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Genéricos do Ozempic e Wegovy contra diabetes e obesidade chegam a vários países. Que impacto se espera em Portugal?

Patente do Ozempic e Wegovy termina em vários países e a partir deste fim de semana podem ser produzidos genéricos. Que impacto poderá ter em Portugal? Nove perguntas e respostas.

Mariana Marques Tiago
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É oficial: a indústria farmacêutica de alguns países já pode produzir genéricos do Ozempic e Wegovy, medicamentos da Novo Nordisk indicados para o tratamento da diabetes e da obesidade, respetivamente. Este sábado chega ao fim a patente que até então a empresa Novo Nordisk detinha para produzir estes medicamentos mas só em alguns países, como é o caso da China, Índia, Brasil, Canadá, Turquia e África do Sul. A partir de agora estes países poderão desenvolver medicamentos semelhantes — o que deverá levar a quebra de preços.

Em Portugal, contudo, a Novo Nordisk só vai perder a patente do Ozempic e Wegovy em 2031, indica esta empresa ao Observador. Quando isso acontecer, que impacto poderá ter no mercado o surgimento de genéricos? Serão estas opções terapêuticas tão boas quanto a medicação original? Poderá abrir-se a porta a um consumo desregrado? Será esta uma boa notícia para a indústria farmacêutica? O Observador preparou nove perguntas e respostas sobre o tema.

Para quando está previsto o surgimento dos primeiros genéricos a nível internacional?

As primeiras versões genéricas destes medicamentos devem surgir já este fim de semana na Índia, escreve o jornal norte-americano New York Times. E é esperado que nos próximos meses apareçam no Canadá, Brasil, Turquia, África do Sul e também na China.

Só neste último país, no início de março, pelo menos dez empresas estavam já na fase final de avaliação do genérico que produziram. Segundo o NYT, as autoridades reguladoras chinesas estavam prestes a terminar a avaliação do produto e este seria depois comercializado.

Em Portugal, no entanto, ainda vamos ter de esperar vários anos até que sejam produzidos os primeiros genéricos do Ozempic e Wegovy. Quem o diz é a médica Paula Freitas, que sublinha que o fabrico de genéricos “não é algo simples”. Na verdade, explica a também presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, o termo correto é medicamentos “biossimilares” (ao invés de genéricos), ou seja, medicamentos que são semelhantes ao fármaco biológico de referência.

“Portugal tem muitos biossimilares e o Infarmed há de analisar todo o processo, sendo que na Europa temos vários requisitos legais a cumprir” na criação de medicação genérica, explica. E acrescenta que “é importante que as pessoas percebam que comprimidos normais são mais simples de replicar, porque neste caso a estrutura química [do Ozempic e Wegovy, ambos injetáveis] é muito mais complexa”.

Mas a patente do Ozempic já expirou em Portugal?

Não. Em Portugal, a patente da Novo Nordisk só irá expirar em 2031, à semelhança do resto da Europa, afirma a empresa ao Observador. Este é um dos motivos que levará a que o surgimento de genéricos em Portugal demore ainda mais a acontecer.

Tal como na Europa, também nos Estados Unidos da América a patente só irá terminar em 2031. O atraso deve-se a medidas especiais que permitem às empresas deter o monopólio do fabrico de um fármaco durante mais tempo, com o objetivo de incentivar a inovação, explica o New York Times.

Esta é uma boa notícia para a indústria farmacêutica?

Apesar de a patente ainda não ter expirado em Portugal (e de faltarem ainda cinco anos para tal), tanto a Associação Nacional das Farmácias (ANF) como a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo veem com bons olhos o fim da patente em alguns países.

“É muito importante preservar este sistema que protege as empresas que investigam. Ou seja, as patentes servem para incentivar a indústria a procurar novos medicamentos, por isso são necessárias. Mas quando já se ultrapassou o período para investir, faz todo o sentido que outras empresas possam produzir esses mesmos fármacos”, defende a presidente da ANF Ema Paulino.

https://observador.pt/2026/01/09/estudo-aponta-para-recuperacao-de-peso-apos-interrupcao-do-tratamento-antiobesidade/

É precisamente a existência de genéricos no mercado que provoca uma baixa significativa no preço dos fármacos, sustenta. “As patentes, tal como tudo, têm início e fim. Vemos [esta notícia com bons olhos] no sentido em que tudo o que venha para o mercado e que leve a que haja mais concorrência, melhor”, completa Paula Freitas, presidente da Sociedade de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo. E sublinha que quer a obesidade, quer a diabetes, são doenças muito frequentes no país.

No entanto, uma verdadeira “boa notícia para Portugal será quando, no nosso país, tivermos aspirado a que a marca possa existir cá em forma de genéricos”, remata.

Empresa que criou o Ozempic e o Wegovy teme vir a perder relevância no mercado?

De acordo com o New York Times, a Novo Nordisk, responsável pela criação do medicamento para a diabetes e para a obesidade, recorreu à via judicial na Índia, China e Brasil com o objetivo de bloquear o surgimento de genéricos. Além disto, de forma a antecipar o surgimento de concorrência, decidiu reduzir os preços praticados na China e Brasil.

Tudo isto parecem sinais de que a empresa teme vir a perder relevância no mercado. Mas, quando questionada pelo Observador, a Novo Nordisk fez questão de sublinhar que o fim da patente é “um processo natural do ciclo de vida de um medicamento” e por isso é visto pela empresa como “um estímulo para continuar a inovar”.

“Permanecemos confiantes na robustez e no valor científico do nosso portefólio”, garante a empresa, que se diz “preparada para responder ao contexto associado à perda de exclusividade” desta medicação e acredita que conseguirá “manter a liderança global no tratamento de doenças crónicas graves”.

Enquanto não expira a patente em Portugal, a redução de preços noutros países pode ter impacto no nosso país?

É pouco provável que a redução de preços noutros países provoque, no imediato, uma diminuição dos preços no nosso país. “Em Portugal, o impacto só se sentirá, eventualmente, a um nível relacionado com o acesso”, considera a líder da Associação Nacional das Farmácias.

Salientando que o Ozempic é um medicamento “comparticipado que está em escassez, se houver mais laboratórios a produzir, acaba por haver mais stock internacional deste medicamento. Isto vai aliviar a pressão da procura, com mais oferta e maior disponibilidade”, diz Ema Paulino.

Mas ressalva: “Todos os anos há revisão de preços de medicamentos e Portugal faz referência com outros outros países europeus. E pode haver alterações, numa perspetiva de diminuição do preço. Podemos vir a ter esta diminuição eventualmente, é natural que aconteça.”

Segundo estima a líder da Sociedade de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo Paula Freitas, na medicação biossimilar “normalmente o custo é 30 a 40% mais baixo” do que o preço de venda do fármaco original.

Até ao momento, escreve o New York Times, as indústrias que têm fabricado genéricos não detalharam quais os valores que deverão ser aplicados aos seus medicamentos. Mas analistas ouvidos pelo jornal norte-americano preveem que o custo associado deverá rondar os 15 dólares (cerca de 13 euros) por mês, uma diminuição significativa quando comparado aos 349 dólares por mês até então cobrados nos EUA por doses de Wegovy.

O Observador questionou o Infarmed sobre o fim da patente em alguns países e o possível impacto que isto poderá vir a ter em Portugal, como por exemplo se será necessário ter um maior controlo sobre o consumo destes genéricos e de que forma irão garantir um consumo dentro da legalidade, mas até ao momento não obteve resposta.

Há muita gente em Portugal a recorrer ao Ozempic e ao Wegovy?

“Em Portugal há muita gente a recorrer tanto ao Ozempic como a medicamentos da mesma classe [como o Wegovy]”. Quem o diz é Ema Paulino, e explica que por serem tão procurados, estão “em escassez”. “As farmácias vão tendo distribuição à medida que chega à farmácia, mas não chega. Temos sempre uma lista de pessoas para quem vamos direcionado o stock à medida que vai chegando”, afirma a presidente da Associação Nacional de Farmácias.

De facto, exclusivamente no que toca ao Ozempic, o país atingiu um recorde de vendas em junho de 2025, quando se venderam mais de 37 mil embalagens por mês (mais 4 mil que no ano anterior), avançou à época o Expresso. Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, diz que em Portugal há muita gente a precisar de Ozempic “porque 90% das pessoas com diabetes têm obesidade”.

Aliás, em fevereiro deste ano foi anunciado que o Serviço Nacional de Saúde vai passar a comparticipar esta medicação para adultos com diabetes tipo 2 e obesidade ou elevado risco cardiovascular (uma das principais consequências associada a estas doenças).

https://observador.pt/especiais/consultas-a-140-euros-e-pagamentos-em-dinheiro-medica-indiciada-por-receitar-ozempic-a-doentes-sem-diabetes-e-lesar-o-estado-em-e3-milhoes/

No que toca ao Wegovy, este fármaco para a obesidade — que não tem comparticipação — só entrou no mercado português no início de abril e só nesse primeiro mês foram compradas 6.800 embalagens, avançou o jornal Público, um investimento de 1,2 milhões de euros.

Em termos mundiais, o New York Times escreve que o mercado para genéricos destes fármacos é muito vasto, sendo que só a Índia e a China juntas, registam mais de 800 milhões de adultos obesos ou com excesso de peso. E mais de 360 milhões de adultos com diabetes.

O surgimento de genéricos poderá levar a um consumo desenfreado?

Questionada se o surgimento de genéricos para a diabetes e para a obesidade pode levar a um consumo desregulado, a Associação Nacional das Farmácias recusa tal cenário.

Estes medicamentos “são sempre sujeitos a prescrição, quer seja para pessoas com excesso de peso ou com diabetes”, afirma Ema Paulino. Por isso, considera “que não haverá tendência a haver prescrição destes medicamentos a menos que se justifique”.

A presidente da ANF afirma que “em Portugal está ainda a ser feita uma avaliação sobre quem mais pode beneficiar desta medicação”, isto porque nos últimos tempos têm surgido estudos que indicam que medicamentos como o Ozempic reduzem significativamente o risco cardiovascular e a doença renal crónica.

https://observador.pt/2025/01/22/reducao-do-risco-de-demencia-e-aumento-do-risco-de-problemas-renais-estudo-aponta-novos-efeitos-positivos-e-negativos-do-ozempic/

Ema Paulino destaca ainda um outro aspeto positivo relacionado com a obesidade, nomeadamente o facto de os doentes não terem de “recorrer sempre a outras opções como cirurgias, que são métodos mais invasivos e até mais onerosos, que têm um tempo de espera significativo”. E nesse sentido é positivo haver um maior stock desta medicação contra a obesidade.

A endocrinologista Paula Freitas partilha da opinião: “O médico tem sempre de prescrever a medicação. E só deve fazer esta medicação quem tiver essa indicação, por isso não haverá consumo desenfreado.”

Pode haver diferenças entre o Ozempic ou Wegovy original e o genérico?

A resposta mais curta é sim, dizem Ema Paulino e Paula Freitas.

A representante das Farmácias afirma que logo em primeira instância “pode haver uma diferença legalmente permitida, que tem que ver com os excipientes [ou seja, componentes deste fármaco que não se prendem com a substância ativa]”. No entanto, a substância ativa, o semaglutido, “será igual e terá que passar testes de bioequivalência, ou seja, terá o mesmo comportamento de distribuição pelo corpo.”

Já Paula Freitas, da Sociedade de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, argumenta que a produção será sempre diferente a partir do momento em que tem origem em indústrias diferentes. E recorre a um exemplo simples para o ilustrar: “Se eu tiver uma videira em Bordéus e tiver a mesma videira no Porto, os vinhos vão ser diferentes. Tal como se duas pessoas tiverem a mesma receita e usarem os mesmos ingredientes vão ter bolos diferentes.”

Há ainda um outro pormenor que pode diferenciar o genérico do fármaco original: “Em situações pontuais pode haver reações diferentes, mas isso é muito raro. E pode acontecer também com o fármaco original”, refere Ema Paulino.

As empresas vão ter interesse em produzir genéricos destes fármacos?

A Associação Nacional das Farmácias está segura de que “os laboratórios farmacêuticos terão interesse em entrar neste mercado”, uma vez que a procura pelo Ozempic, de forma particular, “tem crescido”, além de que este medicamento “tem mostrado ter ainda mais benefícios”, afirma Ema Paulino.

A representante desta associação destaca a existência de “estudos que mostram que há diminuição do risco cardiovascular por via do controlo da síndrome metabólica”, sendo que este fármaco tem demonstrado capacidade para “diminuir o risco cardiovascular, por isso é expectável que haja maior procura” por parte do mercado.