões, escrever as letras e interagir com os fãs.
Foi através da Big Hit Entertainment que contratou RM, na altura um miúdo com 15 anos e em torno dele que quis criar os BTS.
Em 2021 resolveu deixar o cargo de CEO para voltar a focar-se na produção de álbuns e o nome da empresa passou a ser Hybe. Ainda assim, manteve o cargo de presidente do conselho de administração.


A Hybe tem selo discográfico, agência de talentos, plataforma tecnológica e conglomerado do setor do entretenimento. Os escritórios em Seul ocupam nada menos do que 19 andares de uma torre. Cá em baixo, todos os dias, há fãs à espera de ver algum dos seus ídolos. Como, de facto, eles andam por lá, nos estúdios, ensaios, reuniões, os pisos por onde mais circulam têm controlo biométrico para entrar.
Nos EUA comprou entretanto a empresa de Scooter Braun (responsável por lançar nomes como Justin Bieber, mas também conhecido pela polémica luta pelos direitos dos temas de Taylor Swift), que agora funciona como uma espécie de filial da Hybe e também é Bang o responsável pelo grupo Katseye, uma banda de raparigas criadas com moldes de K-pop mas de várias línguas e etnias — cantando em inglês. Antes, estudou, claro: as Spice Girls como modelo, aliado a uma espécie de Factor X em que o público é determinante na escolha dos membros do grupo. Assim, há mais lealdade e, também, sentimento de posse.
Todos os artistas que orbitam o mundo de Bang estão na Weverse, descrita como uma “plataforma global de superfãs”. É uma espécie de tudo em um: Instagram, YouTube e Ticketmaster. Há conteúdos exclusivos partilhados pelos músicos, há acesso direto aos bilhetes para os concertos e o reverso da medalha (ou o El Dorado para a Hybe) é que todos os passos dos utilizadores ficam registados e são, claro, transmitidos à casa mãe: desde os dados demográficos aos padrões de consumo, ajudando a determinar quais as melhores localizações para as tournées.
Quarta paragem: março de 2026, o início do futuro
Chama-se Arirang (que remete para uma canção tradicional de folk), tem 14 faixas e é o décimo álbum de estúdio dos BTS. Swim, uma das faixas, trouxe a banda a Portugal em fevereiro, já que o videoclipe foi gravado no Museu da Marinha, em Lisboa. Os detalhes que identificaram o espaço foram rapidamente identificados pelos membros atentos do ARMY, apesar de o teaser não ir além dos 16 segundos.
https://www.youtube.com/watch?v=GuPhSLBYOeg
O disco gravado em Los Angeles durante seis meses e, a partir desta sexta-feira, 20 de março, está em todo o lado. Foca-se em questões de identidade e raízes e junta alguns convidados, como Diplo, Kevin Parker (Tame Impala) e Ryan Tedder.
Para 21 de março está agendado um concerto, o primeiro desde o regresso, na praça Gwanghwamun, em Seul, com transmissão em direto na Netflix. Na mesma plataforma, fica disponível a 27 de março BTS: O Regresso, o documentário que acompanha a gravação do mais recente disco e a preparação para a Arirang World Tour.
A tournée mundial arranca em abril, em Seul, e durante os próximos dois anos terá 79 datas na Ásia, Europa e América. Não tem, para já, passagem prevista por Portugal, mas o mais fácil é ir até Madrid a 26 ou 27 de junho. Os preços para a atuação no Estadio Riyadh Air Metropolitano, que terá um palco de 360º, vão dos 79,50€ a 495,50€.
No final de fevereiro, mais de 40 das datas anunciadas já estavam esgotadas. De acordo com Kim Yu-hyuk, analista da IBK Investment & Securities, a expectativa é que as vendas ascendam a 1,62 mil milhões de euros. As previsões apontam para que cada concerto tenha, em média 64 mil espectadores.
Esta digressão pode dar ao grupo e à respetiva agência, a Hybe, mais de 800 milhões de euros só este ano. Tendo em conta que ainda haverá mais datas anunciadas brevemente, pode perfeitamente vir a rivalizar com a megalómana Eras Tour, de Taylor Swift, a mais lucrativa de sempre, que rendeu 1,78 mil milhões de euros.
Até que esses números se confirmem ou não, a Arirang World Tour tem outros mais definitivos: cada espetáculo custa entre 1,72 a 2,58 milhões a produzir; o palco de 360 graus e o restante material requer entre 50 e 70 camiões para ser transportado; as despesas com staff, segurança e logística chegam aos 203 milhões de euros. E os números prometem aumentar, em todas as contas.