Os aumentos de relatos de ataques a crianças brasileiras nas escolas portuguesas levaram o Consulado-Geral do Brasil em Lisboa a desenvolver estratégias de combate às ações discriminatórias. Esta quarta-feira, será lançado em Lisboa o concurso “Amigos e Amigas do Brasil”, que propõe atividades extracurriculares para alunos de escolas em todo o país. O Governo brasileiro, através dos seus órgãos diplomáticos, vai financiar os prémios de até 500 euros para os estudantes e uma viagem ao Brasil para os professores.
“A xenofobia é uma realidade incontornável, que infelizmente preocupa de maneira dolorosa a comunidade brasileira”, disse ao Observador o cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, que justifica a proposta educativa como uma forma de “combater o desconhecimento e estereótipos sobre o Brasil através da cultura”. Para tal, os estudantes serão convidados a desenvolver um texto, vídeo, desenho ou pintura que represente a “amizade, interculturalidade e integração entre Brasil e Portugal”.
Em novembro, um menino brasileiro de 9 anos, estudante numa escola em Cinfães, Viseu, ficou com dois dedos amputados depois de um acidente dentro da instituição de ensino. A mãe da vítima alega que duas crianças fecharam a porta da casa de banho na mão do seu filho, que foi impedido de sair e pedir ajuda. O Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, que lamenta o caso, negou que a iniciativa “Amigos e Amigas do Brasil” tenha surgido a partir do acidente em Viseu, mas confirma que a frequência de relatos como este levou a que a violência contra os imigrantes brasileiros em Portugal se tornasse parte da agenda regular da comissão de assuntos consulares, sendo debatidos por ambos os países.
O cônsul-geral espera que além dos brasileiros, outras comunidades de imigrantes sejam beneficiadas pela iniciativa. “A ideia desta atividade de integração é lutar contra o racismo, a xenofobia e a violência, de uma forma que acolha as vítimas e desperte a atenção das pessoas”.
A iniciativa do concurso partiu do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, em colaboração com o Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores do Brasil — equivalente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros — e a embaixada do Brasil em Lisboa. O Ministério da Educação de Portugal foi informado oficialmente sobre a iniciativa através de uma nota da embaixada brasileira, afirma o consulado brasileiro, mas não tem qualquer relação com o concurso.
21 prémios no total — e três professores vão viajar até ao Brasil
A primeira apresentação do projeto acontece esta quarta-feira e vai ser feita por Alessandro Candeas e pelo presidente da Junta de Benfica, Ricardo Marques, na Escola Secundária José Gomes Ferreira, nesta mesma freguesia. Na quinta-feira, a mesma apresentação ocorre na Escola Secundária D. Pedro V, no bairro das Laranjeiras, com a presença de Candeas e com a do embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro.
No total, serão entregues 21 prémios, sendo 3 para os professores. O grupo de primeiros classificados de cada uma das categorias — texto, vídeo ou desenho/pintura originais — entre os dois blocos (do 5º ao 8º ano ou do 9º ao 12º ano) vai receber 500 euros. Os segundos classificados recebem 250 euros e os terceiros recebem 80 euros. Na inscrição, os alunos deverão indicar um professor como o orientador do trabalho, podendo este ajudar no processo de pesquisa e elaboração. Os três docentes mais nomeados ganham uma viagem ao Brasil, com bilhetes aéreos e alojamento pagos pelos órgãos brasileiros. “É importante para nós valorizarmos [o esforço] dos professores, pois todo o envolvimento no processo de aprendizado dos alunos tem início através deles”, explicou ainda Candeas.
O júri que avaliará os trabalhos, informa o consulado, será formado por representantes das organizações, empresas brasileiras e portuguesas, pela comunidade brasileira residente em Portugal, imprensa, por entidades e personalidades brasileiras e portuguesas das áreas de educação, promoção dos direitos humanos e combate ao racismo e à xenofobia. Entre os critérios a analisar, estão a adaptação ao tema proposto, criatividade e impacto positivo da mensagem. Serão entregues certificados aos grupos vencedores, anunciados a 25 de maio nas plataformas de comunicação social do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa.
Podem participar, através de uma inscrição virtual até ao dia 30 de abril, estudantes matriculados em escolas públicas e privadas de Portugal. Os trabalhos devem ser feitos entre 2 e 5 pessoas, sempre com a condição de que cada grupo tenha pelo menos 2 elementos de nacionalidades diferentes. Para que a participação não fique limitada às nacionalidades de cada turma, podem inscrever-se alunos de turmas distintas, desde que dentro da mesma categoria de anos letivos. As regras do concurso exigem a autorização dos pais ou responsáveis para a participação dos menores.