Acordou esta manhã, provavelmente com uma dor de cabeça ligeira, e engoliu um ibuprofeno. Não pensou nas décadas de triagem molecular que tornaram aquele comprimido branco possível. Simplesmente engoliu-o, confiando cegamente que não o mataria, mas que, pelo contrário, iria inibir as suas enzimas com precisão de atirador furtivo.
Movemo-nos pelo mundo com um conforto arrogante, assumindo que a saúde é um fenómeno natural, como a chuva. Esquecemo-nos de que cada intervenção que nos salva a vida é uma vitória arrancada ao desconhecido à força, por alguém, algures, a olhar para um microscópio até os olhos arderem.
Vivemos um momento de agitação social crucial em Portugal. Médicos e enfermeiros enchem as praças, exigindo — com toda a legitimidade — dignidade. Vemo-los. Aplaudimo-los. Eles são a linha da frente. Mas, na retaguarda, nas trincheiras invisíveis dos laboratórios e caves dos institutos, encontra-se um exército de profissionais ainda mais precário: os investigadores.
A Arquitetura Invisível da Sobrevivência
Sejamos honestos: sem o investigador, o médico está de mãos atadas. A medicina é, na sua essência, biologia aplicada. Sem o conhecimento fundamental gerado na ciência básica, um cirurgião não pode operar com instrumentos que não foram concebidos e um clínico não pode prescrever uma cura que não existe.
Muitas vezes, a “invenção” que nos salva hoje foi desprezada ontem. Olhemos para a vacinologia moderna. A tecnologia de mRNA, que redefiniu a resposta global a pandemias, não foi um milagre súbito. Foi o resultado de décadas de trabalho de cientistas como Katalin Karikó, que enfrentou rejeições, despromoções e ceticismo (Karikó et al., 2005).
O mesmo aconteceu com a insulina. Antes de ser um frasco standard num frigorífico, a diabetes era uma sentença de morte lenta. A insulina nasceu de experiências desesperadas e “sujas” de Banting e Best em 1921, a trabalhar com cães e recursos limitados para isolar uma secreção pancreática vital (Banting & Best, 1922). Hoje, damos por garantido. Na altura, foi uma revolução feita por quem arriscou tudo.
A Armadilha da “Bolsa”: Uma Geração em Suspenso
Apesar destas contribuições, o perfil de quem faz estas descobertas em Portugal não é o de um cientista sénior num gabinete de carvalho. É um estudante de doutoramento de 28 anos ou um pós-doc de 35, em Lisboa, no Porto ou em Braga, a viver de uma bolsa.
É aqui que a narrativa choca com a realidade. Uma fatia gigantesca da produção científica nacional na área da saúde, aquela que estuda o cancro, as doenças neurodegenerativas ou a resistência a antibióticos, é realizada por trabalhadores que, tecnicamente, não são trabalhadores. São bolseiros.
Muitos não têm contratos de trabalho, não têm subsídio de desemprego e operam com um Seguro Social Voluntário que mal cobre o básico. Vivem de bolsa em bolsa, presos num limbo burocrático, tratados como eternos estudantes, apesar de serem profissionais altamente diferenciados que produzem conhecimento de ponta.
Exigimos-lhes rigor de medical writing. Esperamos que publiquem na Nature ou na The Lancet. Mas negamos-lhes a estabilidade de um contrato ou a certeza de um ordenado no próximo janeiro. É uma dissonância cognitiva. Queremos a cura para o cancro, mas não queremos pagar a reforma da pessoa que a está a descobrir.
O Custo do Silêncio
Imagine um mundo onde os antibióticos deixam de funcionar porque ninguém financiou a investigação em novos péptidos antimicrobianos. Isto não é ficção; é uma realidade iminente prevista em relatórios globais se continuarmos a negligenciar o ecossistema de investigação (O’Neill, 2016). A próxima pandemia ou o próximo avanço no tratamento de Alzheimer dependem de pessoas que, hoje, se perguntam se o financiamento do seu projeto será cortado no próximo concurso da FCT.
Um Apelo à Consciência
Da próxima vez que olhar para os resultados das suas análises clínicas e sentir alívio por estar tudo bem, pare um segundo. Reconheça que esses biomarcadores não caíram do céu. Foram definidos por alguém que passou noites sem dormir.
Se queremos um futuro onde as doenças são curadas, precisamos de tratar os nossos cientistas com o mesmo rigor que eles aplicam aos seus dados. Porque, sem eles, o hospital fecha as portas.