A curva de preços no mercado de futuros do petróleo mostra que o actual choque energético global pode ser significativo, mas de curta duração. A curva apresenta uma tendência acentuadamente desinflacionista até aos 80 dólares por barril até ao final de 2026. Os mercados estão a antecipar uma guerra curta, com impacto limitado na oferta, mas com efeitos imediatos nos mercados e nas economias importadoras.
No pior cenário, um novo choque energético desencadeado por uma guerra com o Irão traria pressões estagflacionistas à economia global, especialmente nas economias que não conseguiram reforçar as suas cadeias de abastecimento energético desde 2022, como a União Europeia, que continua num ambiente de baixo crescimento e particularmente exposta a choques energéticos. Mesmo que o conflito seja de curta duração, a perturbação no Estreito de Ormuz e nas infraestruturas do Golfo fez o mercado petrolífero passar de um excedente de 4 milhões de barris por dia, segundo a AIE, para um equilíbrio apertado, à medida que as rotas marítimas ficam sob pressão.
O Estreito de Ormuz transporta quase 25% das exportações marítimas de petróleo e uma grande parte dos fluxos de gás natural liquefeito (GNL), o que o torna a rota energética mais sensível. No entanto, 80% do tráfego através do estreito dirige-se para a Ásia, sobretudo para a China. É por isso que o governo chinês suspendeu todas as exportações de produtos refinados, tentando limitar o risco de constrangimentos na oferta.
Devemos também recordar que 100 dólares por barril hoje não equivalem a 100 dólares por barril em 2008. Em termos de dólares actuais, a crise petrolífera de 2008 só ocorreria com um preço de cerca de 190 dólares por barril. Ajustar pela inflação é fundamental.
A oferta fora da OPEP é também um factor diferenciador face a outras crises, tendo aumentado significativamente desde 2008 e contribuído para um mercado mais estável, apesar da subida dos preços. O actual choque energético é completamente diferente do de 2008 para os Estados Unidos.
Em 2008, a produção dos Estados Unidos mal atingia 5 milhões de barris por dia. Hoje, os EUA são o maior produtor mundial de petróleo, com 13,7 milhões de barris diários.
Em 2008, a produção de gás natural seco rondava os 56 mil milhões de pés cúbicos por dia. Prevê-se que atinja 106 mil milhões de pés cúbicos diários em 2026. Os EUA alcançaram independência energética em gás natural e, com a inclusão do Canadá e do México, a independência petrolífera da América do Norte está praticamente completa.
Mesmo considerando todas estas diferenças face a outras crises, um choque energético aumentaria imediatamente os preços dos combustíveis nos postos, mas também elevaria o custo da electricidade, do aquecimento, dos fertilizantes, dos plásticos, dos produtos químicos e de muitos bens industriais que dependem de derivados petroquímicos.
Estes efeitos secundários nos preços podem rapidamente reflectir-se em inflação para consumidores e produtores, mesmo que outros factores desinflacionistas atenuem o impacto global no índice de preços no consumidor.
Nas economias importadoras de energia, como a UE, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Índia e partes da América Latina, o aumento das facturas energéticas deverá penalizar famílias que já sofrem com pressões inflacionistas persistentes resultantes de despesa pública descontrolada e expansão monetária.
Para países como o Paquistão, fortemente dependente de GNL importado, e várias nações do Sudeste Asiático, o choque pode desencadear tensões relevantes na balança de pagamentos, desvalorização cambial e até risco de racionamento, à medida que se esgotam as margens orçamentais.
O nível actual de reservas em dólares dos países emergentes é elevado, mas não suficiente para compensar totalmente o impacto de uma crise energética no poder de compra das suas moedas.
Se os governos decidirem “combater” a crise energética aumentando a despesa e os subsídios (o que, na prática, equivale a imprimir dinheiro) o impacto macroeconómico será estagflacionista: inflação mais elevada, com crescimento fraco ou inexistente.
O maior risco para a inflação não será apenas o impacto dos preços da energia, mas a resposta dos governos caso optem por gastar e imprimir dinheiro para mitigar os efeitos da guerra.
O risco mais significativo para a economia global surgiria se os bancos centrais decidissem subir as taxas de juro em resposta à subida dos preços da energia. Aumentar taxas travaria o investimento, o consumo e a criação de emprego, sem impacto nos preços originados por um factor geopolítico externo.
Se a guerra se prolongar, poderá levar a uma revisão em baixa das previsões de crescimento global, que já eram fracas para 2026. O FMI já estimava um abrandamento para cerca de 3% ou menos, e o choque associado ao Irão poderá implicar condições financeiras mais restritivas.
Uma guerra prolongada poderá desencadear um efeito dominó de recessões nas regiões importadoras de energia, enquanto os países exportadores ricos em recursos veriam um impulso económico que não compensaria o impacto nas maiores economias, sobretudo importadoras.
O maior risco neste momento é, como sempre, um efeito dominó de erros de política.
Os governos das economias desenvolvidas poderão sentir-se tentados a gastar e a imprimir dinheiro, ignorando a falta de margem orçamental e a inflação persistente já criada pelos erros cometidos durante a Covid-19 e pelas respostas políticas adoptadas. Os governos poderão intensificar os défices, e os bancos centrais poderão repetir os erros de 2021–2024 ao subir taxas no momento mais inoportuno.
A estagflação é um cenário pouco provável, mas, se ocorrer, será inteiramente provocada por erros de política dos governos e dos bancos centrais.
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