Em 900 anos de História, Portugal produziu um número absolutamente extraordinário de aventureiros, estadistas, navegadores, poetas, guerreiros, cientistas e fazedores de História. Não de pequena história. Não da história menor das intrigas de corredor, dos joguinhos partidários, das carreiras de aparelho, dos favores distribuídos entre medíocres. Falamos da grande História. Da História que muda o mundo. Da História que abre oceanos, ergue reinos, funda línguas, rasga impérios, redesenha mapas e deixa marcas eternas na civilização humana.
É por isso que se torna ainda mais revoltante assistir à pobreza moral, intelectual e até espiritual de tantos dos que hoje nos governam ou aspiram a governar-nos. Gente sem grandeza, sem memória, sem cultura histórica, sem noção da dimensão do país que herdaram. Gente que pouco sabe do nosso passado e que, do pouco que sabe, não admira, não exalta, não promove. Pior: inveja. Inveja profundamente aqueles que, com quase nenhuns meios, com recursos escassos, com um pequeno território encostado ao mar, conseguiram fazer de Portugal uma das maiores forças civilizacionais da História da humanidade.
Portugal não nasceu para ser governado por contabilistas da decadência. Portugal não nasceu para ser administrado por carreiristas sem chama, por tecnocratas sem pátria, por gestores da pequenez, por burocratas do conformismo, por analfabetos funcionais da nossa própria memória coletiva. Portugal nasceu de homens maiores do que o seu tempo. E só voltará a erguer-se quando voltar a premiar o mérito, a coragem, a ambição, a inteligência e a audácia.
Olhemos para trás, não por saudosismo estéril, mas por dever de comparação.
Comecemos por D. Afonso Henriques, fundador de Portugal, o homem que ousou tornar possível o que parecia impossível. Num canto da Península, entre reinos mais fortes, ameaças constantes e recursos limitados, criou um país. Não herdou uma potência. Fez uma nação. Fundou um reino com espada, fé, visão e vontade.
Depois vieram os Reis e as gerações que consolidaram essa obra. E quando Portugal parecia pequeno demais para o peso do seu destino, surgiu D. João I, o Mestre de Avis, e com ele uma nova dinastia, uma nova energia nacional, uma nova afirmação de independência. Com Nuno Álvares Pereira, herói maior da nossa liberdade, garantiu que Portugal não seria absorvido, apagado ou subjugado. Aljubarrota não foi apenas uma batalha. Foi a declaração de que este povo, quando sabe ao que vem, não se verga.
E foi dessa matriz, dessa Ínclita Geração, desse raro casamento entre liderança política, cultura, estratégia e vontade histórica, que nasceu o impulso que mudou o mundo.
Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança e abriu o caminho marítimo para o Oriente. Vasco da Gama chegou à Índia e alterou para sempre a geografia do comércio mundial. Pedro Álvares Cabral tocou o Brasil e lançou uma das mais prodigiosas expansões linguísticas e culturais da História. Fernão de Magalhães iniciou a primeira circum-navegação, provando com coragem absoluta aquilo que os livros não bastavam para demonstrar. Fernão Mendes Pinto testemunhou a espantosa amplitude da presença portuguesa no Oriente. Pedro Nunes elevou a ciência náutica portuguesa ao mais alto nível do seu tempo. Garcia de Orta fez avançar a medicina e o conhecimento botânico num mundo ainda envolto em superstição e ignorância. Luís Vaz de Camões deu-nos, em versos imortais, a epopeia de um povo que ousou mais do que o seu tamanho permitia.
Mas entre todos esses nomes, há dois que deviam ser estudados, admirados e repetidos muito mais vezes por qualquer dirigente político português que se preze.
Francisco de Almeida, o primeiro Vice-Rei da Índia, na Batalha de Diu, demonstrou ao mundo que Portugal não estava no Índico para fazer figura decorativa. Estava para impor ordem, proteger rotas, garantir presença e afirmar poder. Diu foi um feito militar monumental. Num teatro longínquo, contra forças superiores e numa conjuntura dificílima, Portugal mostrou disciplina, génio naval, firmeza estratégica e capacidade de projeção global. Um pequeno reino europeu fez-se respeitar no coração do comércio asiático.
E depois Afonso de Albuquerque, talvez um dos maiores génios estratégicos da nossa História. Goa, Malaca, Ormuz. Três nomes que deveriam fazer vibrar qualquer português com um mínimo de sangue nas veias. Em especial Ormuz, o estreito vital entre o Golfo Pérsico e o oceano aberto, ponto nevrálgico do comércio mundial do seu tempo. Albuquerque percebeu antes de muitos que quem domina gargalos estratégicos domina fluxos, e quem domina fluxos condiciona impérios. Num tempo sem satélites, sem motores modernos, sem cadeias logísticas industriais, Portugal soube pensar globalmente e agir com eficácia brutal. Isso não foi acaso. Foi mérito. Foi liderança. Foi visão. Foi grandeza.
E no entanto, que contraste com o presente.
Como é possível que este retângulo inquieto, improvável e genial, que tanto deu ao mundo, que tanto ofereceu a tantos povos, que abriu caminhos, fundou cidades, levou língua, ciência, fé, comércio e conhecimento a quatro continentes, se tenha resignado, nos últimos cem anos, a ser governado tantas vezes por gente tão pequena? Como é possível que os sucessores administrativos de uma nação feita por gigantes se contentem com a gestão da estagnação, com a normalização da pobreza, com o culto da dependência e com a perseguição sistemática do mérito?
O problema de Portugal não é falta de talento. Nunca foi. O problema de Portugal é ter permitido que o mérito deixasse de mandar. É ter aceite que a mediocridade organizada ocupasse o lugar da excelência criadora. É ter trocado os construtores pelos distribuidores, os visionários pelos funcionários, os audazes pelos conformistas, os exigentes pelos ressentidos.
Um país que produziu Afonso Henriques, D. João I, Nuno Álvares Pereira, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Cabral, Albuquerque, Francisco de Almeida, Camões, Pedro Nunes, Garcia de Orta, Catarina de Bragança e tantos e tantas, não pode resignar-se a ser uma sociedade onde a inveja pesa mais do que a admiração e onde o sucesso alheio é visto como ameaça em vez de inspiração.
E atentemos ainda ao maior milagre duradouro da nossa História: a língua portuguesa. O Brasil, a nossa mais extraordinária criação histórica no plano civilizacional, com mais de 220 milhões de falantes, é prova viva de que Portugal foi muito maior do que a sua geografia. Da mais remota tribo amazónica à mais distante província do Sul do Brasil, fala-se a língua de Camões. A mesma língua que se fala em Portugal, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, na Guiné, em São Tomé e Príncipe, Timor e em bolsas de resistência admirável em Goa, Damão, Diu, Macau e Malaca e quem sabe também em Hiroxima e Nagasaki. Poucos países no mundo podem olhar para o espelho da sua língua e ver nele tantos continentes, tantos povos, tantas histórias e tantas continuidades.
Portugal precisa, por isso, de mudar de rumo. Precisa de voltar a ensinar a sua História sem complexos, sem ressentimento, sem vergonha e sem amputações ideológicas. Precisa de celebrar os seus melhores. Precisa de substituir a cultura da desculpa pela cultura da exigência. Precisa de voltar a premiar quem cria, quem trabalha, quem arrisca, quem lidera e quem pensa em grande, sem medos e tibiezas, sem vergonhas e sem o esbulho do confisco tributário mas sobretudo com orgulho e esperança.
Não para viver do passado , mas para merecer o futuro.
Porque um povo que esquece os seus ilustres acaba inevitavelmente governado por medíocres. E Portugal, se quiser voltar a levantar-se, terá de escolher de novo entre a glória do mérito e rechaçar de vez o conforto apodrecido dos medíocres.
Viva La Libertad Carago!