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(A) :: Trump Executa. Israel Decide

Trump Executa. Israel Decide

Israel é o cérebro desta operação. É Israel quem tem mais a perder, quem tem os objectivos estratégicos mais claros, e quem possui o conhecimento institucional mais profundo.

Tiago Silvério Marques
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Há uma narrativa que domina a cobertura ocidental do conflito com o Irão e que me parece, francamente, errada. A ideia de que Trump conduz a operação. Que Trump é o decisor. Que Trump é quem define os passos desta guerra.

Compreendo a lógica. Trump ocupa o espaço mediático como ninguém. As suas declarações são imprevisíveis, os seus gestos são teatrais, e a imprensa ocidental há muito aprendeu que ele é garantia de audiência. Mas confundir protagonismo mediático com poder estratégico real é um erro de análise que tem consequências — porque nos impede de perceber quem está verdadeiramente a conduzir este conflito, quanto tempo vai durar, e em que condições pode terminar.

Escrevo isto de Dubai, onde vivo e desenvolvo negócio há vários anos. Não como observador à distância, mas como alguém que trabalha diariamente com os mercados, as instituições e os actores desta região. E o que vejo no terreno é uma arquitectura de poder muito diferente daquela que a imprensa ocidental descreve.

Quem decide o quê

Israel é o cérebro desta operação. É Israel quem tem mais a perder, quem tem os objectivos estratégicos mais claros, e quem possui o conhecimento institucional mais profundo sobre a ameaça iraniana. Décadas de intelligence, décadas de doutrina militar construída especificamente para este cenário. Nenhum outro actor nesta equação tem esta combinação de motivação existencial e capacidade técnica para definir os parâmetros da operação.

Os Estados Unidos são o músculo. Fornecem cobertura diplomática no Conselho de Segurança, capacidade de fogo que Israel sozinho não consegue projectar de forma sustentada, e dissuasão contra uma escalada regional mais ampla. É um papel essencial — mas é um papel de execução, não de arquitectura estratégica.

Mas há um actor cuja lógica estratégica raramente é analisada com a mesma clareza: o Irão. Que não entra neste confronto para vencer batalhas convencionais contra Israel ou os Estados Unidos. A sua estratégia histórica tem sido diferente: garantir que qualquer tentativa de limitar a sua influência regional tem custos elevados e prolongados. Mais do que procurar vitórias rápidas, Teerão procura prolongar o conflito no tempo — transformando-o num problema político, económico e militar difícil de sustentar para os seus adversários. O Irão é talvez o único actor neste conflito que não precisa de vencer para atingir os seus objectivos.

O GCC posiciona-se como força de estabilidade e diálogo. Os Emirados Árabes Unidos e o Qatar mantêm canais abertos com Teerão que Washington e Jerusalém não conseguem manter. Esta neutralidade estratégica não é fraqueza — é um activo diplomático de enorme valor, e uma das razões pelas quais o GCC está particularmente bem posicionado para contribuir para uma resolução eventual do conflito.

E Trump? Trump tem todos os incentivos para parecer o decisor. É conveniente para toda a gente — incluindo Israel — que ele ocupe esse papel. Absorve a crítica internacional. Mantém a sua base doméstica mobilizada. Dá aos outros actores negação plausível.

Porque é que esta distinção importa

Não é uma questão académica. É uma questão com implicações directas na duração do conflito e nas condições em que pode terminar.

Se Trump fosse o verdadeiro motor, o conflito terminaria quando a política doméstica americana assim o determinasse — uma variável relativamente previsível, indexada aos ciclos eleitorais e às sondagens. Os analistas sabem modelizar isso.

Se Israel é o motor, a lógica é completamente diferente. Os objectivos israelitas são existenciais, não eleitorais. Israel não está a gerir um ciclo de notícias — está a tentar eliminar uma ameaça que considera fundamental para a sua sobrevivência como Estado. O limiar para “missão cumprida” é definido por um país que vive sob ameaça de mísseis há décadas, com uma doutrina de segurança nacional que não admite ambiguidade. Esse limiar é muito mais difícil de atingir — e muito mais difícil de negociar — do que qualquer acordo que Trump possa anunciar como vitória para a sua base.

Calcular correctamente o impacto económico

Do ponto de vista económico, o conflito tem consequências que vão muito além das manchetes militares — e é aqui que a minha perspectiva de terreno é mais relevante.

A Arábia Saudita está no meio da maior transformação económica da sua história — e de uma transformação social real, ainda que conduzida a um ritmo e em moldes definidos pelo próprio Estado. O Vision 2030 e a organização do Mundial de 2034 representam um programa de investimento sem precedentes, com uma capacidade demonstrada de atrair capital e talento internacional que muitos analistas ocidentais subestimaram. A ambição é real. O capital comprometido é real. A determinação política é real.

Mas o conflito regional activo introduz uma variável que nenhum programa consegue neutralizar completamente: o desconto geopolítico que investidores institucionais sofisticados aplicam nas suas decisões. Private equity internacional adia decisões. Talento ocidental qualificado hesita em realocação para Riade. Projectos de construção avançam — mas com prémios de risco mais elevados. O impacto não é na ambição, é no timing e no sequenciamento. Cada mês de conflito activo é um mês de atraso num roadmap que já é extraordinariamente exigente.

Os Emirados Árabes Unidos são mais resilientes a este tipo de pressão. O Dubai provou em 2008 e na pandemia que consegue recuperações em V. A proposta de valor dos UAE não depende de estabilidade regional perfeita — depende de infraestrutura, neutralidade estratégica e qualidade de vida. Esses activos mantêm-se. Mas até aqui, investidores sofisticados estão a diversificar jurisdições — não a sair, mas a adicionar Singapura, por exemplo, como hedge. É um sinal que o mercado lê, mesmo que ninguém o diga em voz alta.

Uma guerra de todos

As repercussões económicas deste conflito há muito deixaram de ser regionais. O preço do petróleo responde a cada escalada. As cadeias de abastecimento globais, ainda fragilizadas pelo pós-pandemia, absorvem cada perturbação no estreito de Ormuz. Os mercados financeiros internacionais replicam risco a cada novo ciclo de ataques. A inflação que as famílias europeias sentem nas suas facturas de energia tem, em parte, a sua origem nesta instabilidade. Esta não é apenas uma guerra do Médio Oriente — é uma guerra cujos custos são pagos globalmente.

E é precisamente por isso que a narrativa importa. Enquanto o debate ocidental estiver obcecado com Trump — com as suas declarações contraditórias, o seu estilo imprevisível, o seu teatro mediático — estamos a discutir o instrumento e a ignorar a mão que o maneja.

Israel definiu os objectivos. Os Estados Unidos forneceram a capacidade de os executar. O resultado é um conflito com uma lógica estratégica própria, que não termina quando Trump decidir que terminou — termina quando Israel considerar que os seus objectivos existenciais foram alcançados.

O que torna a posição saudita particularmente relevante: de todos os actores regionais, é Riade quem tem mais a ganhar com um Médio Oriente estável — e, portanto, mais incentivo para criar as condições diplomáticas em que Israel possa chegar a esse ponto sem ter de destruir tudo para o atingir. A Arábia Saudita não decide quando termina. Mas pode influenciar como termina — e a que custo.

Compreender isto não é tomar partido. É fazer a pergunta certa. E fazer a pergunta certa é o primeiro passo para encontrar uma saída — que, a esta altura, interessa a toda a gente.