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Artistas estrangeiros solidários com Francisco Frazão vão enviar carta a Carlos Moedas

Cerca de 50 artistas de vários países assinaram contra a decisão da EGEAC de afastar o diretor artístico do Teatro do Bairro Alto para nomear Miguel Loureiro sem a realização de um concurso público.

Agência Lusa
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Uma carta internacional de protesto contra a não renovação de Francisco Frazão no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, reúne já dezenas de assinaturas e vai ser enviada ao presidente da Câmara Municipal, disse nesta quarta-feira o promotor da missiva.

Em declarações à agência Lusa, o programador irlandês Willie White afirmou que a carta reúne neste momento cerca de 50 assinaturas de artistas, programadores e personalidades da cultura de vários países em solidariedade para com Francisco Frazão, que conhece “há mais de 20 anos”.

“Apesar de o Francisco ser um amigo, isso não é importante. Penso que, do ponto de vista da governança, se é para haver um novo diretor, um concurso é a melhor prática e, aliás, foi assim que o próprio Francisco foi nomeado. Penso que não é bom que tal não tenha acontecido“, afirmou o antigo diretor do Festival de Teatro de Dublin.

White disse que iria escrever ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, que realçou ser um antigo comissário europeu e gestor do projeto Horizonte Europa, o que significa que será alguém que “valoriza a boa governança“.

“Há outra dimensão. Juntar o TBA [Teatro do Bairro Alto] e o São Luiz é uma redução da capacidade artística da cidade. Não são a mesma coisa. O TBA tem um papel muito particular, na minha opinião, é bastante flexível, muito contemporâneo”, pelo que “não consegue compreender a decisão” de se concentrar a direção artística das duas salas numa só pessoa, com o anúncio por parte da empresa municipal EGEAC de que Miguel Loureiro irá acumular ambas.

Na carta, a que a agência Lusa teve acesso, os subscritores intitulam-se “uma coligação de profissionais das artes performativas” que escrevem “para manifestar profunda preocupação relativamente às recentes decisões que afetam o Teatro do Bairro Alto: a não renovação do contrato de Francisco Frazão como diretor artístico e a nomeação de um sucessor sem concurso público”.

“O Teatro do Bairro Alto é um espaço fundamental que confere visibilidade internacional aos artistas portugueses e que liga os artistas e o público locais a práticas inovadoras de todo o mundo” e “ocupa também uma posição crucial na infraestrutura cultural de Lisboa”, lê-se na carta, acrescentando tratar-se do “único espaço versátil de tipo black box da cidade sob propriedade municipal”.

Um espaço que “oferece possibilidades de escala e configuração espacial que nenhum outro teatro institucional pode proporcionar — uma condição que lhe permitiu funcionar não apenas como um espaço de espetáculos, mas como um lar para a criação contemporânea em todas as suas formas“, acrescenta a carta, lembrando que Francisco Frazão foi nomeado para o cargo no TBA através de um concurso público aberto.

“Chegou com uma reputação já distinta nas artes performativas e rapidamente colocou o TBA no mapa internacional. Em poucos anos, o espaço tornou-se uma referência para a performance contemporânea em toda a Europa e além-fronteiras. Muitos de nós apresentámos trabalhos lá, assistimos a espetáculos ou colaborámos com o TBA como coprodutores. Os artistas que Francisco tem apoiado — tanto portugueses como internacionais — alcançaram carreiras de sucesso e reconhecimento mundial. A reputação de Lisboa como cidade de cultura viva deve-se em grande parte a espaços como o TBA, dispostos a assumir riscos criativos, e essa reputação, por sua vez, atrai talentos para a cidade”, frisa a missiva dirigida a Carlos Moedas.

Para os subscritores da carta, a decisão de não renovar o contrato de “Francisco Frazão e de colocar o TBA sob a direção artística do São Luiz — sem um concurso público — corre o risco de comprometer esta reputação internacional conquistada com tanto esforço”.

“Um concurso público para um novo diretor artístico, conduzido de forma transparente e com base no mérito, reafirmaria a independência do TBA e o prestígio de Lisboa como uma cidade que valoriza a coragem artística a par da ambição cívica. Este é o tipo de liderança que a cidade e a sua comunidade cultural merecem”, concluem.

Da lista de subscritores da carta constam nomes como Adriano Cortese, Nicola Gunn, Amrita Hepi, Kristof Blom, Marieke De Munck, Dries Douibi, Michiel Vandevelde, e os brasileiros Antonio Araujo e Guilherme Marques, do Festival Internacional de Teatro de São Paulo, entre outros.

Na semana passada, Francisco Frazão confirmou à imprensa que não tinha sido reconduzido na direção artística do TBA, cargo que ocupava desde 2018.

Dois dias depois, a EGEAC anunciou que o até aqui diretor do Teatro Municipal São Luiz, Miguel Loureiro, iria acumular funções como diretor do TBA. Ao mesmo tempo foi avançado o nome de Anabela Valente como substituta de Rita Rato, que também não fora reconduzida na direção do Museu do Aljube.

Desde então, os partidos da oposição criticaram a decisão e pediram esclarecimentos, enquanto centenas de figuras do setor da Cultura publicaram uma carta aberta a protestar contra a não recondução de Frazão e Rita Rato, considerando que “ambos dirigiram de forma exemplar” os equipamentos municipais de que eram responsáveis.