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(A) :: O pai descobriu onde a filha estava, procurou estar com ela e acabou detido

O pai descobriu onde a filha estava, procurou estar com ela e acabou detido

O testemunho de Artur mostra como, em situações de alienação parental, a procura de um filho pode tornar-se um percurso marcado por obstáculos, tensão e sofrimento profundo.

Eva Delgado-Martins
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Neste texto, continuamos a contar a história de Artur, um pai alienado, iniciada no artigo intitulado “Só mais tarde percebi o que estava a acontecer”: o testemunho de Artur, um pai alienado (I), publicado a 6 de março de 2026, e continuado no último que foi publicado a 13 de março: “Quando um pai procura a filha: o percurso invisível da alienação parental (II)”. Neste e nos próximos artigos, continuaremos a acompanhar as várias etapas da sua vivência de alienação parental. Hoje, contamos o momento em que Artur descobriu onde estava a filha e as tentativas que fez para a reencontrar, um período marcado por insistência, sofrimento e um desespero crescente.

Passados cerca de dois anos, Artur descobriu finalmente onde estava a filha: “Portanto, 2012 foi assim… e tudo se manteve dessa forma durante algum tempo, mais ou menos até ao dia 5 de outubro de 2014, cerca de dois anos. Em 2013, fiquei a saber que havia uma tia, madrinha da mãe da minha filha, uma pessoa de confiança, já com alguma idade, reformada… era uma casa onde se juntava toda a família: primos, sobrinhos… Nessa altura, a mãe começou a trabalhar – enquanto era casada, não trabalhava, e deixava a menina com essa tia”. Este foi um momento decisivo. Artur passou de não saber onde estava a filha para conhecer uma possível localização. Para muitos pais nesta situação, esta descoberta traz a esperança, mas também uma forte tensão emocional, a expectativa de reencontro convive com o medo de nova recusa.

A partir daí, iniciou-se uma nova fase. Artur começou a ir ao local onde acreditava que a filha estava: “Percebi isso e comecei a ir lá aos fins de semana, a bater à porta para ver a minha filha. Só queria vê-la. Mas a porta nunca era aberta e, poucos minutos depois, aparecia sempre a polícia, em cinco a sete minutos já estavam lá”. Instalou-se então um ciclo doloroso e repetitivo. Artur ia, esperava, batia à porta e nada acontecia. Do outro lado, o silêncio. Pouco depois, surgia a polícia. O gesto simples de um pai que quer ver a filha transforma-se numa situação de constante tensão. Em cada tentativa falhada acumulava a frustração, o desgaste e um sentimento crescente de impotência. O encontro nunca acontecia.

Com o passar do tempo, a dor intensificou-se: “A situação começou a piorar. Eu sentia que tinha o direito de ser pai, não havia nenhuma ordem judicial, não havia nada, e mesmo assim não me deixavam ver a minha filha. Escondiam-na, estava tudo fechado”. Neste testemunho, emerge um sentimento profundo de injustiça. Artur reconhecia-se como pai, mas via-se impedido de o ser. A perceção de que a filha estava a ser escondida intensificou a angústia, alimentando uma vivência marcada por ausência, incerteza e perda.

À medida que a situação evoluiu, o conflito deixou de ser apenas familiar e passou a envolver também as instituições do estado, nomeadamente a polícia: “Quando a polícia chegou, no início disseram-me: ‘Tem de ir ao tribunal tratar do acordo das responsabilidades parentais, não sei quê…’. Mas eu disse: ‘Hoje eu não saio daqui. A minha filha está ali dentro de casa e eu quero vê-la’. A partir daí, levaram-me para o posto para ser identificado e fizeram uma queixa-crime contra mim… já nem me recordo bem qual foi o crime que apontaram na altura”. Aqui torna-se evidente o choque entre dois planos, o tempo emocional de um pai que quer ver a filha naquele momento e o tempo formal do sistema judicial. Esta diferença é frequentemente difícil de gerir. Para quem vive a situação, cada dia sem contacto com os filhos pesa como uma perda.

Com a repetição das tentativas para ver a filha, a situação entrou numa espiral marcada por intervenções policiais, queixas-crime e crescente desgaste emocional. Foi assim que Artur descreveu esse período: “Mas já nem me recordo bem, foram tantas situações. As queixas começaram logo… e nem sequer era ainda por perseguição. A primeira foi por devassa da vida privada, por eu bater à porta e tentar saber da minha filha. Eu perguntava às pessoas, aos vizinhos, ao café, à mercearia… e diziam: ‘Ah, o pai da menina anda aqui.’ Eu só queria saber se a minha filha estava ali. Nessa altura, chamaram a polícia, fizeram queixa e eu fui constituído arguido. Saí de lá e voltei novamente. Chamaram outra vez a PSP, levaram-me de novo para o posto. Fui identificado outra vez. Era sempre a mesma coisa: novos processos, nunca juntavam nada ao anterior. E eu voltava outra vez para baixo. Só numa sexta-feira fui três vezes, isto começou por volta das oito da noite e terminou perto das onze e meia, meia-noite. Fui para casa. No sábado voltei novamente… mais três vezes”. Sente-se nestas palavras o peso da repetição e do cansaço. O gesto de procurar a filha passa a ser interpretado como comportamento inadequado, invertendo o sentido da ação. A cada tentativa, cresce a sensação de injustiça e de não ser reconhecido como pai.

O desgaste emocional deste pai alienado, acumulado ao longo de sucessivas tentativas falhadas e de um afastamento prolongado da filha, atinge então um ponto limite: “Sem nunca conseguir ver a Matilde, foram mais três tentativas, sempre com a polícia envolvida. No sábado voltei para casa…, mas no domingo acordei decidido, hoje ou vou preso ou consigo beijar a minha filha. Ou vou preso, ou posso até morrer. Eu já estava numa fase em que o desespero dentro de mim era muito forte. Eu só queria ver a minha filha”. Este foi um dos momentos mais intensos do testemunho de Artur. O desejo de ver a filha tornou-se absoluto, sobrepondo-se a qualquer risco. A repetição de falhas e impedimentos conduziu-o a um estado de desespero profundo, em que a necessidade de reencontro era objeto do “tudo ou nada”.

A situação acabou por escalar, entrando num momento de rutura e confronto direto: “E depois só houve mais duas tentativas. Na segunda vez, quando a GNR e a PSP chegam, o avô da minha filha, o sobrinho e o primo também aparecem, e a situação acaba por escalar. Houve agressões físicas. Felizmente, eu não tive nada de especial, mas houve quem precisasse de tratamento hospitalar… Quando a PSP chega, vê aquele momento de confusão e acaba por me ver a mim como o agressor. Não vê o que aconteceu antes, nem o momento em que eu também fui agredido. Fui apanhado em flagrante e acabei por ser detido”. Neste ponto, o conflito tornou-se físico e visível. A tensão acumulada ao longo do tempo transformou-se num episódio de confronto que marcou profundamente o percurso de Artur. Num único momento, ele passou a ser identificado como agressor, sem que todo o contexto anterior, feito de tentativas, frustração e sofrimento, tivesse sido considerado. Esta redução de toda a história a um episódio isolado contribuiu para um sentimento ainda mais intenso de injustiça e incompreensão, agravando o isolamento emocional vivido.

Foi neste contexto que surgiu a dimensão judicial: “Foi então, em 2013, que a mãe avançou com um processo de alteração das responsabilidades parentais, que acabou por funcionar como uma forma de afastamento. Foi também nessa altura que percebi que já existia um processo de responsabilidades parentais, que, até então, estava parado. A advogada da mãe apresentou um acordo que eu considero fictício, e foi com base nesse acordo que a mãe avançou. A partir daí, nasce o processo, o 3….., e é aí que tudo começa a ganhar outra dimensão”. O conflito passou a ser formalizado. A relação com a filha deixou de depender apenas do contacto direto e passou a ser mediada por processos legais. Para muitos pais, este momento representa uma perda de controlo ainda maior sobre o processo de alienação.

O testemunho de Artur mostra como, em situações de alienação parental, a procura de um filho pode tornar-se um percurso marcado por obstáculos, tensão e sofrimento profundo. A partir do momento em que descobriu onde estava a filha, iniciou-se uma fase em que a esperança de reencontro conviveu com a repetição constante de impedimentos.

Este percurso evidencia que o impacto psicológico da perda de contacto, a frustração acumulada, a sensação de injustiça e a urgência de reencontro podem conduzir a estados emocionais extremos. Ao mesmo tempo, a história revela como a falta de informação, de mediação e de respostas adequadas pode agravar os conflitos, transformando experiências familiares em processos complexos, tanto no plano emocional como no judicial.

Nos próximos artigos continuaremos a acompanhar o percurso de Artur, procurando compreender melhor as consequências humanas, psicológicas e do fenómeno da alienação parental.