São 11:11 de uma terça-feira de manhã. Acabado de sentar para a entrevista com o Observador, Carlão beija os pulsos por estarmos perante uma hora com os números iguais, admitindo que é apenas uma superstição que lhe passaram as filhas para que sejam cumpridos os seus desejos. Pode ser um ato inocente de pensamento mágico, mas a verdade, como afirma logo de seguida, é que a maioria tem vindo a concretizar-se.
Ao longo dos 50 anos que cumpriu em 2025, foi possível assistir ao Carlão com demonstrações de candura desarmante como esta, tanto quanto aquele capaz de provocar motins enquanto voz dos Da Weasel ou d’Os Dias de Raiva; o mesmo que explorou os recantos da introspeção mais descarnada com a mesma intensidade com que rimou amor, carinho e amizade. Após celebrar meio século, o artista quis apresentar uma súmula alquímica de todas essas facetas no seu terceiro disco — Quinta-Essência 75/25, com edição marcada para 27 de março — , ainda que admita que é “um projeto fadado ao falhanço”.
“Não consigo meter num disco — tenha ele 36 minutos ou duas horas — aquilo que é a minha história, não só musical, mas de vida. Mas, ao mesmo tempo, é uma aproximação, é uma ideia”, conta ao Observador. Ao longo de 37 minutos, Carlão percorre estilisticamente as várias fases da carreira, do experimentalismo spoken word de Algodão ao percurso que encetou nos seus trabalhos a solo dos últimos anos, contando com um rol de companheiros para cumprir essa missão.
Do anterior disco, Entretenimento?, para este distam oito anos que se explicam com a pandemia, o regresso dos Da Weasel, mas também da ausência de “uma certa disponibilidade mental” para conceber um disco, optando antes por singles e temas avulso. “Se formos a ver, continuei a fazer coisas; sinto é que tive alguma dificuldade a encaixá-las”, admite.
É dessa fase em que esteve “à procura”, como assume, que sai hoje um homem a viver uma “segunda adolescência”, permitindo-se a experimentar coisas novas sem perder de vista a pessoa em que se tornou. Disso são exemplos Nair Ki Fla e Oh nha nené, temas cantados parcial ou totalmente em crioulo, numa tentativa de “fazer as pazes” com as raízes cabo-verdianas que por vezes optou por não abraçar. Além de explicar como foi concebido o disco, Carlão partilhou como se sente quanto à atual situação política do país e os riscos de ser excessivamente inflexível quando se está a tentar chegar ao outro lado. Além disso, refletiu também como é ser um artista em fase de amadurecimento numa indústria que tende a optar pelo novo e descartar o já conhecido. O seu mote daqui para a frente é este: “Não sabes, mas vais à mesma. Mais vale mergulhar de uma forma atabalhoada do que não fazê-lo de todo.”

A ideia da quinta essência refere-se à destilação mais pura de algo, mas também de alguém. Esta expressão batiza este novo disco, pelo que pergunto: é a destilação mais vital de quem é, pelo menos neste momento?
Sim, a ideia era essa, até porque nos últimos tempos só tenho editado singles. Nos últimos anos tive vários projetos na cabeça, desde um EP com os Beatbombers que acabou por não sair, outro que se chamaria As Formas do Verbo Amar que não saiu também, e outro ainda que se chamaria Detox. O tempo foi passando e, por uma razão ou outra, acabei por não avançar com esses projetos, mas tinha essas ideias. Quando se aproximaram os meus 50 anos, pensei “por que não fazer mais alguns temas e juntar isso num disco?” Porque, na verdade, estou a compartimentar coisas que juntas fazem todas as partes de mim. Posso lançar um EP só com temas mais pesados ou outro só com canções de amor, mas sou tudo isso. Para o Quinta-Essência juntei esses temas e mais alguns e tentei então que fosse um bocado não só a música, mas também a vida que me inspirou desde 1975 até agora, em várias fases. Há ali coisas mais dos primeiros tempos de Da Weasel, depois há outras até um bocado mais 5-30 — e fui buscar o Fred [Ferreira] por causa desse registo. Chamei o Branko, inevitavelmente, para trabalhar no lado mais afro e os Beatbombers são pessoas com quem fiz muitas coisas também.
Este é um álbum mais curto que os anteriores. Essa concisão tem a ver com uma ideia de “essência sem gorduras”, uma coisa mais direta?
Acredito que as músicas ou os álbuns devem ter a duração que precisam. Se um tema precisa de seis minutos ou se um disco precisa de ter estes 36 ou 37 minutos, é o que têm. Aqui, à medida que os temas iam surgindo, uns mais antigos, outros mais recentes, eu ia fazendo aquele Tetris de encaixar, de ver qual é que ficava bem a seguir em termos de letra, do feeling, da música, etc… E houve ali um momento em que cheguei e disse “é isto”. E nem olhei muito para o tempo, porque, em boa verdade, isto é sempre um projeto fadado ao falhanço.
Em que sentido?
Não é um falhanço total, mas a questão é que não consigo meter num disco — tenha ele 36 minutos ou duas horas — aquilo que é a minha história, não só musical, mas de vida. Ao mesmo tempo, é uma aproximação, uma ideia e, na verdade, talvez venha daí de facto a quinta essência, a destilação, não tem gorduras.
Este álbum é apresentado como “uma retrospetiva sonora e pessoal” e isso, lá está, manifesta-se também um pouco na escolha das colaborações. Como é que se deu esse processo?
Convidar o meu irmão era inevitável. Claro que os Da Weasel foram grande parte das nossas vidas — mas não só, porque fizemos bandas de hardcore antes — mas depois disso, mesmo no meu trabalho enquanto artista a solo, ele fez temas tão importantes como o Assobia para o Lado ou o Na Loucura, que são duas coisas quase…
Diametralmente opostas?
Exatamente. E é uma pessoa com quem tenho uma facilidade muito grande de trabalhar e foi muito importante para mim neste percurso. O porreiro de trabalhar com o meu irmão é que ambos temos um espectro muito alargado e portanto disse-lhe “pá, não quero singles, quero aqui cena pesada”, porque sei que ele gosta também. Pedi-lhe isso porque estava a passar um bocado também por essa vibe e por essa necessidade de expiar aqui alguns demónios e preocupações — e o contexto sociopolítico também presta‑se a isto, diria eu.
Quanto à “cena pesada”, este disco também tem punk, tem a canção Corta e Cola.
Fui buscar a vibe da minha adolescência mais punk hardcore, sendo que nessa altura até acabava mais por tocar do que cantar, que foi uma coisa que sempre quis fazer. Acabei por fazer as contas com o passado nos dois discos d’Os Dias de Raiva, aí já a cantar. Foi uma coisa que me ficou, gosto muito desse registo. Talvez não conseguisse hoje em dia levar para a estrada um projeto daqueles, mas é uma coisa que faz muito parte de mim. É uma malha muito básica, chamei pessoal para tocar e fomos gravar estilo live, à antiga, todos numa sala,” um, dois, três, quatro, bora”. E essa parte está lá, plasmada, numa canção que eu gosto muito e que é incrível, porque tem 30 segundos, mas satisfaz‑me como se tivesse quatro minutos…
A própria Bomboca (Morde a Bala) é também um tema icónico dos Da Weasel e que nunca deixou de sair dos alinhamentos por essa razão, por oferecer essa descarga.
Exatamente. E tem uma função muito importante, que é essa catarse que se alcança ali. Sendo que a letra, sendo muito curta, também me diz muito, “a mesma letra, a mesma canção / a mesma treta, o mesmo refrão”. Quase não consigo ouvir rádio, vou passando-as e parece que é sempre a mesma canção que está a tocar, pronto.
[o vídeo de “Na Loucura”:]
https://www.youtube.com/watch?v=mWPM3ZJ1gv0&list=RDmWPM3ZJ1gv0&start_radio=1
Voltando à conceção do Quinta-Essência 75/25, como se deram as outras colaborações?
Quanto ao Fred, tocámos juntos nos Dias de Raiva mas ele não teve grande preponderância na composição, ao contrário do que aconteceu nos 5-30, um projeto muito importante, apanhou-me numa altura da vida em que estava super indeciso. O Fred espicaçou‑me muito e musicalmente acho que nos ligamos bem porque há uma certa melancolia na música que ele faz — com alguma esperança e, às vezes, com algum veneno também. Quis que isso viesse para o disco, porque ele foi uma pessoa que marcou uma parte importante da minha vida. Depois, com os Beatbombers, estávamos de facto a fazer um EP e um tema na pandemia, a Aviões, sendo que tínhamos vários temas alinhados. Um deles acabou por dar origem ao Oh nha nené, já com outro beat do Stereossauro; a (Sabes a) Natal e a Intrujas e Otários ficaram no disco também. Uma das coisas que gosto mais de trabalhar com eles, seja com o Ride, seja com o Stereossauro, é que eles, se calhar por fazerem isto há muito tempo, têm uma linguagem musical que não só tem grande abertura como cabe em qualquer tempo e em qualquer espaço.
O álbum conta também com uma série de interlúdios que fazem lembrar o spoken word de Algodão.
E noutros temas que trabalhei, como a Dez Palcos e a É Melhor que Esqueça, também recuperei uma vibe que me diz muito, um registo entre a palavra dita e rappada que penso que acabou a ser mais próximo da palavra dita. Tentei criar ali sonoridades que encaro, juntamente com os interlúdios, como um género de Algodão 2.0. Esse projeto surgiu com um primeiro disco que gostei bastante de fazer; o segundo tentei musicá-lo demais e acho que não fui muito feliz em alguns momentos, perdeu-se um bocado daquilo que era a premissa. Mas é também uma parte de mim que quis trazer aqui.

E o Branko, como é que entra na equação?
Ele foi muito importante para mim nos últimos anos e no meu primeiro disco, porque Os Tais é o single que o catapulta e que vende concertos! Até tinha pedido dois temas ao Branko e estava a trabalhar no outro, mas quando fechei o A Sorte, que foi o último a entrar no disco, encaixei-o no puzzle e pensei “está feito”. Sei que vou fazer mais coisas com ele mais à frente, mas aqui já está.
E há o Nair Ki Fla, que é um tema com o qual estava meio chateado, porque é uma letra de um primo meu [José Maria Neves, Presidente da República de Cabo Verde] que recebeu o desafio de um artista que quis musicar poemas dele. Ele falou com várias pessoas, inclusive comigo e com o meu irmão, para então pegarmos num poema, musicá-lo e cantá-lo. Saiu em 2021, mas nunca fiquei muito contente com a voz nessa primeira gravação, porque está meio esganiçada. E mais do que isso, acho que não faz justiça ao poema, tem uma doçura e uma profundidade que na música estava OK, mas na voz não. Então tive de refazê-lo para fazer justiça ao tema e metê-lo aqui, sendo que essa é também uma parte que tenho vindo a recuperar nos últimos anos, essa ligação para mim inevitável com Cabo Verde, mas que foi sendo feita muito timidamente.
A esse respeito, ao longo destes anos tem feito essa admissão de que, não obstante as raízes cabo-verdianas, a música do continente africano entrou muito mais tardiamente na sua vida. Podemos traçar um paralelo com a sua obra: é também só agora que o vemos cantar em crioulo, em Oh nha nené e Nair Ki Fla. Como tem decorrido esse processo para agora chegar aqui?
Desde muito miúdo que eu — mais o meu irmão e, de certa forma, uma malta de Almada — ouvi muita música diferente. Foi uma salganhada numa altura em que havia muitas tribos e que só era OK pertencer a uma — ou era do metal, ou era do rap, ou era gótico, o que fosse. Acabámos por fazer parte de todas e de nenhuma ao mesmo tempo. Mas, de facto, a música que nós ouvíamos era americana ou inglesa, e não havia essa ligação nem essa procura por África. Depois, com o passar dos anos, e acho que com algumas idas a Cabo Verde também, formou-se um bocado essa consciência. Isso aconteceu-me mesmo com a própria música portuguesa. Foi meio fora porque eu tinha referências para ir buscar que estavam mesmo ali à mão de semear — fosse o Sérgio Godinho, o José Mário Branco, tanta gente… —, mas, por uma razão ou outra, não queria ver. Não quero dizer que isso tenha sido bom, mas, por outro lado, teve um efeito engraçado.
[o vídeo de “Oh nha nené ”:]
https://youtu.be/Nitd5GxC84E?si=8UnQvJIEryJZc620
Porquê?
Porque numa primeira fase eu ainda decalcava, quase que copiava as letras do inglês — e algumas copiei mesmo e depois meio que traduzi para português. Mas depois disso, fui obrigado a descobrir uma linguagem própria, que foi mais fácil de encontrar sem essas referências, porque senão teria ficado muito colada a elas.
Ou teria, de certa forma, sentido um tipo de intimidação paralisante a fazer a comparação com esses gigantes das letras de canções?
Sim, também. Ainda que ache que a minha escrita, em termos poéticos, estará sempre na sua maior parte mais próxima do António Aleixo do que do Fernando Pessoa, porque é uma coisa mais imediata, mais direta. E nesse aspeto, fazendo o paralelismo com esses autores portugueses, se calhar a linguagem deles também não é bem a minha.
Não é que houvesse uma “zanga”, mas houve um certo “fazer as pazes” com as origens cabo-verdianas?
Talvez, talvez. Há uma tentativa disso, porque acho que uma das razões de não haver crioulo na minha música — e, ainda hoje, isso é meio tabu para mim, quase nunca o falo apesar de arranhar — é os meus pais terem emigrado para Angola. Eu e o meu irmão nascemos lá e depois é que viemos para Portugal, em 1975. E, segundo dizem, à semelhança de muitos dos cabo-verdianos que foram para Angola, os meus pais, de certa forma, abandonaram o crioulo. Quando vêm para Portugal, então, é mesmo posto de parte.
Foi uma questão de adaptação?
Sim, os meus pais sempre falaram com a família em crioulo — mais a minha mãe, o meu pai nem por isso — mas é essa adaptação. E, durante muito tempo, isso fez-me muita confusão, não conseguia perceber [o porquê de evitarem falar crioulo], mas hoje já o entendo muito melhor, porque eles já sobressaiam apenas pela cor da pele sem precisar de abrir a boca. Portanto, evitavam sobressair mais, queriam apenas adaptar-se e ter uma vida tranquila e fizeram esse esforço. Acho que abraçarem o português como língua principal fez parte desse processo, mas deixou-me ali num lugar meio estranho.
https://observador.pt/especiais/a-epopeia-de-dino-dsantiago-hoje-ja-me-sinto-merecedor-de-tudo/
Em que sentido?
Podia ter ido atrás dessa herança, mas não fui. Tudo isto levou-me a fazer as pazes com uma realidade que muitas vezes não abracei. A partir do momento que vou começando a ir a Cabo Verde mais vezes e sinto aquela realidade, há essa necessidade e esse sentimento de pertença também, mas sempre muito tímido. Para fechar mais ou menos o tema, acredito que a grande mais-valia de se fazer qualquer coisa ligada a essas raízes é, de certa forma, fazê-la à nossa maneira com elementos diferentes. E vemos, por exemplo, no caso do Dino D’Santiago, que quando se lançou na carreira a solo, fê-lo num estilo completamente roots [tradicional] — e isso não furou, não bateu. E acredito haver uma razão muito simples: há pessoas a fazê-lo melhor há décadas em Cabo Verde. O Dino, quando tem sucesso e realmente encontra uma identidade que é dele — que é essa misturada de uma coisa já mais europeia com África, esse sentimento da diáspora —, aí ouvimos e ficamos “eh pá, isto já é outra fruta”.
Portanto, é uma questão de encontrar uma identidade própria?
Exatamente, é isso mesmo. Sempre senti que um dos meus grandes trunfos na música era não ser demasiado bom numa coisa. Porque cresci rodeado de músicos que eram tão bons que aquilo que faziam era a cópia dos artistas que gostavam. Era uma cópia incrível, mas era a cópia.
Emulavam demasiado bem as suas referências?
Precisamente, e às vezes é bom não ser assim tão bom, porque depois fazemos aquilo de uma forma meio tosca, meio irregular, e isso é que tem o seu sumo. Claro que há gajos que são muito bons e que não copiam, mas é mais fácil fazê-lo.
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Voltando um pouco atrás na conversa, entre Quarenta e Entretenimento distam apenas três anos, sendo que pelo meio surgiu o EP Na Batalha. Mas desse segundo disco para este passaram-se oito anos, e neste período deu-se a pandemia, o regresso dos Da Weasel e também a participação no The Voice. É isso que explica um intervalo tão grande?
É um bocado disso tudo, juntando-se algumas coisas pessoais. Precisava de uma certa disponibilidade mental que se calhar não estava lá. Mas, se formos a ver, continuei a fazer coisas; sinto é que tive alguma dificuldade a encaixá-las. Portanto, houve a conjuntura dessas situações todas e, a nível pessoal, confesso que também andei meio “à procura”.

Recuperando uma entrevista com o Pedro Quaresma dada a João Gil no programa A Pente Fino, em 1997, na Antena 1, nessa altura afirmou que havia racismo em Portugal, ainda que dissimulado. Quase 20 anos depois, em Na Loucura, recupera essa ideia. Como olha para esta realidade?
Com muita apreensão. Quando aconteceu a agressão pelos elementos de um braço armado da extrema-direita à malta do Teatro da Barraca e houve uma manifestação lá mesmo em frente — tal como houve depois também no Marquês, fui a ambas — lembro-me de estar lá com a minha filha mais velha, encontrar alguma malta e pensar “como é que parece que estamos de novo nos anos 90, quando havia os carecas todos na margem sul e em Lisboa?! Como é que esta merda acontece?!” Dá muito que pensar. Ao mesmo tempo que nunca esperei no meu tempo de vida ver um presidente preto nos Estados Unidos — era uma coisa que achava que estava tão longe que nunca iria acontecer —, logo a seguir apanhamos um Trump. E aqui, depois de termos passado por tantas coisas, tendo uma herança tão grande e tão próxima como é a do 25 de Abril, a consciência que parecia estar presente era de termos, de certa forma, ultrapassado essa altura dos skinheads e de que Portugal tinha começado a abrir depois de estar tão fechado em si próprio. Venho de uma altura em que quase não havia a presença de pessoas não-brancas em Portugal. Claro que havia o pessoal das ex-colónias, mas muito mais nos bairros do que fora deles, sendo que depois a coisa foi abrindo, foram entrando pessoas diferentes.
E começou a haver maior presença de pessoas racializadas no espaço público e em lugares de importância.
Exatamente, mas de repente dou por mim e isto está tudo a acontecer de novo. Não só isso, como esta onda de misoginia. Tínhamos aparentemente ganhado tanto em relação ao racismo e ao machismo e agora parece que não aprendemos nada, que demos dois passos à frente e estamos a dar três atrás. É muito complicado gerir isso tudo. Se calhar o facto de eu [em Na Loucura] fazer uma crítica não tão “in your face” é porque estamos a viver uma polarização tal das coisas que se calhar torna-se mais interessante fazê-lo de uma forma não tão direta e mais eficaz, para que a mensagem passe mais.
Em que sentido?
Sou de esquerda e sempre me identifiquei como tal, mas dentro dos meus valores cabem muitas coisas. Por exemplo, com todos os defeitos que se possa apontar ao homem, encaro Marcelo Rebelo de Sousa como um humanista. É uma pessoa de direita, mas há muitas coisas em que concordo com ele. E vivemos numa altura em que parece que, sendo de esquerda, é preciso ser totalmente oposto às ideias de direita, e vice-versa. Não só isso define alguém como põe essa mesma pessoa num lado em que não se quer conversar, ninguém quer ouvir e toda a gente chuta para canto porque quase odeia o outro lado — e isso acontece de ambas as partes. Hoje, para mim, é muito mais fácil fazer passar uma ideia sem associá-la à esquerda ou à direita do que colocá-la nesses campos, porque senão acabou, já ninguém vai ouvir. Consigo fazer esse exercício, de ver que há vários gajos de direita — não são a maioria porque, lá está, sou de esquerda — com os quais converso, posso discutir e concordo numa série de coisas, mas a maior parte das pessoas não está nessa.
Consegue concordar porque há um chão comum. Isso está em causa?
Claro que há coisas em que é preciso escolher um lado, aí já não é uma questão de esquerda ou direita, porque há posições que não posso perder. Mas noutras, se veiculo uma ideia quando já me colei a uma cor ou corrente política, a pessoa do outro lado nem quer ouvir, não tem essa capacidade. Portanto, se calhar é mais interessante passar uma ideia numa letra ou num texto que não seja tão colada a essa cor, porque senão não passa.
Mas não deixa de ter uma certa graça que, mesmo dentro deste tema, tem algumas referências não assim tão subtis: “Subimos o Montenegro, caímos na desventura” ou quando propõe no fim “O que seria? (Não haver classes sociais)”
Sim, são ideais comunistas.
Portanto, há ideais de que não prescinde, que não podem ficar de fora?
Claro, mas quando falo em classes sociais, é uma coisa que Jesus Cristo diria! Podemos ver isto de várias formas. Podemos dizer “ah, aquilo ali é cartilha de esquerda”, mas não é só isso; é humanista, acima de tudo.
Ainda em Na Loucura, há um verso que parece ser a súmula desse desespero, que é “o que fazer quando a maioria os elege”. Porque a democracia também é isso?
Precisamente, e muita gente tem aquela teoria do “deixa seguir, as pessoas vão perceber os seus erros”, como está a acontecer muito nos Estados Unidos, não é? Um monte de gajos que votaram Trump estão agora a perceber “fizemos porcaria, este gajo está completamente destravado”.
Uma das frases tem sido “não foi nisto que votámos”.
Mas votaram! E mesmo que se apercebam disso, entretanto são destruídas muitas coisas que se alcançaram, inclusive a vida das pessoas, economias, países… Enquanto que no Brasil, por exemplo, ainda que seja também um país complicado, o Bolsonaro até está preso, mas nos Estados Unidos e numa série de outros países, é diferente. Em Portugal não sei como é que isso poderia funcionar. Quanto a isso, tenho mais perguntas do que respostas.

Há outras leituras que se podem fazer deste título. “75/25” refere-se à data de nascimento e à data em que fez 50 anos, mas também podemos encarar como três quartos mais um quarto, como que representando uma fase final. No derradeiro tema do disco, todavia, afirma “mas o meu último canto não vai ser hoje”. Que reflexão faz do envelhecimento — ou, vá, do amadurecimento — do artista?
Há as duas coisas! Há um amadurecimento e há um envelhecimento. Participei na cerimónia que foi feita [a 13 de março] pela Câmara de Lisboa na atribuição da Medalha de Mérito Cultural ao Sérgio Godinho e foi muito fixe vê-lo, com 80 anos, ali presente. A idade é um facto incontornável, é uma evidência que não dá para escamotear. Ele disse uma coisa numa entrevista há uns anos e que me ficou na cabeça: “Não tenho medo da morte, tenho é pena”. Há um medo, que é humano, mas não é isso que prevalece; é antes a sensação de constatares que cada vez tens menos tempo para fazer as coisas, isso dá alguma pena. Por outro lado, n’O Último Canto, há também uma coisa diferente e que acredito que toda a gente acabe por passar por isso. Para lá do tempo que tens ou não para fazer coisas, pergunto-me se ainda continuo a ser relevante, se ainda continuo, de certa forma, a fazer alguma diferença artisticamente. E essa é a questão que ponho ali. Quero acreditar que sim, porque vejo que vou tocando em novas gerações e que me vou desafiando. Mas ao fim de estar a fazer coisas há mais de 30 anos, é mais que natural cada vez ter menos certezas. Aos 20 anos, vamos viver para sempre, nem questionamos. Temos as certezas todas em relação a tudo. Mas depois vamos percebendo que não sabemos porra nenhuma. Portanto, é um apanhado, são essas coisas todas. Andamos aqui a navegar à vista, a tentar fazer o nosso melhor, a tentar não nos chatear, a tentar surpreender-nos, principalmente. E felizmente eu digo ali que não é o meu último canto porque ainda sinto que quero fazer muita coisa. Vamos ver.
O hip-hop é por vezes considerado um género musical que privilegia a juventude e que empurra os mais velhos para fora. Há um lado irónico aqui, porque o rap é uma criação ainda muito recente e os seus precursores só agora estão a entrar na velhice. Ao mesmo tempo, a tentação de um artista em querer manter-se relevante incorre no risco de cair no ridículo ao tentar parecer jovem quando já não se é. Como encara tudo isto?
Tem tudo a ver com perspetiva — e concordo plenamente com esa ideia. De facto, ainda bem que não me revejo nesse estereótipo [do rapper] porque é menos uma coisa com que me preocupar, porque dentro do hip-hop há muita coisa em que não me revejo. Foi pacífico sair desse padrão, porque não faço parte dele, não sou esse gajo. Sempre ouvi muito mais música do que isso, sempre li outras coisas, sempre tive outras referências que não se esgotam no hip-hop, para o bem e para o mal. É um género que tem a sua primeira geração de cotas agora, mas acho que ainda é muito cedo avaliar se vamos ter pessoal a fazer coisas ou não, porque os primeiros agora é que estão a chegar aos 60. A verdade é que o hip-hop privilegia muito o sangue novo, mas se calhar o rock durante uns tempos também foi assim até dar a volta. É um bocado precoce ainda fazer essa avaliação. Mesmo que não seja nesse estilo musical, corremos sempre esse risco noutro qualquer.
Mas no que toca ao rock, já se tornou um padrão. Já temos os “dinossauros do rock”.
Sim, mas para eles é na boa. Se forem homens brancos do rock, é na boa tocar até aos 80, ninguém critica nem há vergonha nenhuma nisso. No entanto, se for uma mulher já se critica, já se diz que está a fazer figuras, que era melhor não fazer aquilo. Vi a Grace Jones com 71 anos — que era a idade da minha mãe na altura — a dar um concerto no Alive com um dildo! Foi tudo menos ridículo. Lá está, é tudo uma questão de perspetiva. O André 3000, quando entrou agora nesta fase da flauta, disse uma cena que não gostei nada de ouvir, que não se imagina a rimar sobre a próstata ou colonoscopias. Porquê? Acho isso muito estúpido. Ainda por cima o rap dele não era assim tanto de falar de gajas, de dinheiro. Mas é isso que interessa?
Ele fazia mais canções no sentido de contar uma história.
E é possível contar essa história! Ele fala muito do rap como aquela crónica do dia a dia e, nesse aspeto, não cabia lá a colonoscopia. Mas por que não? De certeza que é bem mais interessante do que muitas das coisas que os mumble rappers estão a dizer hoje em dia.
[o vídeo de “Passo A Passo ”:]
https://youtu.be/w1vjvf77I0M?si=mx5S905RgAzsPWWN
Pergunto se essa rejeição — na música no geral, mas particularmente no rap — não advém de uma ideia de um certo aburguesamento quando se envelhece enquanto artista bem sucedido, porque não há aquela fome ou aquela motivação do início.
Pode ser isso, sim. Mas por outro lado, estamos a viver numa altura em que o rap está mais mainstream do que nunca. Aliás, até aos últimos quatro ou cinco anos era a música mais mainstream, o que o tornou num género muito pouco interessante, no sentido em que não se estava a reinventar, começou a cair em muitas repetições. Não sou um hater do autotune, gosto de algumas coisas e da estética até, mas foi mais uma peça muito importante nessa estandardização da música, que começou a ficar muito igual. Ou seja, é um facto que esse aburguesamento já aconteceu; foi de outra forma, mas aconteceu. Há ali um grande conforto nessa estandardização e nessa maneira de perceber o que é que funciona. Começou a ser-nos vendido como uma cena que é cool, mas tem muito pouco daquilo que é a essência do cool, que é um bocado não querer saber e fazer as cenas. Pelo contrário, esse cool é muito pensado e estudado, vem numa base de “isto funciona e vende, então bora fazê-lo”. Portanto, não é assim tão fixe como isso.
https://observador.pt/2019/12/04/jay-z-aos-50-anos-o-velho-gangster-americano-que-construiu-um-imperio-com-a-alma-de-um-poeta-e-a-mente-de-um-assassino/
Numa das estrofes de A Sorte, cantas “Mergulho tipo Jay-Z, trapalhão / Baralho como Chico em Construção / Vou à procura duma nova canção / Fora de pé dentro do coração”. A referência ao Jay-Z é interessante, não só por causa do meme, mas porque ele estabeleceu quase que um padrão de como lançar um álbum como rapper mais maduro com o 4:44. Serviu de referência?
Sim, sendo que estamos em mundos muito diferentes. Eu sou de Cacilhas, o Jay-Z é de Brooklyn, são realidades tão distantes…! Na forma como ele encara algumas coisas é uma referência, mas pronto, não posso dizer que seja um artista que me norteie… tal como o Chico Buarque também não é. E digo-o enquanto pessoa que conhece melhor o trabalho do Chico Buarque que o do Jay-Z. Nessa dica há um piscar de olho a artistas de que gosto, mas também a uma série de situações. O mergulhar do Jay-Z se calhar até é mais literal do que se possa achar, porque eu mergulhava assim! A malta até gozava comigo! Mas isso também denota uma vontade que eu tenho: não sei, mas vou à mesma. Mais vale mergulhar de uma forma atabalhoada do que não fazê-lo de todo, é essa a ideia que eu quero passar. E daí essa sensação da Construção, desse exercício que o Chico Buarque faz na letra de ir mudando sempre as palavras nos versos e vão tendo sentidos diferentes. E de facto um gajo está sempre em construção. Olho para mim e discordo muitas vezes de coisas que já disse no passado, mesmo musicalmente. Portanto, um gajo está em construção, sempre. Não gosto nada daquela ideia do “este gajo é ‘real’, porque se manteve sempre naquela linha…”
Porque há uma diferença entre ser fiel a si mesmo e estagnar?
Nem mais. É uma linha muito ténue em alguns aspetos. Há coisas que nunca vou mudar, são os meus valores humanos e sociais e isso, para mim, mantém-se. Agora, artisticamente, acho que há um espectro grande, e convém desafiares-te.
Na Intrujas e Otários, partilha parte dessa experiência com uma geração mais nova, talvez mais iludida pelo sucesso imediato. “Putos a verem todos quem é que tem a picha maior / Enquanto isso são comidos porque não sabem melhor /Cabeça cheia com droga barata putas em redor / Cuidado com o streaming só esse feeling não vale o suor”. Nesse sentido, considera-se um sobrevivente?
É difícil não entrar naquela coisa do “eu é que sei, no meu tempo era diferente”, mas existem de facto diferenças. Há coisas muito melhores e outras muito piores agora, é relativo. O streaming realmente baralhou as coisas. Para o pessoal que já cresceu com ele, é uma coisa, mas para nós, para mim, que vim de uma cultura completamente diferente, há certas cenas que me fazem confusão. Conheci um rapper que, para ele, o conceito de ensaio não existia. Ele não ensaiava porque não fazia sentido ensaiar. Hoje em dia, por acaso, já o faz, passou a encarar isto de forma diferente. Quando falo com uma série de pessoas no Intrujas e Otários, é para dizer que o sucesso — no streaming e não só — pode ser ilusório. As pessoas vão tendo cada vez mais noção disso, mas é muito fácil o deslumbramento. Se calhar só não me deslumbrei mais na vida porque, mal ou bem, o meu sucesso e dos Da Weasel não foi imediato, o que nos deu tempo de ir criando ali um caldo e percebendo algumas cenas. Mas percebo que seja muito difícil para uma pessoa que tem sucesso da noite para o dia não deslumbrar-se e pensar que aquilo que está ali vai durar para sempre. Mas não vai, principalmente num mercado como o português, que é muito duro.
Neste álbum nota-se também em várias canções um certo deslumbramento com a surpresa de voltar sentir coisas inesperadas. A (Sabes a) Natal. É um desses casos?
Apesar das coisas estarem a sair em 2025, este disco é, de facto, 75/25, portanto não quer dizer que seja necessariamente uma coisa de agora. A Natal, por exemplo, é uma música que já existe há bastante tempo. Aí estamos a entrar já num lado pessoal que até acho que tira um bocado a piada depois à audição. Porque a música, como qualquer arte, é completada pela pessoa que a usufrui. Seja a leitura que tu fazes de um quadro, a ideia que tu tiras da história de um filme ou a audição que fazemos de uma música. Quando isso é demasiado mastigado e explicado, depois também perde a sua piada.
Ou quando é demasiado contaminado por fatores externos?
Sim, e às vezes as pessoas viajam demasiado na maionese e isso até é interessante, devo confessar que gosto. Agora, principalmente quando são coisas de um aspeto mais romântico, acho que é muito fixe não revelar muito. Sobre uma referência ou a uma crítica política, é mais fácil, porque elas têm essa função. Noutros registos mais poéticos, é fixe não explicar demasiado.
[o vídeo de “Para Lá da Espuma”]
https://youtu.be/RVQGE-WrZ4k?si=IdgrqzZkx7umZy8y
Mas sendo este o álbum dos cinquenta anos, é natural que surja esse tipo de associações da parte de quem ouve, não?
Claro, percebo. E devo dizer que tem sido uma surpresa, esta década dos 40 aos 50. Foi muito fixe porque realmente comecei a mergulhar melhor! E isto pode ser uma analogia para muitas coisas. Há uma série de coisas que fiz nos últimos anos que, por uma razão ou outra, não me permitia a mim próprio fazer. A partir do momento que me permiti a isso, fui descobrindo coisas fixes, é quase como uma segunda adolescência a muitos níveis — inclusive a nível amoroso. Mas é uma adolescência feita com outra experiência e, automaticamente, com uma fruição diferente das coisas.
No início de Quarenta, afirmava que olhava ao espelho e continuava a ver “o mesmo puto de sempre… talvez mais experiente”. Neste disco, essa expressão surge novamente, nos scratches da introdução. É esse o sentimento que prevalece, aos 50?
É, mas é um espelho cada vez mais virtual e menos literal. Olhando para um espelho mental, sim. E diria que essa é a grande rasteira do envelhecimento, além das questões de saúde. É não sentir a idade que temos, o que é lixado. Não a sentimos, mas ela está lá — se calhar ainda bem que não sentimos, senão ainda era pior. Quando olho para esse espelho mental, continuo com muitas coisas de puto, de criança. E se calhar tenho uma vida que me permite também brincar mais, porque faço música; apesar de haver muito trabalho, e há, é uma vida diferente. Agora, se olhar para o espelho a sério, não vejo lá puto nenhum.