Quanto podem valer 140 caracteres publicados na internet? Mais do que se pode pensar, sobretudo na comunicação política, assegura Jason Gainous, professor universitário e investigador na área da comunicação de massas.
O académico norte-americano, de 55 anos, acompanha as movimentações do antigo Twitter, agora X, quase desde o início. Tem dezenas de artigos científicos publicados sobre a relação entre as redes sociais e o impacto na política e nos eleitores. Em 2013, em conjunto com Kevin M. Wagner, publicou Tweeting to power, editado pela Oxford University Press. O livro é uma das várias obras que tenta explicar como as redes sociais se tornaram uma ferramenta crucial para a política.
Há vinte anos, quando apareceu o Twitter, “muito pouca gente percebia como usar aquele poder”, admite o académico em entrevista ao Observador. Até que os políticos “descobriram como utilizar” o poder das mensagens curtas, das hashtags e das menções. Gainous considera que foi uma mudança de paradigma passar a haver uma forma de “contornar os media tradicionais” e, de repente, ter como comunicar diretamente com os eleitores.
Numa fase inicial, a investigação de Gainous centrou-se nos Estados Unidos. E, logo à partida, foi possível estabelecer uma relação entre causa e efeito: quem usava mais a rede social, para mostrar o que estava a fazer, partilhar ligações ou responder diretamente aos eleitores, “tinha maior probabilidade de obter votos”. A partir do momento em que começaram a dominar a linguagem do Twitter, os políticos tinham uma forma de chegar a mais pessoas. Até mais do que noutras alternativas, como o Facebook, reconhece o académico.
Em 2006, conceitos como os algoritmos que dão recomendações baseadas em interesses ou o efeito bolha não estavam ainda no léxico comum. Hoje em dia está mais presente a consciência de que os conteúdos das redes sociais tendem a reforçar visões ou gostos já existentes. “Os algoritmos estavam a colocar as pessoas em bolhas”, diz o académico. “Acredito plenamente que isto criou públicos polarizados em todo o mundo”, com informação que apenas mostra um lado da história.
Gainous deu aulas durante 15 anos na Universidade de Louisville, no Kentucky, mas atualmente é reitor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade KIMEP, no Cazaquistão. Antes disso, passou pela Universidade de Duke em Kunshan, na China e pela Universidade de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos. “Queria uma aventura”, resume sobre a ida para o Cazaquistão. Com a chegada a Almaty, onde dá aulas, a investigação sobre o impacto das plataformas digitais alargou horizontes e, hoje em dia, já não tem o otimismo de outros tempos. “Temos políticos em todo o mundo a partilhar desinformação e informações falsas.”
Twitter permitiu contornar “os filtros dos media tradicionais”
A 21 de março assinala-se o 20.º aniversário do primeiro tweet publicado no Twitter. Quando é que percebeu que o Twitter seria uma plataforma importante para a comunicação política?
Em 2006.
Portanto, logo no início?
Foi de imediato. Comecei a trabalhar numa disciplina que, nos anos 90, chamávamos de “internet e política”. Hoje em dia o nome dá vontade de rir, foi antes de se usarem designações como tecnologias de informação e comunicação (TIC), redes sociais…. Pensei “bem, isto é a internet e vai mudar a forma como a política acontece”.
Na altura, algumas pessoas pensavam que eu estava louco. Achavam que os privilegiados, por oposição aos desfavorecidos, iriam dominar o poder dos media digitais — como têm feito sempre. Depois seria muito semelhante à forma como os media tradicionais têm moldado os resultados políticos, o discurso político, a negociação do poder político, todas essas coisas. Discordei, eventualmente todos discordaram e comecei a estudar o assunto. Primeiro com o MySpace, a tentar perceber o impacto. Assim que foi lançado o Facebook também passei a estudá-lo. Publiquei e investiguei o impacto das redes sociais no comportamento político e nos resultados políticos antes do Twitter surgir. Quando o Twitter apareceu, vi de imediato o potencial impacto que havia ali, sobretudo pela singularidade que tinha como plataforma e nas funções que tinha em relação ao Facebook.
O que é que tornou o Twitter diferente?
Provavelmente uma das maiores diferenças é que o Facebook foi impulsionado pela ideia de rede social. O objetivo era ligar as pessoas e, através dessas ligações, construir o seu modelo de receitas — os anúncios. Quanto ao Twitter, ficou claro que não se tratava de ligar amigos e criar redes, mas sim de ter um mecanismo de comunicação para enviar mensagens a um público.
Quando apareceu o Twitter — e faço isto com praticamente todas as redes sociais — criei uma conta e examinei o que era. No início, usava-o quase como um agregador de notícias, comecei a seguir meios de comunicação social, etc. Mais tarde, as figuras políticas viram a oportunidade de comunicar informação por lá, depois foram os líderes de opinião e os influenciadores, que nada têm a ver com política. A plataforma caminhou nesse sentido, porque era vista quase como um modelo de comunicação de cima para baixo, em vez de ser uma interação entre pessoas. Não é como se essa comunicação não existisse antes, mas no livro Tweeting to power falámos sobre como os políticos podiam usar o Twitter para contornar os filtros dos media tradicionais.

Como uma forma de controlar a narrativa?
Certo. Em vez de estarem dependentes de comunicados de imprensa, que obrigariam os meios de comunicação tradicionais a responder ao seu enquadramento, à sua narrativa, poderiam simplesmente ir à volta. Podiam falar diretamente com o público e utilizar essas pessoas, os seus eleitores, para divulgar a sua narrativa, mesmo fora do Twitter.
O Twitter sempre teve menos uso [em comparação com outras redes], mas isso não quer dizer que a informação que lá surge não chegasse a conversas informais. E, em última instância, até conseguiu definir a agenda dos media tradicionais. E o que também constatámos — e contra o que lutámos inicialmente — foi que as pessoas pensavam “bem, qual é a importância disto? São apenas 140 caracteres, o que é que isto importa?”
O que argumentámos na altura foi que não era só sobre o número de caracteres. A relevância eram as hiperligações, as hashtags, todas as coisas que ligam as pessoas a um ambiente de informação maior. Depois os algoritmos funcionariam a favor disso. A maioria das pessoas não gosta de ser exposta a informação que desafia as suas predisposições; preferem estar em câmaras de eco, bolhas de filtro. O algoritmo faz isso, os líderes de opinião, os influenciadores, os influenciadores de moda, qualquer pessoa pode usar isso para criar bolhas de informação nas quais as pessoas entram. E isso molda a forma como percecionam os media tradicionais, a forma como percecionam os seus vizinhos, as suas interações com os colegas de trabalho, que roupas é que acham mais cool. Enfim, tudo.
Twitter criou “públicos polarizados em todo o mundo”
Mas considera que o Twitter foi a primeira plataforma a ter essa lógica da câmaras de eco e as bolhas?
E a usá-las dessa forma. Não sei se o Facebook também pensou nisso, mas a grande diferença da plataforma Twitter é que possibilitou que as pessoas comunicassem usando estas bolhas de filtro, as câmaras de eco, o que seja, para chegar a pessoas que não conheciam. No Facebook só se alcançavam as pessoas que se conheciam. Em teoria, as publicações não apareceriam no feed de desconhecidos. No Twitter, por outro lado, apareciam apenas para as pessoas da sua bolha.
A questão é que os veículos noticiosos e os líderes de opinião podiam ser seguidos, o que criou esta rede de fluxo de informação. Por exemplo, os membros do Congresso dos EUA podiam apontar para as notícias que queriam que fossem vistas [através de ligações em tweets]. O que percebemos foi que, quanto mais os membros do Congresso, entre 2006 e 2008 e mesmo depois disso, começaram a utilizar o Twitter, mais propensos eram a tentar controlar o fluxo da informação. O uso de hiperligações para histórias, hashtags, respostas e partilhas… As pessoas que mais faziam isto tinham maior probabilidade de obter votos.
Então de certa forma isso comprovou a ideia de que o Twitter podia influenciar as pessoas?
Sim. Quer dizer, não tínhamos dados experimentais, por isso não podíamos afirmar isso com certeza, mas o que podemos dizer é que encontrámos esta relação mesmo mantendo constantes todos os outros fatores que sabemos que afetam a quantidade de votos recebidos. Por exemplo, quão competitivo é o distrito [onde se vota], quanto dinheiro se gastou numa campanha, quantos anos de experiência se tem… Resumindo, os fatores mais tradicionais que permitem perceber o sucesso eleitoral. Conseguimos manter constantes todos os fatores tradicionais que preveem o sucesso eleitoral e mostrar que, mesmo com isso, a pessoa que controlava o fluxo de informação no Twitter tinha ainda mais probabilidades de ganhar do que a pessoa que era suposto [tendo em conta os fatores tradicionais].
Há pouco falou sobre a forma como o Twitter apresentou as hashtags, as menções, os retweets. Essa nova forma de comunicar com os utilizadores mudou a forma de se fazer política?
Sim. Acho que, ao início, essa nova forma de comunicar não era muito bem compreendida pelos políticos — francamente, ninguém percebia. Muito pouca gente percebia como usar aquele poder.
No início o Twitter parecia algo de nicho.
Sim, as pessoas não percebiam bem como usá-lo. Acho que, quando se percebeu, por exemplo, que os algoritmos estavam a colocar as pessoas em bolhas… Acredito plenamente que isto criou públicos polarizados em todo o mundo. É bastante simples: o que pensamos sobre o mundo que nos rodeia, seja na política ou não, baseia-se na informação que temos cognitivamente acessível. E se uma grande parte dessa informação vem do nosso fluxo de informação e se isso responde à nossa psicologia, que nos leva a expor-nos seletivamente a certas coisas e a evitar outras, os algoritmos captam isso e colocam-nos nessas bolhas ou câmaras de eco onde só ouvimos a mesma coisa.
Com o tempo, os políticos, os interesses económicos, os influenciadores, todos descobriram como utilizar isso. E agora chegámos ao ponto em que todos nós nos colocamos em bolhas de informação — e de forma intencional. Trabalha-se o feed do TikTok e o do Twitter de formas que façam pensar: “não quero ver isto”. Sabemos o que evitar para que não continue a aparecer no feed. Todos fazemos isso.

É possível dizer de forma ativa “não quero ver isto” ou “quero ver mais disto”.
Sim, podemos fazê-lo a fazer um like, a deixar um comentário. Ou, se não queremos que apareça mais, a mudar rapidamente de vídeo. Sabemos que, se ficarmos a ver um vídeo, é mais provável que vejamos mais vídeos como aquele. O que acho que aconteceu é que, infelizmente, estes fluxos de informação, por causa do que era falado no “Tweeting to power”, conseguiram contornar os gatekeepers tradicionais e fornecer aos seus eleitores fluxos de informação que eram favoráveis para os políticos. Cada vez mais, o que acontece é que as pessoas recebem fluxos de informação que não apresentam contrapontos, as mentes são cada vez mais preenchidas de forma desproporcional com informação que é unilateral.
Foi o que aconteceu com as eleições de 2016, nos EUA?
Sem qualquer dúvida. Temos dados de 2016, onde analisámos a utilização das redes sociais, incluindo o Twitter. Os dados foram recolhidos tanto nos EUA, como num estudo semelhante feito em vários outros países. Conseguimos demonstrar, em questões como políticas públicas e as atitudes em relação à política, que quanto mais as pessoas dependiam dos meios digitais para se informarem, mais extremas eram as suas opiniões sobre os temas.
Nos EUA, por exemplo, se se perguntasse às pessoas as opiniões sobre temas como a segurança social, a educação, os negócios estrangeiros, as questões sociais, questões LGBTQ+, o aborto… Mesmo controlando e mantendo constantes os fatores que tradicionalmente predizem estas atitudes —identificação partidária, a classe social, a educação, a religiosidade — as pessoas que recebiam mais informação através das redes sociais, incluindo o Twitter, tinham opiniões mais extremas. Eram mais propensas a tomar uma posição radical sobre estas questões e a cristalizar as suas opiniões. Então, se se tiver um público que acaba por ser pressionado a tomar uma posição e, simultaneamente, há uma pressão do grupo — a lógica de “se há pessoas que discordam de mim então são minhas inimigas” — é tudo o que vemos nos EUA agora. Que é um desastre.
Mas esse cenário não acontece só nos EUA.
Sim, não é só nos EUA, está a acontecer em toda a Europa, em todo o lado. Uma das coisas mais recentes que fizemos foi analisar as pessoas que utilizam as redes sociais, incluindo o Twitter, para recolher informação. Percebemos que essas pessoas eram mais propensas a pensar que a política se resume a uma luta entre o bem e o mal e não a uma discordância sobre as políticas. Em segundo lugar, quanto maior for a proporção de informação que as pessoas recebem das redes sociais, incluindo o Twitter, maior será a probabilidade de afirmarem que a violência é uma forma razoável de lidar com as divergências políticas.
Como com o Capitólio, em 2021?
Correto. Tudo isto foi utilizado, cada detalhe foi usado por Trump e pela sua equipa. Capitalizaram a questão, usaram as redes sociais para incitar toda esta polémica.
“Twitter mudou do dia para a noite desde que Elon Musk assumiu o controlo”
O primeiro tweet publicado por Donald Trump era genérico, a anunciar que ia apresentar algo no programa de David Letterman. Como é que se passa disso para uma comunicação diferente?
Como é que passámos disto para o divagar em maiúsculas? (risos). Não sei. Mas também, o Twitter mudou do dia para a noite desde que Elon Musk assumiu o controlo. O meu algoritmo mudou, o que aparecia no meu feed mudou de forma rápida.
Numa primeira fase, os tweets de Elon Musk começaram a aparecer mais nos feeds, não?
Sim, ele certificou-se que isso acontecia. Um dos primeiros tweets que apareceu no meu feed [após a aquisição, em outubro de 2022] não era algo que eu procuraria: era um vídeo de uma luta de rua. Vi o vídeo, como quem assiste a um acidente de carro. E, de repente, nas semanas seguintes, o meu feed estava cheio de vídeos de pessoas a lutar. O algoritmo estava tão sensível que eu vi só uma vez e, de repente, as sugestões passaram a ser aquilo.
De repente o algoritmo achava que eu só queria ver lutas. Fiquei intrigado como é que me estavam a aparecer aqueles vídeos — sempre utilizei a plataforma como um agregador de notícias para acompanhar as últimas notícias de fontes fidedignas e seguir a minha rede académica. O meu feed era um bocado nerd, não tinha esse tipo de conteúdo. Do nada começaram a aparecer lutas — e foi assim que tudo mudou.

Ainda usa o Twitter, agora X?
Já não o uso com tanta frequência. Quando mudei a conta no telefone fiquei bloqueado, fora do X, durante um ano. Tentei renovar a conta, mas não foi fácil. Fiquei à espera. Há mais ou menos um mês, tentei entrar e consegui. Acho que o X percebeu que tinha bloqueado vários utilizadores durante algum tempo.
Mas como é que o Twitter passou de um local que tinha movimentos populares, como a Primavera Árabe, dos protestos no Irão, há alguns anos, do movimento Black Lives Matter… De certa forma, parecia que a plataforma tinha outro impacto. Como é que se passa para o cenário atual?
Penso que é uma combinação de vários fatores. Acredito que à medida que o público se tornou mais polarizado, as pessoas procuram mais este tipo de conteúdo. Existe um público polarizado que uma plataforma pode explorar. E acho que Elon Musk provavelmente viu essa oportunidade e acreditou que iria aumentar o número de utilizadores ao mudar o modelo.
Voltemos ao caso do meu Twitter, que antes era um agregador de notícias e uma forma de seguir académicos e alguns políticos com interesses políticos como os meus. Nessa altura, podia haver ali movimentos sociais e políticos, porque, em muitos aspetos, o público era constituído por utilizadores que eram líderes de opinião ou cidadãos atentos a determinados assuntos.
Outra coisa que a nossa investigação mostrou sobre o Twitter é que os tweets que expressavam raiva tinham um maior alcance. Numa das análises utilizámos vários dados de Puerto Rico, incluindo tweets de legisladores e tweets com hashtags. Os que expressavam mais raiva tinham uma probabilidade maior de serem partilhados, terem respostas e mais gostos. Suspeito que Musk também saiba disso.
Se em vez de permitir que a plataforma seja um espaço para um discurso político mais elevado, se abrir a porta a discussões políticas com quezílias e coisas do género isso aumenta o número de utilizadores. Mas acho que falhou. Não sei quais são os números recentes do X, mas acho que não funcionou. Parece que Musk não se importa — é tudo sobre ele. Talvez esteja a dizer a verdade, que só quer total liberdade de expressão.
Mas o Twitter já tinha problemas antes de Musk. Já havia desafios antes.
Sim, o trabalho que fizemos sobre os tweets com mensagens com raiva foi anterior à compra. As nossas pesquisas iniciais já davam sinais de problemas: o Twitter criava bolhas de informação, as pessoas não tinham uma visão completa das questões políticas, das campanhas políticas e dos candidatos políticos. O fluxo limitado de informação criava polarização. E pergunto-me se, na verdade, será que os problemas tóxicos externos para os quais o Twitter contribuía, toda esta polarização, se diminuíram desde a chegada de Elon Musk? Será que a influência da plataforma diminuiu porque há menos pessoas a utilizar o X e porque as pessoas já não o utilizam como antes para obter informações políticas? Pelo menos os jovens já não o usam, têm o TikTok, informam-se por lá.
https://observador.pt/especiais/um-ano-depois-nem-o-nome-sobreviveu-as-10-maiores-voltas-que-o-x-ex-twitter-deu-desde-que-foi-comprado-por-musk/
Ainda vemos muitos anúncios a serem feitos por políticos no X, continuam a comunicar por lá. Como é que se mantém como uma ferramenta política?
É o formato, que é exatamente o que fez com que se tornasse tão influente a nível político de uma forma tão rápida. Dá para publicar algo que pode chegar a uma grande quantidade de pessoas. Noutras plataformas isso não é tão fácil.
Já vimos o Twitter/X ser acusado de problemas de desinformação, de ter bots ou até de ser alvo de influência de Estados estrangeiros em momentos eleitorais. Como é que ainda continua a ser a plataforma por defeito para as comunicações políticas?
E será que os políticos se preocupam com isso? Isso só importa se os prejudicar. Os políticos, sobretudo nas democracias, são obstinados na procura da reeleição, tudo o que fazem é orientado por isso. Mesmo que tenham bons objetivos políticos, sem uma reeleição e uma visão a longo prazo, não vão chegar lá. E se o Twitter lhes permite controlar o fluxo de informação, seja com desinformação ou informação falsa, disseminá-la por todo o lado, isso na verdade ajuda-os. Temos políticos em todo o mundo a partilhar desinformação e informações falsas. Fazem-no se isso lhes convém. Não é assim tão complicado.
E depois, fora dos contextos democráticos, os líderes podem usar isso para controlar a narrativa que desejam. Porque, de muitas formas, em contextos autoritários, em que haja qualquer tipo de dissidência ou oposição, o Twitter não é o local ideal para se manifestarem, pois tornam-se alvos públicos. Toda a dissidência ocorre geralmente em redes mais pessoais e privadas, como o Telegram, o WhatsApp e o Facebook, onde é menos provável que se torne pública.
Uma das coisas que mudou quando o Twitter passou a X foi o selo azul de verificação. Passou a ser possível pagar para ter um selo azul e ter uma conta verificada — e isso teve impacto na confiança? As pessoas ainda confiam nas redes sociais?
Sim e não. É engraçado mencionar isso: fiz um inquérito em quatro países da Ásia Central e também na Geórgia. Uma das coisas que medimos foi o nível de confiança que as pessoas depositam nas redes sociais, incluindo o Twitter, e quanto usam as redes sociais. A distribuição é assimétrica, ou seja, há mais pessoas que não confiam nas redes do que pessoas que confiam plenamente. A maioria das pessoas está algures no meio.
Algumas das investigações que estamos a fazer mostram que o nível de confiança que as pessoas têm na plataforma determina o impacto que o consumo de informação tem na sua participação política, no comportamento de protesto e em várias outras questões. Se há tanta gente a confiar nela, mas se se acha que está cheia de desinformação, ou que os selos azuis estão a dar mais visibilidade a pessoas que não são verificadas da mesma forma que eram antes… Se a confiança está assim o potencial para causar resultados negativos é elevado.

Falou na ideia da verificação de factos: há utilizadores que tendem a reagir negativamente a isso, até no Twitter. Por exemplo, quando o Twitter usou pela primeira vez uma verificação de factos num tweet de Trump, em 2020, houve respostas negativas.
Sim, mas porque isso encaixou perfeitamente na narrativa de Trump: “notícias falsas, comunicação social liberal, Silicon Valley, é tudo uma farsa liberal, blá, blá, blá”. Aposto que, no caso dele, as publicações que tinham fact-check devem ter tido um alcance maior. Primeiro, porque as pessoas que não gostam dele queriam ver se ele estava a ser realmente a ter as afirmações escrutinadas. E, para quem gosta dele, seria visto apenas como os liberais a tentarem travá-lo.
Acha que há 20 anos o Twitter compreendia o poder que iria ter no futuro?
Não. Acho que especularam sobre algumas destas coisas desde o início. Mas, do ponto de vista académico, ao longo dos anos uma das coisas que todas as empresas de redes sociais têm feito é contratar académicos e especialistas em dados para investigar o assunto. Um dos tipos que conheço, que publica em revistas e faz o mesmo tipo de trabalho que eu, deixou temporariamente o cargo que tinha no Reino Unido para ir trabalhar para a Meta. Esteve durante três anos a participar numa investigação em ciências sociais sobre o que tudo o que as redes fazem e o que significam.
Isso foi antes ou depois das eleições de 2016?
Depois, quando a Meta estava a tentar fazer o seu controlo de danos. “Vamos trazer pessoas para nos ajudar a pensar melhor sobre o assunto.” Mas o que aconteceu foi que o meu colega teve de assinar um termo de responsabilidade. Não lhe é permitido divulgar ou utilizar quaisquer dados ou qualquer informação interna sobre as coisas são feitas. Passou três anos dentro da máquina e não pode falar sobre isso de forma explícita.
Há uns tempos participei num painel online para conversar com executivos do Facebook e de outras empresas sobre o que os académicos querem. E todos queremos dados. O difícil é que muitas das inferências que temos de tirar sobre estas consequências negativas ou positivas [das redes] de que falamos são baseadas em relatos pessoais. Não podemos ver o que as pessoas estavam a ler nas suas páginas, o que estavam a fazer, e depois cruzar essa informação com os dados.
“A IA vai facilitar a criação e a disseminação da desinformação”
Voltando ao X, o que mais o preocupa agora? E em relação ao futuro — a inteligência artificial, por exemplo?
Ah, era isso que ia dizer. É nisso que estou a trabalhar agora. Ter uma plataforma como X, em que há muita coisa, em que há uma comunicação de cima para baixo… A IA vai tornar mais fácil criar informações que vão ficar virais e se espalharão, para criar esquemas para disseminar essas publicações. A IA facilita isso, para o bem ou para o mal. Parte do problema é que uma plataforma como o Twitter/X é um negócio. E, tal como qualquer outra rede social, se for mais rentável não regular e filtrar, não impedir e limitar o uso da IA para disseminar desinformação, vão fazê-lo.
Os governos não demonstraram qualquer inclinação para regular as redes sociais. Quer dizer, tem acontecido mais na Europa do que nos EUA, onde as redes não são de todo regulamentadas. Se as coisas estão mal nos EUA é mau para todos, devido à proporção da economia que controlam. A IA vai facilitar a criação e a disseminação da desinformação.
Na União Europeia há regras para a propaganda política. É a solução? Existe alguma forma de controlar o assunto globalmente?
Não. A estrutura de incentivos é diferente. Enquanto tivermos um sistema de Estados-nação sem governação global, os incentivos para regular ou não regular serão diferentes consoante o local onde se está. A UE pode aprovar leis para regulamentar, mas as pessoas encontram formas de as contornar.
Usando uma perspetiva da ficção científica sobre isto: o mundo digital, à medida que avançamos cada vez mais para um mundo de IA, está a estruturar a nossa economia, as nossas redes sociais e o fluxo de informação. E à medida que tudo se move cada vez mais neste sentido, acredito que, sem uma governação global com “dentes”, o futuro é distópico.
Estamos a chegar a um ponto em que, por causa de toda a tecnologia e de como pode ser usada para estruturar o que as pessoas pensam, o que veem e como funcionam as economias, se tornou muito fácil para os ricos utilizarem tudo isto para manter a sua posição em relação aos pobres. E, sem algum tipo de governação global para gerir, continuaremos a ver isto acontecer. O fluxo de informação está tão perto e estamos insensíveis à violência. Se se puder usar isso para controlar o fluxo de informação torna-se fácil manter o mundo dessa forma. Mas também gostaria de acreditar que o contraponto é que talvez surjam ferramentas para os desfavorecidos reagirem.
Tenho tendência a não ser muito otimista, é assustador. O nosso avanço tecnológico ao longo da história está a crescer exponencialmente. O facto é que nós, enquanto seres humanos, fizemos muito mais para avançar tecnologicamente nos últimos 50 ou 100 anos, centenas de vezes mais do que em toda a nossa existência. E este avanço continua, a IA vai deixá-lo em esteróides. O crescimento científico, a produção de conhecimento, tudo isso está a explodir a um nível que acho que nem sequer imaginávamos.
Sabe quando as pessoas dizem ‘onde é que irias se pudesses ir a qualquer momento da História’? Acho que estamos a viver o momento mais fascinante da história da Humanidade neste momento.
Apesar de todos os desafios?
Sim, sim, apesar dos desafios. O potencial de cair de um precipício ou de romper o contínuo Espaço-tempo está presente de igual forma. Tento imaginar como vai ser o futuro daqui a 50 anos e não consigo. Tenho 55 anos e, quando penso na tecnologia dos anos 70, quando nasci, e no que temos agora é espantoso. Olhar para a tecnologia de 2006, quando o Twitter apareceu, é uma diferença enorme.
E acha que o X vai continuar a existir? Praticamente não temos visto redes sociais a desaparecer por completo, tirando o caso do MySpace.
Pois, acho que nada disto vai mudar tão cedo, porque ainda dão muito dinheiro. Por que razão é que mudaria? Por que razão iria acabar? Mesmo que apresentem prejuízos, isso pode ser ajustado. Espero certamente que a Meta não desapareça, porque já a uso como o álbum de fotografias há muito tempo. Se falirem, vou precisar de arranjar espaço num servidor para colocar tudo isto.